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Netflix
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'Tive problemas com João Havelange, mas nunca com os políticos', diz Pelé, que ganha documentário

Documentário Pelé estreia na Netflix nesta terça-feira, 23, e investiga a influência da ditadura militar na carreira do jogador de futebol

Entrevista com

Pelé

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 09h00

Único jogador do mundo a conquistar três Copas do Mundo, Pelé é ainda reverenciado como Atleta do Século. E, embora sua vitoriosa carreira tenha inspirado diversos documentários, Pelé, que a Netflix oferece em seu streaming a partir da terça, 23, ainda traz novidades. Dirigido por David Tryhorn e Ben Nicholas, o filme foca especialmente na ingerência que o governo militar teve na carreira do jogador, inclusive na atitude de disputar a Copa do México, em 1970, quando, quatro anos antes, Pelé anunciou que não mais disputaria Mundiais.

Até se tornar um dos heróis da conquista do tricampeonato, Pelé passou por diversas provações, que chegaram até a abalar sua confiança – a ponto de, no início do documentário, Pelé afirmar que, naquele momento, não queria ser Pelé. Em meio a imagens de arquivo, muitas delas raramente vistas, o ex-jogador desponta hoje exibindo sua fragilidade física, com a necessidade de usar um andador para caminhar.

Para a promoção do documentário Pelé, o atleta conversaria, por Zoom, com jornalistas da Inglaterra e Alemanha, além, é claro, do Brasil, como o Estadão. Na tarde combinada, no entanto, o Rei do Futebol, que completou 80 anos em outubro passado, não se sentiu bem e a conversa foi transferida para o dia seguinte. Mas, novamente não aconteceu.

A fim de poupar Pelé de perguntas incômodas, sua assessoria solicitou que as questões fossem encaminhadas previamente. Como se tratava de uma condição para participar do rol de entrevistas, os jornalistas, a contragosto, atenderam o pedido. Por fim, Pelé respondeu por escrito, uma vez que já contava com as perguntas. E, embora de forma sempre sucinta e sem alimentar polêmicas, ele respondeu até mesmo a do Estadão que foi inicialmente vetada pelos assessores – é a penúltima da entrevista a seguir.

No início do documentário, você se recorda da Copa de 1970 e diz que, na época, não queria ser Pelé. Foi esse o único momento em que Edson não queria ser Pelé?

Esse não foi o único momento que o Edson não queria ser Pelé. Realmente, eu estava confuso mas, depois que o Brasil foi campeão e o Pelé foi considerado o melhor jogador dessa Copa, o Edson e o Pelé fizeram as pazes e estão sempre juntos.

No documentário, a deputada federal Benedita da Silva lembra que, depois da conquista da Copa de 1958, Pelé se tornou um exemplo para os jovens negros pobres do Brasil. Você acredita que esse exemplo, na verdade, foi mais além, a nível mundial também? Como foi sua luta contra o racismo?

Somos todos filhos de Deus. Eu poderia ter nascido de qualquer cor ou raça. Deus quis que eu fosse brasileiro.

Você conta que suas pernas fraquejaram antes de cobrar o pênalti que resultou no seu milésimo gol, em 1969, contra o Vasco, no Maracanã. E ainda viu seus companheiros do Santos na linha do meio-campo, indicando que tinham certeza de que o gol sairia. Foi o momento mais difícil da sua carreira?

Foi o momento mais difícil da minha carreira porque todo mundo parou para ver o milésimo gol. Aliás, até hoje é um recorde mundial.

Você acredita que a atitude de João Saldanha, durante a preparação da Copa de 1970, insinuando que você não enxergava mais, tinha um objetivo maior, de cunho político, ou seja, ao te atingir, Saldanha queria atingir, na verdade, o governo militar?

Realmente, eu tenho miopia. O João Saldanha exagerou.

A ingerência do governo militar na seleção brasileira de 1970, aliás, foi enorme (Delfim Neto confirma que o governo mexeu os pauzinhos para a saída de Saldanha). O fato de ser o jogador mais velho da seleção e, principalmente, o fato de ser Pelé era uma responsabilidade pesada demais, a ponto de você cair no choro quando o ônibus chegou no estádio Azteca, no México?

Realmente, todo mundo sabe que sou muito emotivo e essa seria minha última Copa. Eu queria terminar minha carreira na Seleção como campeão do mundo.

Suas despedidas no Santos, na Seleção e no Cosmos são mostradas rapidamente no documentário, mas foi nesses jogos (especialmente na despedida da Seleção) em que você bateu de frente com diversos políticos do regime militar e também com dirigentes, como João Havelange, não?

Com João Havelange, tive problemas, mas nunca tive com os políticos.

O jornalista Juca Kfouri observa bem que aquela foi a Copa do Pelé e não a Copa do Médici. Isso reforça sua observação que você mais ajudou o Brasil jogando futebol que os políticos, que ganham para fazer isso, certo?

Eu nunca misturei as coisas. Eu fiz a minha parte.

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