'Tenho isso: meu lado masculino é muito aflorado'

Em seis anos, foram seis novelas. Malvino Salvador virou figura tão requisitada no elenco da Globo, que ainda gravava como Damião, em A Favorita, quando começou a trabalhar na composição do Gabriel, protagonista de Caras & Bocas.

Patrícia Villalba, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2009 | 16h00

 

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Firme e divertido, ele conta nesta entrevista ao Estado, feita ao fim da gravação de um capítulo da novela, como escapou de ser bancário para se tornar um galã – termo com o qual ele parece bastante à vontade. "Não me incomodo nem um pouco com isso", diz, dispensando frescura e falsa modéstia.

 

Soube que você fez faculdade de Ciências Contábeis em Manaus. Como acabou virando ator?

Foi acontecendo, não premeditei nada. Morei a vida inteira em Manaus e, em 2000, estava no quarto ano de Contabilidade. De vez em quando, eu fazia alguns desfiles, mas era mais uma brincadeira. Daí, pintou um desfile grande, e eu conheci uma booker (agente) paulista lá. Ela me convenceu de que eu deveria ir a São Paulo. Faltava um ano para eu me formar, mas era uma fase em que eu estava querendo uma mudança. Trabalhava no Bradesco, tinha entrado numa rotina faculdade-e-banco. Perguntei se meus pais me ajudariam a ficar um tempo em São Paulo e eles toparam. Acho que tive um vislumbre de que alguma coisa boa poderia acontecer na minha vida.

 

Como foi o começo em São Paulo?

Os primeiros seis meses foram muito difíceis, uma confusão danada. Era gente querendo passar a perna, fazendo proposta indecente... Passei por tudo o que você possa imaginar (risos).

 

E a tal booker?

Não serviu pra nada! Ela fez a proposta e sumiu. Caí na mão de um monte de picaretas. Depois entrei para outra agência e comecei a trabalhar bastante. E logo fiz teste para o Blue Jeans, um musical. Estava completamente verde, mas passei. As coisas começaram a clarear. Foi quando percebi que tinha encontrado o que gostava de fazer, com 25 anos de idade.

 

Como foi parar na TV?

Foi depois de três anos e meio em São Paulo, quando pintou um teste para a (novela) Cabocla. O (produtor de elenco) Nelson Fonseca primeiro buscou atores aqui na Globo, mas não achou ninguém para fazer o Tobias. Daí, foi para São Paulo. Foi a teatros e agências, como a minha. Viu minha foto e me separou.

 

Por que era tão difícil conseguir um Tobias?

Ele achou difícil encontrar alguém que tivesse um romantismo no olhar, mas que ao mesmo tempo pudesse ser grosseiro, bruto. O Tobias era um jagunço de 1920, tinha de ter força, uma energia muito masculina. E eu tenho isso, né? Meu lado masculino é muito aflorado, sei que sou assim. Acho que isso influenciou para que eu pegasse o papel.

 

Você fez seis novelas em seis anos. E está produzindo uma peça de teatro ('Lie of the Mind', de Sam Shepard) para quando 'Caras & Bocas' acabar. Cansou da TV?

Não. É que agora fechei um ciclo. Fui galgando degrau por degrau, até conseguir meu primeiro protagonista. Então, acho que preciso agora voltar a buscar conhecimento fora da TV. Está na hora de dar um tempinho.

 

Já que você falou no seu "lado masculino muito aflorado", você fez vários personagens que aproveitam o arquétipo do machão e...

Essa foi uma preocupação. Quando eu recebi a sinopse era mais ou menos assim: ‘Tobias – peão, amigo, leal, batalhador, estourado e passional’. Depois, veio o Vitório, de Alma Gêmea, ‘cozinheiro, amigo, legal, passional, bruto’ (risos). Eu falei: ‘gente, pelo amor de Deus!’. Resolvi pegar o que cada um tinha de diferente e ampliar, para dar um temperinho a mais. Mas a base de todos foi a mesma.

 

Sente a mesma coisa agora, com o Gabriel?

Não, com ele é diferente, porque ele é mais complexo do que os outros, que estavam muito em cima de A Megera Domada, do Shakespeare. Tive de encontrar um tom especial, porque ele passa por todo tipo de núcleo – está no pastelão, mas também é o chefe de família, que precisa falar sério; tem o lado sonhador, de artista plástico; e faz também A Megera Domada quando está com a Dafne.

 

Precisa de unidade, para que pareça uma pessoa só.

Exatamente! Por isso, é o meu personagem de construção mais difícil. É o que mais me preocupou, que me deixou angustiado, o que eu mais arrisquei.

 

Você é um dos trunfos da Globo para conquistar o público feminino. Tem problema em ser chamado de galã?

Problema nenhum. Fiz personagens que são um pouco galãs, que têm uma postura do cara que não tem medo da mulher. E por causa dos personagens, acaba vindo essa associação. Mas não me incomoda nem um pouco.

 

Tem ator que não gosta.

Isso é bobagem, é falsa modéstia. É frescura, né? O cara vir dizer: ‘ah, não quero ser visto como galã’. Gente, que babaquice! Se o personagem está fazendo sucesso, é porque você está fazendo um bom trabalho. Isso é preconceito de gente metida a ser intelectual. Vai fazer papel de caolho, então!

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