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'The Crown' leva espectador para dentro do Palácio de Buckingham

Série da Netflix relata tramas e histórias da realeza britânica

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2016 | 16h00

As melhores séries são aquelas que envelhecem com a gente. Se depender da Netflix, esse será o caso de The Crown. A ideia da plataforma é que sua produção mais cara já realizada até hoje avance uma década na vida da rainha Elizabeth II, hoje com 90 anos, a cada nova temporada.

Se tudo der certo, vamos poder ver, como se estivéssemos dentro do Palácio de Buckingham, como era a relação dela com Margaret Thatcher, Tony Blair e David Cameron, conhecer os bastidores da tumultuada relação entre Charles e Diana e entender como (e se) a monarquia britânica viu o mundo mudar após os atentados de 11 de setembro.

Ainda é cedo, porém, para prever se a Netflix terá fôlego para produzir (pelo menos) mais oito sequências tão opulentas e deslumbrantes como foram os dez primeiros episódios da primeira temporada, que estreou em novembro.

A sensação ao terminar a maratona é que não há tempo perdido. Nada está fora do lugar. A reconstituição de época, fotografia e direção são impecáveis, bem como o elenco.

Nesse ponto, quem sobressai é o ator John Lithgow. Integrante do segundo escalão da dramaturgia norte-americana, ele faz em The Crown uma interpretação antológica do primeiro-ministro Winston Churchill em uma passagem pouco explorada de sua biografia, que é o retorno ao poder em 1951.

Aos 71 anos, Lithgow teve que ser envelhecido com muita maquiagem para fazer o papel de congressista conservador aos 76. A série acompanha o retorno triunfal de Churchill pouco antes da morte de George VI e da coroação de sua filha mais velha e saída dele de cena após perder a batalha contra as limitações da velhice.

O político conservador se nega a assumir a passagem do tempo e mantém velhos hábitos, como fumar um charuto atrás do outro e despachar com a secretária tomando uísque submerso em uma banheira de água quente na residência oficial.

O líder britânico anda com dificuldade e amparado por uma bengala, mas ainda é perspicaz e arrogante. Mesmo após sofrer um derrame, ele se recusa a deixar o cargo e esconde o fato da opinião pública e da rainha.

A ficha só cai quando o parlamento convoca um pintor renomado para fazer um quadro em homenagem aos seus 80 anos. Quando a obra fica pronta, Churchill se desespera com o resultado, manda queimá-lo e finalmente decide se aposentar.

Outro “bastidor” saboroso da primeira temporada acompanha o exílio de Eduardo VIII, que abdicou do trono, e sua relação com a família real, que o rejeita. É como se a série proporcionasse uma continuação do longa O Discurso do Rei, de 2010.

Na década da primeira temporada, The Crown também acompanha a evolução da mulher Elizabeth. Ela começa tímida, apagada e na sombra do marido militar. Com a morte do pai, é obrigada de uma hora para outra a se reinventar. A mudança faz com que todos aqueles que conviviam com Elizabeth em pé de igualdade sejam obrigados a se enquadrar nos novos rituais e liturgias do “cargo”.

Para o marido, esse cenário é especialmente difícil. Em plena década de 1950, ele é obrigado a se recolher na sombra da mulher, mas não aceita esse papel. Espécie de macho alfa nas rodas por onde passa, o militar Phillip nega-se a ajoelhar-se aos pés de Elizabeth na coroação.

Exige ficar ao seu lado na cerimônia, mas é surpreendido pela decisão de Elizabeth de manter e liturgia. Essa, aliás, é a palavra que melhor define o foco da monarca. Sem poder político real, ela se assume como um símbolo que tem como objetivo de vida manter as aparências de uma tradição que, haja o que houver, segue sendo reverenciada pela população.

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