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‘The Snoopy Show’ chega à Apple TV+ em série de seis episódios

Charles M. Schulz, junto com o diretor Bill Melendez e o produtor Lee Mendelson, produziu mais de 50 outros especiais de Peanuts, estrelando Charlie Brown e o resto da turma; relembre alguns deles

Saul Austerlitz, The New York Times

10 de fevereiro de 2021 | 11h00

Hoje somos todos Snoopy, deitados em cima de nossas casinhas solitárias, sonhando com aventuras que não podemos viver.



Com a chegada de The Snoopy Show, que estreou na sexta-feira na Apple TV+, o público está sendo conduzido de volta ao mundo interior do Snoopy num momento em que a maioria de nós anseia por escapar do eterno presente da covid-19. Todos os rostos familiares de Peanuts - Charlie Brown, Linus, Patty Pimentinha, Marcy - estão de volta, mas o programa gira principalmente em torno da pródiga vida fantasiosa de Snoopy, que o leva ao fundo do oceano, ao Velho Oeste e aos céus, onde ele duela mais uma vez com o Barão Vermelho.

“Ele não está interessado em ser o que você acha que um cachorro deveria ser”, disse Rob Boutilier, diretor de The Snoopy Show. “Você pode correr para pegar a bolinha; você pode rolar no chão. Nada disso. Vou voar nos céus num avião Sopwith Camel”.

A série de seis episódios é uma atualização rápida e colorida dos especiais de Peanuts que por décadas foram presenças anuais nas programações da TV (primeiro na CBS, depois na ABC). Para muitos de nós, esses especiais foram a base das nossas festas de fim de ano, tanto que surgiram protestos quando a Apple anunciou que os especiais seriam transmitidos exclusivamente em sua plataforma. Mais de 260 mil pessoas assinaram uma petição para devolvê-los à transmissão da TV, e a Apple respondeu com um acordo que também permitia à PBS transmitir Ação de Graças do Charlie Brown e Natal do Charlie Brown.

Esses programas, junto com É a Grande Abóbora, Charlie Brown, são os especiais por excelência de Peanuts. Mas Charles M. Schulz, junto com o diretor Bill Melendez e o produtor Lee Mendelson, produziu mais de 50 outros, estrelando Charlie Brown e o resto da turma.


 


Tomados como um todo, os especiais de Peanuts fornecem um tour extenso pela religião cívica da vida pós-guerra. Programas quase esquecidos como É dia da árvore, Charlie Brown, de 1976 (Lucy planta uma árvore no amado campo de beisebol de Charlie Brown) e Você está no Super Bowl, Charlie Brown, de 1994 (Snoopy treina um time de passarinhos no campeonato), fazem parte de uma tapeçaria maior em que Peanuts buscava explicar e refletir suavemente sobre as tradições americanas.

Antes da estreia de The Snoopy Show, Boutilier, o editor-executivo Alex Galatis e o showrunner Mark Evestaff refletiram sobre alguns de seus especiais favoritos e menos conhecidos de Peanuts. (Eles não estão no streaming da Apple TV +, pelo menos não por enquanto, mas estão disponíveis em vários formatos em outros lugares). 


 

‘Todas as Estrelas de Charlie Brown’ (1966)

Surgido um ano depois de Natal do Charlie Brown, este especial era um contraste excêntrico com seu antecessor mais atencioso. “Com o especial de Natal, havia uma preocupação, principalmente das emissoras, com a lentidão do ritmo”, disse Boutilier.

Depois de inúmeras derrotas no campo de beisebol (seu time marcou seis pontos contra 3 mil de seus adversários), Charlie Brown quer finalmente ganhar um jogo e garantir o patrocínio de uma empresa local que prometeu dar uniformes elegantes para o time. No ponto alto da história, Charlie Brown faz um monólogo interior incansável enquanto tenta avançar uma base no jogo, mas é ignominiosamente eliminado, vítima de sua própria autoconsciência paralisante. Enquanto ele está deitado no chão, seus companheiros se juntam em volta dele, primeiro para gritar com ele e, depois, para animá-lo.

“As pessoas pensam em Charlie Brown como um adorável perdedor”, disse Boutilier, “mas, até ver algo como esse especial, você se esquece de que a razão pela qual ele é adorável não é por ele ser perdedor. A razão pela qual ele é adorável é que ele não desiste”.

Galatis acrescentou: “Ele continua jogando futebol. Continua achando que vai ganhar o jogo de beisebol. Com ele, sempre há esperança”. 


