'Tempo de Amar' chega ao final com sucesso na faixa das 6h e triângulo amoroso bem construído

'Tempo de Amar' chega ao final com sucesso na faixa das 6h e triângulo amoroso bem construído

Novela de Alcides Nogueira termina na segunda, 19; Maria Vitória vai escolher entre Inácio e Vicente

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

17 Março 2018 | 16h01

Antes de estrear, em setembro, a então nova trama das 6 da Globo, Tempo de Amar, ganhava certo ar de ‘novelão mexicano’ nas chamadas da emissora. Contaria a trajetória de um casal apaixonado, Maria Vitória (Vitória Strada) e Inácio (Bruno Cabrerizo), que, por caprichos do destino – e de uma vilã, Lucinda (Andreia Horta) – se distanciam. Já no ar, percebia-se, no decorrer dos capítulos que: sim, era um folhetim em sua essência; e, sim, trazia um enredo central dramático. Mas a condução dessa história de época, ambientada no Brasil dos anos 1920, também trouxe leveza em personagens bem construídos, diálogos deliciosos repletos de palavras e trejeitos datados, e, em meio a reviravoltas, triviais situações do dia a dia. 

Tempo de Amar, de Alcides Nogueira e com direção artística de Jayme Monjardim, chega ao final nesta segunda, 19, bem-sucedida no horário – e com um desfecho em especial no foco do público: com quem Maria Vitória vai ficar no já aguardado happy end? Com seu primeiro amor, Inácio, por quem ela deixou Portugal rumo ao Brasil, ou com Vicente (Bruno Ferrari), cujo relacionamento começou como amizade e virou paixão. 

Alcides percebe que os espectadores estão divididos entre essas duas, digamos, configurações de casais. Mas diz que sua decisão não foi influenciada por uma corrente ou outra. “Não tenho redes sociais, mas tenho feedback do Twitter, principalmente, por conta dos meus colaboradores. Acompanho também por sites, blogs, para saber como está a repercussão da novela, dos personagens”, conta Alcides, ao Estado – o autor, que mora em São Paulo, entregou o último capítulo pessoalmente no Rio para evitar possíveis vazamentos. Alcides faz uma observação curiosa: no Twitter, os seguidores da rede social, mais jovens, ‘shippam’ Maria Vitória e Vicente; em contrapartida, nos “ibopes pessoais”, quando vai para a rua, o autor ouve as pessoas torcendo por Maria Vitória e Inácio.

“Acho que é um perfil mais tradicional, aquela coisa do primeiro amor. E elas não estão erradas, têm um raciocínio folhetinesco mesmo. Então, considero muito isso, como acho que quem torce por Maria Vitória e Vicente também não está errado, porque, durante a trajetória (da novela), se formou um casal novo, muito bem embasado, que foi construído aos poucos, com a cumplicidade, com a honestidade.”

E em um folhetim que se preze, o triângulo amoroso acaba movimentando a trama. Mas Alcides conta que, desde o início, tinha uma preocupação maior com sua Maria Vitória: queria preservar essa força da heroína. “Ela é uma menina que sofre, que tem problemas com o pai, que tem coragem de vir para o Brasil, naquelas condições horrendas. Essa heroína, para mim, era mais importante do que qualquer outra coisa na novela.”

Apostas. Em meio a um elenco de nomes como Tony Ramos, Letícia Sabatella, Marisa Orth e Regina Duarte, os novatos Vitória Strada e Bruno Cabrerizo foram boas surpresas como protagonistas. Alcides e Monjardim queriam apostar em rostos desconhecidos para o grande público – a Globo tinha jovens talentos disponíveis, mas, em cena, não tinham química.

A gaúcha Vitória já tinha aparecido no filme Real Beleza, de Jorge Furtado, de 2015. O carioca Bruno foi dica de um amigo de Monjardim, que alertou o diretor sobre um ator brasileiro que estava atuando na TV em Portugal. Os dois poderiam não passar de jovens e belos atores, e só. Mas seguraram a carga dramática desse casal à la Romeu e Julieta com competência e carisma. “É um casal jovem, bonito, talentoso, tem química, não tenho dúvida que ambos terão uma carreira muito linda pela frente. Fora que são ótimos profissionais, companheiros de trabalho bacanas, superestudiosos”, elogia o autor. 

Outra boa sacada de Alcides foi, sem forçar a barra, estabelecer diálogos entre os anos 1920 e os dias de hoje, e mostrar temas de convergência entre as duas épocas, como a questão do negro, do relacionamento inter-racial, da mulher, corrupção, febre amarela. No dia 20, estreia a novela Orgulho e Paixão, também de época, de autoria de Marcos Bernstein.

 

Entrevista com o autor Alcides Nogueira: 

Apesar de Tempo de Amar ser de época, você tratou de temas atuais, como febre amarela?

Eu tinha de falar da febre amarela, porque realmente houve essa epidemia lá, foi muito grave, mas de uma maneira inserida na trama. E, no dia que foi ao ar o capítulo em que Geraldo pega febre, assisti ao SPTV, em que falaram exatamente da questão da febre amarela. 

Houve outros temas... 

Sim, alguns temas são tristemente atuais. Quando fala da corrupção daquela época, na República Velha, que continua a mesma coisa até hoje; a impunidade dos políticos, que continua até hoje, a questão da saúde pública sucateada. Cem anos depois, continua a mesma coisa. É triste, né?

Diante do novo modelo de se consumir dramaturgia por causa das séries, como é fazer sucesso com esse formato mais tradicional de folhetim?

No começo, houve um certo estranhamento. Acho que o que fez com que as pessoas acabassem gostando foi exatamente o momento que estamos vivendo, um momento tão obscuro, tão triste, tão difícil, você não sabe o que vai acontecer, não sabe em quem confiar. Aí você vê uma novela que fala de sentimentos humanos, de amor, de compaixão, de uma maneira delicada, colocando as pitadas da realidade. As pessoas começaram a olhar esse como um momento em que havia uma certa calma. Acho que foi aí que pegou. E foi bacana.

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