VITOR MATOSO
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'Teatro no Ato' revela mecanismos da encenação com direção de João Falcão

Série exibida no Arte 1 acompanha trabalho criativo do encenador na montagem de oito peças

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2018 | 06h00

A concepção de um trabalho artístico é uma experiência fascinante e normalmente reservada apenas àqueles que participam desse processo – o público, ao vislumbrar a obra pronta, muitas vezes não tem noção dos caminhos tortuosos que foram percorridos até desembocar no trabalho pronto. É justamente revelar as fases de uma criação artística o propósito da série Teatro no Ato, que o canal Arte 1 começa a exibir neste domingo, 1.º, a partir das 22 horas.

São oito capítulos semanais, que buscam mostrar algumas etapas da criação de uma peça teatral a partir de textos que marcaram a dramaturgia nacional e estrangeira. E, para capitanear tal empreitada, foi convidado o diretor e autor João Falcão – decisão acertada, pois Falcão não segue dogmas intocáveis em seu processo criativo. Ao contrário, ele busca trajetos mais arriscados ao se deixar levar pela criatividade (própria e dos atores) até chegar a um resultado.

O processo de cada episódio segue um roteiro básico: em torno de um elenco convidado, Falcão conversa com os atores sobre a origem da peça e suas diversas interpretações. Em seguida, inicia a leitura conjunta do texto e já propõe algumas cenas. Finalmente, com um material mais consolidado, o grupo faz uma apresentação básica da peça. Tudo acontecia em apenas um dia – os atores recebiam o texto pela manhã e, à tarde, gravavam o processo criativo durante quatro ou cinco horas, no Teatro Ipanema, no Rio. A produção foi comandada pelo canal Arte 1 com a Cine Group.

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“Não temos pretensão de fazer uma montagem”, conta Falcão. “O projeto pretende juntar atores para investigar personagens célebres.” Ele conta que tinha um ponto de partida, mas todas situações seguiram para lados inesperados. O processo, aliás, serviu também para o público ter um gosto de como funciona uma audição, ou seja, os testes de escolha de um elenco.

O primeiro texto trabalhado pelo grupo foi Édipo, de Sófocles. Um desafio: “Era justamente a peça menos palatável, mas, ao mesmo tempo, serviu para entendermos o significado das palavras, mesmo que isso tenha tomado muito tempo na leitura”, relembra. “Por conta da complexidade do texto, pela dificuldade em ser fiel à sua trama, percebi que o certo seria o grupo se concentrar em determinados trechos que explicassem bem a trama.”

Curiosamente, Falcão não se sentiu tão à vontade, como era de se esperar, diante de seus próprios textos. “A Dona da História foi um dos mais difíceis”, reconhece. “Antes de trabalhar com a peça, eu destaco trechos que considero essenciais, mas, como autor daquela dramaturgia, não tenho a noção do que é mais relevante. Descobri na conversa com o grupo.”

Atores. A seleção dos elencos, aliás, seguiu uma curiosa concepção de Falcão. Como de hábito, ele preferiu os mais jovens – não apenas pela disponibilidade (afinal, era preciso dedicar um dia inteiro à produção o que os mais consagrados, muitas vezes, não conseguem), mas principalmente pela vontade de se arriscar. Em Romeu e Julieta, por exemplo, o personagem principal é vivido pelo poeta Gleison Nascimento, cuja oratória é mais declamativa. Aos poucos, Falcão vai transformando sua entonação, aproximando-a de uma fala mais coloquial. É estimulante acompanhar a alegria do jovem com a modificação.

Acostumado a trabalhar nos bastidores, João Falcão conta que teve dificuldade em ver sua imagem no vídeo. “Ao acompanhar a edição de cada episódio, fui descobrindo meus defeitos”, diverte-se. “Mas confesso que aprendi muito.”

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