'Talvez vivamos num incrível mundo de sci-fi'

ÍCONE NERD: Autor entre os mais festejados da TV conta por que suas séries têm de chegar ao fim

Alline Dauroiz, de O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2010 | 16h00

Episódios interligados: 'Não sei o que é um show sem essa ‘serialização’. Não sei como Lost poderia ser Lost sem sua metodologia'

 

LOS ANGELES - Jeffrey Jacob Abrams, ou J.J. Abrams, entra na sala com aquela cara de geniozinho, cumprimenta todos os jornalistas com aperto de mão, pergunta de onde são e responde a tudo com simpatia de vendedor. No último encontro com a imprensa internacional para falar de Fringe, em março, o autor e dono da produtora Bad Robot não fugiu de perguntas sobre Lost, seu filho pródigo, contou que compôs os temas musicais de suas séries (Felicity, Alias, Lost e Fringe) e revelou, em bate-papo do qual o Estado participou, não saber fazer séries sem uma sequência de capítulos.

 

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No início de Lost você disse saber como seria a cena final. Sabe se haverá mudanças?

 

Bem no começo, tínhamos um monte de grandes ideias, mas conforme a série vai avançando, até a maior e melhor ideia, inevitavelmente, será mudada. Pode ser que o final seja similar à ideia original, pode até ser idêntico. Mas penso que (o cocriador de ‘Lost’) Damon Lindelof e o (produtor executivo) Carlton Cuse fizeram algo muito além do que poderíamos ter sonhado. Para se ter ideia, Michael Emerson (o Ben) não fazia parte da equação. Hoje, tem um monte de personagens que não existiam. Após seis anos, Lost se tornou bem mais complicada, mas ainda assim uma das séries mais gratificantes.

 

Os episódios de Fringe estão cada vez mais seriados. Há uma data final em mente?

 

Não temos uma data ou final específico, mas sinto que será num futuro próximo. A série tem um ritmo contínuo e o fim é inevitável. Algumas séries, como os CSIs e os Law & Order, podem viver por um milhão de anos, porque são contadas semana a semana. Mas, em séries como Lost ou Fringe, se não acabarem do jeito certo, podem terminar muito cedo, porque você não imaginou a profundidade ou o ritmo que teriam, ou se estender além da conta.

 

A ciência está cada vez mais interessante - e assustadora. Fringe explora isso, não?

 

Quando estávamos desenvolvendo a série, as situações nem pareciam tão verdade. Mas parece que, a cada semana, lemos algo sobre ciência que, definitivamente, é muito mais estranho do que o que estamos escrevendo. Essa é uma das razões para que eu ame Fringe. Adoro lidar com o estranho, o inesperado. E o fato de que quase tudo parece possível, ou teoricamente possível, faz o show cada vez menos ficção científica e mais o mundo em que vivemos - e talvez nós vivamos em um incrível mundo de ficção científica.

 

Tanto em Lost como em Fringe, o relacionamento perturbado entre pais e filhos é a razão para muitos problemas dos personagens. Esse assunto o toca pessoalmente?

 

Isso é universal. Toda a história será uma versão de um conflito romântico, profissional ou familiar. Mas, no fim, sempre fui atraído por histórias de pessoas em desacordo com seu passado, tentando se tornar melhores versões de si mesmas. E a obsessão em lidar com a relação pai/filho é uma coisa muito minha.

 

O que aprendeu sobre contar histórias na TV, que talvez não soubesse quando começou nesse negócio?

 

Não sei o que é um show sem essa "serialização" (com episódios interligados). Não sei como Lost poderia ser Lost sem a sua metodologia. Porém, também sei que programas "serializados" sofrem brutalmente para atrair a audiência. De qualquer forma, a única e verdadeira lição que diria a qualquer estudante ou a qualquer pessoa é: acredite naquilo que você se importa e tente o melhor que você pode realizar isso. Mas se você começa a pensar o que é cool no momento ou se outras pessoas vão gostar - porque tem um monte de gente por aí dizendo o que vai ser sucesso -, se começar a acreditar em outra coisa, pode até funcionar, mas prefiro muito mais ter um show que amo, que acredito e que pode sobreviver, do que algo de que eu não sinta orgulho, mesmo que seja um grande hit.

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