 

‘O cachorro é seu, Charlie Brown’

Ao desenvolver The Snoopy Show, Evestaff olhou para O cachorro é seu, Charlie Brown como inspiração para a fantasiosa vida interior do beagle. Snoopy é mandado para o adestramento, mas acaba abandonado na casa de Patty Pimentinha, onde é convencido a passar por uma interminável rodada de faxina e lavação de louça para pagar sua estadia. Ele passa suas horas de folga no quintal de Patty, estalando os dedos para pedir drinks, imaginando que está num café de Paris.

“Nós sempre brincamos que Snoopy é quem nós queremos ser, e Charlie Brown é quem nós somos”, disse Galatis. “Todos nós queremos ter esse senso de bravata e confiança”.

Charlie Brown chega para levar seu cachorro para casa, e Snoopy se recusa a ir embora se precisar pegar a coleira. Em vez disso, ele foge naquela noite e depois volta para casa com um bigode disparatado que, por um tempo, engana até mesmo seu dono. “Aquele momento em que eles se abraçaram”, disse Boutilier. “Eu adoro a cena porque eles simplesmente deixam tudo em segundo plano”, mostrando Snoopy e Charlie Brown abraçados, dançando sua dança feliz contra um pano de fundo de nuvens.


 

‘É um mistério, Charlie Brown’

O ninho de Woodstock é roubado e Snoopy se transforma em Sherlock Holmes, vestindo chapéu de caçador, soprando bolhas de seu cachimbo e procurando impressões digitais no esforço para identificar o culpado.

Assim como The Snoopy Show, É um mistério, Charlie Brown é baseado na amizade entre cachorro e pássaro. “Snoopy defende e protege Woodstock”, disse Galatis, “mas, ao mesmo tempo, Snoopy se envolve em suas próprias fantasias e às vezes atropela Woodstock”. As bolhas do cachimbo, a gente vê, sempre estouram na cabeça de Woodstock.


 

‘O Snoopy é um sucesso, Charlie Brown’ (1984)

É fácil pensar em Peanuts como algo atemporal, o que deixa os marcadores da década de 1980 deste especial (roupa de ginástica combinando! Sintetizadores!) ainda mais notáveis. O Snoopy é um Sucesso, Charlie Brown é uma homenagem ao filme de dança Flashdance, de 1983, e aos filmes de dança em geral, com Snoopy desfilando pela rua com uma bandana laranja brilhante e polainas na mesma cor, arrasando nos passinhos numa pista de dança iluminada.

A dançarina Marine Jahan, que atuou como dublê de Jennifer Beals em Flashdance, forneceu a inspiração para os passos de dança de Snoopy. O Snoopy é um Sucesso, Charlie Brown se valeu do processo de rotoscopia, no qual a filmagem da dança de Jahan foi cuidadosamente desenhada, quadro a quadro, disse Evestaff.

O Snoopy é um Sucesso, Charlie Brown é uma homenagem acidental à moda espalhafatosa dos anos 80, mas, assim como tantos especiais de ‘Peanuts’, também revela um veio da história dos quadrinhos - aqui, a tendência de Snoopy de expressar emoção através da dança. “A dança feliz de Snoopy é muito icônica agora”, disse Evestaff. “Para evocar tanta emoção com uns poucos traços da caneta - mais uma vez, é um grande feito do artista”.


 

‘This Is America, Charlie Brown’ (1988-89)

Não se trata de um especial, mas de uma série em oito capítulos da CBS sobre a história americana, com Charlie Brown e seus amigos visitando os irmãos Wright na Carolina do Norte, contando a história dos peregrinos e documentando a história da música americana.

É impressionante que Charlie Brown e Linus possam ser transplantados para a Carolina do Norte em 1903 para conhecer Orville e Wilbur Wright (e que os irmãos consertem a bicicleta de Charlie) sem esticar os limites da credulidade. Evestaff se maravilha com a capacidade de Schulz de “pegar seus personagens e colocá-los em diferentes situações e ainda assim fazer com que pareçam autênticos”.

O episódio A música e os heróis da América é especialmente completo e honesto, educando o público infantil sobre o impacto dos cantos dos escravizados no blues e no ragtime e sobre como a Guerra do Vietnã e o assassinato de Kennedy geraram o rock e o soul politicamente engajados dos anos 1960.

Schulz “certamente não se esquivou dos temas atuais da época”, disse Evestaff, exaltando o compromisso de Schulz com a justiça social. “Ele tinha uma ótima forma e tinha esses personagens ótimos, e esses personagens sabiam contar essas histórias”.


Tradução de Renato Prelorentzou 

 

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