Divulgação/TV Globo
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'Tenho cara de brasileira, cara de pobre. Acho ótimo', diz Regina Casé

Apresentadora do elogiado 'Esquenta!', da Globo, mostra orgulho de ser autêntica

Entrevista com

ALINE NUNES - Jornal da Tarde,

26 de dezembro de 2011 | 11h18

Enquanto as pessoas a julgam com “cara de pobre”, ela se diverte e monta uma arena de sambão no Esquenta!, onde arranca um rebolado de Lázaro Ramos, faz Rodrigo Santoro cantar Exaltasamba e Lilia Cabral arriscar passinhos. Na Globo, os artistas pedem para participar da atração de Regina Casé, de 57 anos. Na favela, todos amam a carioca de jeito autêntico. Ela, claro, se enche de orgulho. Ao JT, ela fala dessa reputação, lembra da infância, em que dormia na casa de sua empregada na favela, e conta como a filha Benedita, de 23 anos, fruto do casamento com o artista plástico Luiz Zerbini, herdou seus hábitos.

 

Como foram os especiais de Natal e Ano Novo, do Esquenta!?

Peraí, desculpa. Além de falar com você, eu estou pintando o cabelo. Eu adorei o programa de Natal porque o Papai Noel me trouxe o Neymar de presente. O combinado com o empresário era para ele ficar apenas uma hora, mas ele não queria ir embora nem no final. Ele virou criança, cantou, dançou. E nada foi combinado.

 

O programa costuma ser assim, com famosos sendo autênticos?

Graças a Deus. Ontem mesmo eu encontrei o Seu Jorge e ele falou: “eu já fui (no Esquenta!), já apareci, mas posso ir na outra semana? Eu fico lá, só assistindo (risos).”

 

Além de cativar artistas, um trunfo do programa é laçar diferentes classes sociais. Esperava isso?

Não. Eu achava que todo mundo ia dizer: “esse programa vai ser super popular”. Nunca imaginei que intelectuais, peruas, gente rica, de moda e arquitetura, iriam gostar. Minha irmã, que trabalha em São Paulo com moda, fala: “Regina, você não tem noção do povo chiquérrimo que te adora.”

 

 

 

Essa marca, de ser popular, você carrega faz tempo. Quando começou?

Olha, acho que é uma coisa que foi construída em anos. Eu nunca fiz uma opção pelos pobres. Eu nunca falei: só vou falar com preto, pobre, favelado… Como eu acho que quase ninguém falava com essas pessoas, só o fato de eu falar, me aproximou. Numa série adolescente do Fantástico, por exemplo, eu ia numa escola de classe média e num Ciep (Centro Integrado de Educação Pública). Sempre vi o Brasil como um todo.

 

Você já disse que tinha um tipo físico que favorecia essa ligação com o povo. Como assim?

Ah, é porque eu tenho cara de brasileira, cara de pobre. Engraçado que muita gente fala isso para me agredir. “Não adianta ficar rica, ela tem cara de pobre.” Eu acho ótimo, facilitou minha carreira e minha relação com o mundo. Se eu fosse loira, alta, de olhos azuis, magérrima, talvez chegasse na favela e me chamassem de dona.

 

Essa opção de transitar por todos os nichos vem de infância?

Então, eu acho que uma parte veio da educação que eu tive – só um segundinho, estou com medo de sujar o telefone com a tinta e ficar com a orelha preta (risos). Então, hoje em dia, eu lembro que meus pais sempre tiveram amigos brancos e negros, ricos e pobres. Quando eu fui no casamento da Marinetti, que trabalhava na minha casa, não era o casamento da coitadinha da empregada. Era o casamento de uma pessoa importantíssima. Eu dormia na casa dela, na favela, aos finais de semana.Fui dama de honra.

 

Sério? E como era?

Sim, uma vez ela me convidou para um aniversário e eu adorei lá, achei super animado… Esse tipo de coisa ajudou na minha base. Já a minha filha foi além.

Foi além, como?

