Jef Delgado
Jef Delgado

Emicida: 'Todo mundo que quer colaborar com a transformação é bem-vindo'

O rapper estreia, no GNT, a série ‘O Enigma da Energia Escura'

Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2021 | 05h00
Atualizado 20 de agosto de 2021 | 18h31

Emicida está em Portugal, foi convidado para uma residência artística de três meses na Universidade de Coimbra. Mas o que o rapper paulistano vai mostrar aos portugueses? Em entrevista via Zoom, Leandro Roque de Oliveira demonstra sua realização com o feito, que é mais um reflexo de um trabalho que só tem gerado bons frutos, como é o caso do recente AmarElo (leia mais abaixo). “O que a gente vai fazer é produzir muitas reflexões, pois vou participar de seminários, produzir palestras, possivelmente aulas, vou estar à disposição dos doutorandos em Sociologia, caso eu possa acrescentar algo”, conta. 

Mas o divertido e irrequieto artista tem novidades também por aqui. Nesta quarta, 18, Emicida estreia no comando do programa O Enigma da Energia Escura, que irá ao ar a partir das 23h30, no GNT, e estará disponível no Globoplay. Com esse título criativo e profundo, que tem relação com o gosto muito particular do rapper por astrofísica, a atração terá cinco episódios na primeira temporada, e levanta discussão sobre o quão pouco sabemos. “Tudo, absolutamente tudo o que a gente conhece equivale a 4% do universo, ou seja, a gente não conhece nada”, afirma. 

E é a partir dessa constatação que o programa parte e que pretende oferecer ao público “informações a respeito do que seria essa parte com a qual a gente se relaciona tão pouco, esses outros 96%”, avisa Emicida. Em cena, o apresentador estará dentro de uma cabine espacial, ou um estúdio de gravação, como prefere. “Remete aos estúdios onde o hip-hop nasceu que, na verdade, era um aglomerado de parafernália eletrônica”, conta o apresentador, que logo deixa claro, rindo muito, só ter “receio de falar da nave e as pessoas subentenderem que vou chegar no programa tipo a nave da Xuxa. Isso não pegar bem porque eu sou rapper, vai acabar com meu respeito nas ruas (risos)”, diverte-se o irreverente Emicida. 

Ele segue explicando que a primeira temporada é composta por cinco episódios – cada um trata de um tema diferente, que não se prende à música, e tem participação de especialistas, intelectuais, ativistas, artistas e pensadores, sempre com reflexões do ponto de vista da negritude. “A gente passa pela desigualdade em si, mas a gente se aprofunda em outras coisas, como as experiências linguísticas da filósofa Lélia Gonzalez (1935-1994)”, que será o tema do quarto episódio, ou do último, quando será abordada a questão do meio ambiente e nossa relação com ele. Outro destaque revelado pelo apresentador certamente será “uma viagem fantástica pelo universo poético das composições dos blocos afros de Salvador, mostrando que ali dentro tem uma biblioteca viva, que é uma perspectiva pouco usada”, diz. Dessa forma, a ideia é “mostrar a força dessa canções, da magnitude delas, que é uma perspectiva pouco usada”. 

O objetivo primordial da série de Emicida, como ele deixa claro, é mesmo fomentar a discussão, a reflexão desses temas, mas com a “responsabilidade de embalar de uma forma que comunique claramente para que ninguém se sinta desamparado no final”, explica. Para Emicida, o importante é que todos pertençam a essa discussão. “Eu não corroboro que a gente é proprietário de nenhum tema, muito pelo contrário, todo assunto é de todo mundo, todo mundo que quer colaborar com a transformação que é necessária, é super bem-vindo, e o que a gente está fazendo é provocar essa transformação de alguma forma. Conversa não tem dono, mano.” 

'AmarElo é um experimento social', diz Emicida

“Nessa avalanche de coisas que passam por cima da gente, artisticamente eu queria muito criar uma sensação de respiro”, conta Emicida sobre o surgimento da ideia de criar AmarElo, que entrou no mercado com uma denominação singular. “Quando a gente lançou AmarElo, não chamamos de álbum nem projeto, a gente acha isso muito frio”, conta Emicida. “A gente chama AmarElo de experimento social, que é quando você testa um ideia no mundo real”, revela o rapper. E foi a partir daí que o trabalho surgiu para o público, mas que viria a expandir sua importância ao chegar ao palco do Teatro Municipal de São Paulo. O rap, enfim, ecoaria do palco a todos os cantos do pomposo local, casa da música clássica. 

Na plateia, um público pouco habituado a frequentar a casa, vista como restrita a uma classe mais abastada. Mas Emicida quebrou essa regra e levou para dentro do Municipal a sua música e seus fãs. “De alguma forma, a gente cometeu um equívoco e criou uma barreira invisível que distanciou uma pessoa como eu do Teatro Municipal durante muito tempo”, analisa o músico. Ao mesmo tempo, enaltece a importância do hip-hop. “Foi essa cultura que construiu essa ponte e fez com que eu visualizasse e entendesse que aquele teatro clássico, no centro de São Paulo, podia ser uma antena nesse momento, que irradia inspiração e beleza para um país que, nesse momento, é tão carente disso.”

Para Emicida, AmarElo, que recebeu esse título por inspiração em um poema de Paulo Leminski (amar é um elo/ entre o azul/ e o amarelo), é um “respiro” para as pessoas, para a sociedade. E, entre as inúmeras reflexões do rapper, que ama uma boa conversa, surge um questionamento: “é possível transformar os lugares com música?”. E logo vem a resposta. “Pra gente é. Eu sou a prova de que a música pode construir uma ponte de transformação profunda.” 

AmarElo, o show e também o documentário, estão disponíveis na Netflix. 

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