Televisão sem fuso horário

Lost puxa o live streamig, exibição via web que une espectadores de todos os cantos do mundo

Gustavo Miller,

16 de fevereiro de 2009 | 18h31

Que a internet mudou a maneira de as pessoas assistirem à televisão, isso é claro. A grande mudança se deu sobre o poder do controle remoto. Antes, era a TV que nos dizia como e quando devíamos assistir a algo. Hoje, somos nós que tomamos essa decisão - seja vendo um programa mais tarde no site da emissora, no YouTube ou fazendo o seu famigerado download.   A última novidade virtual na nossa televisão de cada dia tem nome e sobrenome: live streaming. É uma transmissão feita ao vivo pela internet, em que se tem acesso ao conteúdo de todas as emissoras do mundo - em tempo real! Tal tecnologia é usada pelos brasileiros de duas maneiras. Aqueles que residem no País, acompanham jogos esportivos e séries que não estão passando em suas TVs naquele exato momento. Quem mora no exterior, mata a saudade de casa vendo o Jornal Nacional, por exemplo.   Como todo hype que surge na rede mundial de computadores, o começo ainda é muito amador. Há hoje espalhados pela web diversos sites de live streaming, como o Justin.tv. Qualquer um pode entrar nele e criar um canal pessoal próprio.   Para retransmitir um sinal de televisão na web, basta ter um computador com uma placa de TV, conectar o televisor ao micro e entrar no site de live streaming. É ou não é a "TV a gato" do século 21? A série Lost (como sempre) lidera esse fenômeno. Fãs do mundo todo veem um novo episódio da trama ao mesmo tempo em que é exibido nos EUA. "Culpa" de alguns americanos que fazem a retransmissão. "Em Lost há a expectativa de ser o primeiro a assistir e comentar. O live streaming faz bem para o ego", ri o publicitário Pedro Araujo, de 23 anos.   Já o universitário Mathias Abreu, de 17, usa o live streaming porque é a única maneira de ele assistir a todas as partidas da NBA. "O jeito é correr para a internet", resume. Ele passa as madrugadas conferindo os astros da Liga Americana de Basquete - também retransmitida por algum americano boa-praça.   As imagens exibidas não são incríveis - para isso acontecer, é necessário uma internet muito veloz. Mas quem entra nessa não está preocupado com vídeos em HD ou som 5.1. "Vale pela experiência. As pessoas só querem compartilhar conteúdo. Até retransmitem Lost com o closed caption ligado para facilitar a compreensão do inglês", diz Araujo.   "Experiência" foi a palavra mais ouvida durante as entrevistas feitas para esta matéria. "É uma evolução normal da tecnologia. Cada vez mais podemos ver o que queremos no lugar em que queremos e na hora que queremos. Com a internet rápida, isso fica quase natural", explica o publicitário Túlio Pires Bragança, de 28 anos. "Com esses canais online, bastam um PC e uma internet sem fio para eu ver os programas de onde estiver", completa o universitário Ícaro Nogueira, de 20.   Os dois palmeirenses acompanham os jogos do Palestra via live streaming - o primeiro de Buenos Aires, o segundo da italiana Florença. Para os brasileiros que moram fora do País, a ferramenta é um achado. "Eu me sinto menos alienado da realidade brasileira", comenta Bragança. "É uma ótima oportunidade de matar a saudade da língua e dos programas que cresci assistindo", diz a jornalista Thaís Leon, de 26, que vê Jornal Nacional em Boston, nos EUA.   "A pior coisa era chegar em casa, ligar o computador e ler em sites apenas o resumo do que perdi. Ver TV brasileira daqui dá a sensação de que acabaram as fronteiras do mundo", diz Nogueira, que sempre deixa seu notebook ligado num canal online do pay-per-view do Big Brother Brasil.   Aqui cabe a velha pergunta: mas isso não é ilegal? Bem, é. Mas é uma realidade dos tempos modernos... "É uma pena que seja ilegal, pois existem poucas coisas que unem o povo como a TV. Por que não legalizar e evitar que nos sintamos piratas quando assistimos?", questiona Bragança.   Nos EUA, os principais canais jogam ao vivo em seus sites parte de suas programações. Mas... só para quem reside lá. E, para variar, os internautas de outros países já dão um jeitinho de driblar isso.   Portais e canais a cabo abraçam a tendência   Dizem por aí que o telespectador do século 21 quer interatividade na sua programação televisiva. A TV digital poderia consumar esse plano, mas já que ela anda a passos de tartaruga no Brasil, a plateia vai de live streaming.   Quem entrar no Justin.tv, por exemplo, e for assistir a um canal, notará a imensa interação que existe por ali. Sempre ao lado da tela do vídeo há um fórum para os internautas comentarem ao que estão assistindo. Quem assiste a Lost aproveita para comentar as cenas; em jogos esportivos, o mote é xingar o juiz.   "Como estou sempre navegando online e conversando com os meus amigos, discuto aquilo que está acontecendo ao vivo. No caso do BBB, já deixo o PC ligado com a câmera ao vivo o tempo todo", diz Ícaro, da Itália. "Não fico atrás de assunto com ninguém!", ri.   De olho nessa tendência, os portais de internet investem forte na transmissão de filmetes ao vivo pela web. "É uma experiência que vai além de ver somente os vídeos. Nos jogos de futebol que transmitimos dá para ver informações estatísticas, fotos, replays..." enumera Antonio Prada, diretor de conteúdo do Terra para a América Latina.   Os números estão aí para endossar essa aposta. O estudante Mathias Abreu, de 20 anos, diz que os links de live streaming sobre NBA que ele indica em seu blog chegam a atrair 600 internautas.   O universitário Hugo Melloni, de 20 anos, diz que sua comunidade do Orkut dedicada a MMA (vale-tudo), em dias de campeonatos importantes, ganha 2 mil comentários apenas de pessoas que querem ver as lutas por live streaming. "Não é qualquer um que pode pagar o pay-per-view de vale-tudo. Então, a transmissão ao vivo na internet ajuda a divulgar o esporte", comenta.   Imagine então quando isso acontece em um site de grande visualização... O Terra, que transmitiu ao vivo a Olimpíada de Pequim, teve 12,3 milhões de acessos de pessoas que viram alguma competição ao vivo. Já o Campeonato Sul-americano de Futebol Sub-20, que aconteceu neste mês, reuniu 387 mil internautas, que viram os jogos ao vivo. "É uma audiência interessante, se comparada à TV paga", comenta Prada.   A televisão por assinatura, aliás, também está de olho no live streaming.   O Multishow teve no seu site quase 664 mil usuários únicos que viram algum vídeo ao vivo do festival de música Planeta Atlântida, em fevereiro. Em março, o canal transmitirá um dos aguardados shows do Radiohead no Brasil. Com uma curiosidade. "Na televisão haverá um pequeno delay, mas na internet será ao vivo, ao vivo", promete Daniela Mignani, gerente de Marketing do Multishow.

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