Eu brinco que, se eu sou classe C e D, a Benedita (de 23 anos) é D e E. Ela vai num show do Sorriso Maroto, no estacionamento do supermercado Extra. E ao mesmo tempo, vai ao Copacabana Palace.

E sua filha já foi em favelas?

Claro, desde que nasceu. Eu vou à favela como vou a qualquer lugar, faz parte da minha vida. Não ir seria igual se olhar no espelho e ver só um pé, um braço…

 

Nunca teve medo das favelas?

Às vezes ficava, mas hoje tanta gente vive dentro de casa com medo… Eu prefiro ter medo circulando por todos os lugares. Isso diminui o medo. Eu entro na Rocinha e sei que lá mora Aninha, a Roberta, o Thiago… A pessoa que vive só no seu mundinho fica com medo de tudo. Por exemplo, essa pessoa chega no sinal, normalmente vê alguém preto e morre de medo.

 

Mas você foi criada onde? Era de classe média?

Então, o meu avô (Ademar Casé, pioneiro nas rádios) veio de pau de arara, do Nordeste, e ficou rico, o que foi um milagre. Logo, meu pai veio numa geração melhor.

 

O seu avô foi importante como radialista. Ele a influenciou a entrar no meio artístico?

Sim. A casa dele sempre foi muito viva. Ele foi o primeiro patrão do Noel Rosa, que era contrarregra do programa dele. Lá, eu via Vinicius (de Moraes), Tom Jobim, Chico Anysio. Esses dias, Jô Soares me disse: “Eu sempre levava um banquinho porque nunca tinha lugar.”

 

E o que te levou até o curso de teatro do Sérgio Britto?

Eu fiquei a fim de um cara que estava fazendo o curso, daí me inscrevi (risos). Eu não queria ser artista. Eu gostava de ir à praia, acordar cedo, ficar queimada. Eu achava que artista era branco, dormia tarde e ficava em bar. Achava chato.

Depois que ingressou na carreira, você fez pouca novela. Algo não a agrada no gênero?

Fazer novela é tirar férias no Havaí, porque eu não tenho nada a ver com figurino, eu não contrato ninguém, eu não sei quanto ninguém ganha. É uma beleza, é só decorar o texto e ir lá. Nesse programa (Esquenta!) eu sei quanto todo mundo ganha, eu brigo por salário melhor, cuido da vida de todos, vou nas reuniões, na edição… E mais, novela tem um monte de gente para fazer e isso que eu faço, não. E faço isso há anos.

 

Ao longo dos anos você nunca escondeu sua vida privada, tanto que homenageou seu marido (Estevão Ciavatta, de 42 anos) no Esquenta! É uma opção de vida?

Não gosto desse negócio escondido, de mostrar seguranças, usar óculos escuros, circular num carro blindado, com aqueles negócios pretos (insulfilme). Assim, se constrói um artista distante das pessoas, que parece que é melhor do que os outros e vive num Olimpo. Se eu fosse assim distante, quando eu chegasse na favela, todo mundo iria pular em mim, como se eu fosse inatingível.

 

Essa homenagem que você fez foi na época em que ele sofreu um acidente. Você rezou muito? Tem uma religião?

Então, eu já me senti atraída por muitas, mas eu sou católica. Assim, é como se a minha avó tivesse passado a vida dela construindo um palacete para mim, em que ela pintou as paredes e meu avô colocou as escadas e eu, em vez de continuar isso, fosse comprar um apartamento na Barra. Aprendi com minha avó comemorar cada Nossa Senhora, montar presépio… Foi como uma herança, como se tivesse me deixado um dinheirão, sabe? Não posso jogar no lixo tudo isso e virar outra coisa. Mas eu tenho uma irmã budista, amigos evangélicos, judeus…

 

Por essa educação religiosa, como foi sua adolescência: calma ou cheia de transgressões?

Eu fui rebelde, enlouquecedora. Tudo eu questionava. Até hoje sou indisciplinada. Mas fui livre, na minha casa, eu podia pintar e escrever na parede. Os meus pais eram artistas, transgressores, então, não eram caretas.

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