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'The Vast of Night', de Andrew Patterson, foge do lugar-comum das ficções científicas

'Eu queria que fosse atemporal', disse o diretor sobre o seu elogiado suspense, em entrevista ao 'Estadão'

Mariane Morisawa, Especial para O Estado

31 de maio de 2020 | 05h00

Óvnis, década de 1950, Estado do Novo México. Essas eram apenas algumas das muitas ideias para um longa-metragem que Andrew Patterson começou a desenvolver em roteiro nos últimos anos. “Pode parecer maluco dizer isso, mas eu achava que era um filme que podíamos fazer muito facilmente e com pouco dinheiro”, contou o diretor estreante em entrevista ao Estadão. “Porque eu queria algo simples, parecido com uma peça de teatro, com três cenários só.” Claro que, na prática, a filmagem de The Vast of Night, que já está à disposição no Amazon Prime Video, foi bem mais complicada. “É duro achar carros e centrais telefônicas antigos”, explicou o cineasta. Mas, mesmo com poucos recursos – a produção foi financiada pelo próprio Patterson –, o resultado impressiona. 

Na noite de um importante jogo de basquete da minúscula cidade de Cayuga, Everett (Jake Horowitz), o jovem DJ da rádio local, e Fay (Sierra McCormick), a telefonista, caminham e conversam pelas ruas da cidade quase deserta. Eles falam rápido, e a câmera não mostra seus rostos a princípio. “O que eles dizem no início não é importante. Eu queria estabelecer a época e o lugar”, explicou Patterson. “Sabemos que os primeiros minutos são decisivos para o espectador embarcar ou não no filme. Meu objetivo era que o público se inclinasse para prestar atenção.” Barulhos estranhos começam a aparecer nas ligações telefônicas feitas por Fay, e os dois investigam o assunto, enquanto topam com desconhecidos que falam que há alguma coisa no céu da cidade. Um ouvinte (Bruce Davis) liga para dizer que sabe de algo. Uma outra moradora (Gail Cronauer) também parece ter informações. 

Patterson não queria que The Vast of Night parecesse uma produção de 1958 nem de 2020. “Eu não sou muito fã do que se faz hoje, nem do estilo de atuação”, afirmou o diretor. “Eu queria que fosse atemporal. Em geral os filmes que permanecem não têm um estilo muito definido da época em que foram feitos. Evitei fazer muitos cortes, ângulos múltiplos de câmeras diferentes. Minha missão era ser interessante sem recorrer a esses recursos, comuns em filmes de ficção científica.” 

Algumas das longas sequências são impressionantes. Patterson teve a colaboração fundamental do diretor de fotografia chileno Miguel Ioann Littin Menz (Machuca). “Ele mergulhou totalmente no projeto”, disse Patterson. “Tinha muita coisa para ele iluminar, um ginásio, campos, florestas, ruas, estacionamentos, tudo à noite. Ele teve de criar toda a luz e estava disposto ao risco, porque eu queria que o filme fosse diferente dos outros passados nos anos 1950.” 

A segurança para arriscar em sequências longas com a câmera passeando pela cidade veio de anos de experiência. The Vast of Night pode ser o primeiro longa de Patterson, mas ele tem quase duas décadas trabalhando com audiovisual, com sua produtora GED, baseada em Oklahoma City. Lá, entre outras coisas, ele filma o time da NBA Oklahoma City Thunder. “Não só durante o jogo, mas antes e depois também. São atletas de renome, você não pode pedir para eles amarrarem o tênis uma segunda vez ou voltar e fazer algo de novo. É preciso pegar de primeira.” Uma das várias vezes que ele esteve no Brasil, teve apenas uma hora para filmar no Estádio do Maracanã vazio. “Por isso não apenas tinha os equipamentos necessários, como câmeras, como consegui rodar em apenas 17 dias.”

Sua paixão pelo cinema começou ainda adolescente, trabalhando como projecionista num cinema local. “Eu literalmente segurava latas de película 35mm nas mãos toda noite. E um dos gerentes me disse uma vez que eu poderia ser diretor um dia. Fiquei com aquilo na cabeça. E comecei a fazer vídeos sobre qualquer coisa, desde que me pagassem.” Estando fora do eixo Nova York-Los Angeles, seria difícil conseguir dinheiro para um longa. “Eu sabia que teria de financiá-lo. Por isso queria fazer algo bom.” O sucesso nos festivais Slamdance e de Toronto levaram à aquisição pela Amazon, que pretendia lançar The Vast of Night nos cinemas. “No último ano, não me senti preterido por estar em Oklahoma.” A pandemia acabou atrapalhando os planos, ainda que o filme tivesse tido algumas sessões em drive-ins. “Era um projeto criativo, pessoal e pequeno, nunca achei que seria visto fora de festivais de cinema. Claro que teria sido lindo exibi-lo na tela grande. Mas no streaming vai viver para sempre, muita gente vai poder ver. Então sinto gratidão.” Patterson já está trabalhando em outros projetos. 

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