Jair Magri/Divulgação
Jair Magri/Divulgação

TV Cultura e Viva resgatam carreira de artistas veteranos

Nos programa 'Persona em Foco' e 'Grandes Atores', eles recontam a vida profissional

João Fernando, O Estado de S. Paulo

18 Janeiro 2015 | 03h00

 A cena de um grupo de amigas sentadas à mesa com bolo e café enquanto a chuva cai do lado de fora remete a uma situação corriqueira. “Ai, eu preciso contar uma coisa”, avisa a atriz Etty Fraser. “Melhor não falar isso, não, é muito chato”, rebate a também artista Miriam Mehler. O que parece o início de uma briga entre amigas é, na verdade, a reunião em que elas e as colegas Ana Maria Dias e Analy Alvarez decidem o que vão abordar minutos depois, na gravação do Persona em Foco, novo programa da TV Cultura.

Prevista para estrear ainda este semestre, a produção vai relembrar a carreira de veteranos do teatro com muita história para contar. “Tentei fazer na outra vez em que trabalhei aqui, em 1994, mas a gestão mudou. Já perdemos muita gente nesse tempo”, reclama Analy, coordenadora de dramaturgia da emissora, que está retomando o projeto aos poucos. Por enquanto, só três edições foram gravadas. Além de Etty Fraser, participaram Laura Cardoso e Chico de Assis, morto este mês.


No Persona em Foco, o ator na berlinda é entrevistado por dois colegas com quem tem intimidade. Enquanto isso, o apresentador Atílio Bari ajuda a pontuar a conversa e, no último bloco, orienta a pequena plateia – formada apenas por jovens estudantes de teatro – a fazer perguntas. Ao longo da gravação, são exibidos depoimentos de outros amigos do entrevistado, todos do mundo artístico.

“O programa é singelo, pois o que vale é a persona. São pessoas que fizeram o teatro brasileiro. Não temos muito dinheiro nem infraestrutura”, explica Analy. No final do ano passado, a TV Cultura precisou rever os gastos novamente, pois a previsão de orçamento para 2015 era 21% menor. 

A primeira temporada só irá ao ar quando dez edições estiverem gravadas. Para fevereiro, está agendada uma entrevista com Eva Wilma. Apesar de os nomes até agora serem, na maioria, figuras conhecidas da teledramaturgia, os próximos artistas podem ser outros que não estão tão em evidência. “A TV Cultura tem essa obrigação de fazer com que essas pessoas que não são globais sejam vistas. A gente não quer ator só famoso, quer um que tenha experiência. A Etty é fundamental porque fundou o Teatro Oficina”, avalia a diretora.

Na gravação que o Estado acompanhou, em São Paulo, a atriz relembrou as peças em que atuou e momentos fora do palco, como o dia em que recebeu um prêmio das mãos do então presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976). “Ele era tão cheiroso”, contou, provocando risos no estúdio. A veterana, de 83 anos, disse ainda que largou a vida de professora de inglês para ganhar metade do salário como artista após receber um convite de Tônia Carrero, na juventude.

Para contemplar atores já mortos, Analy Alvarez pretende fazer edições batizadas de In Memoriam. “Será só com depoimentos, cenas de cada ator e fotos”, adianta. Entre os possíveis homenageados estão o dramaturgo Augusto Boal (1931-2009) e o ator Paulo Goulart (1933-2014). “Precisamos fazer o quanto pudermos com os que estão vivos. Não quero aumentar a lista do In Memoriam.”

Ícones. O canal Viva preparou para este ano a versão masculina do Damas da TV, batizada de Grandes Atores, com estreia marcada para a próxima quinta, às 23h30. Também coproduzida pela Hergus e pela SeuFilme, a atração segue o formato do ano passado, com 26 episódios de meia hora, em que artistas consagrados da telinha relembram histórias da vida profissional.

A faixa etária dos atores, porém, oscila mais que no programa das mulheres. Agora, veteranos como Lima Duarte, de 84 anos, e Tarcísio Meira, de 79, dividem espaço com novatos, como Mateus Solano, de 33. “A ideia inicial era produzir o Galãs da TV. Porém, o galã foi de um par romântico, não um vilão, sempre é um mocinho. A gente percebeu que seria redutivo. Hoje, há grandes atores em todas as gerações”, diz Fernando Schiavo, gerente do Viva, durante lançamento do programa no Rio. “Escolhemos pessoas que vão simbolizar o futuro”, complementa Hermes Frederico, idealizador do projeto.

Há mais de 50 anos da TV, Mauro Mendonça relembra que, no começo, era preciso enfrentar o preconceito para ser ator. “A profissão era estigmatizada. Artista era malandro, boêmio ou veado. Não tinha meio termo, nem esse negócio de gay, era veado mesmo”, diverte-se. “Esses caras ladrilharam uma estrada em que a gente anda com mais segurança. Eles foram bandeirantes da comunicação”, reconhece Thiago Lacerda, que estreou nos anos 1990.

Luis Gustavo afirma que entre os colegas também existe segregação. “As pessoas gostam de dizer que preferem o cinema à televisão porque o cinema é eterno. Desculpe, mas os personagens que fiz na TV são eternos: Beto Rockfeller, Mario Fofoca, Victor Valentín, Vavá. Tenho outros da época da TV Tupi que não estão na História porque não há acervo”, lamenta. O ator se faz de humilde ao responder por que entrou para a lista do programa. “Não sei se sou grande ator, sou um velho ator. Tenho 65 anos de profissão.”

Ney Latorraca diz que até amigos da velha guarda continuam a se desentender. “Brigamos demais, mas, se alguém de fora falar alguma coisa, a gente mata a pessoa”, ri. Por causa da convivência oscilante com os colegas, tem diferentes percepções, inclusive dos já mortos. “Hoje eu vi o Wilker (em um vídeo). Para mim, ele não morreu, não vai embora. Eles estão aí.”

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