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'Succession' mostra a disputa entre irmãos pela sucessão de um império familiar de mídia

Nova série da HBO evidencia o lado humano e também ridículo dos bilionários

Mariane Morisawa, ESPECIAL PARA O ESTADO

02 Junho 2018 | 15h48

LOS ANGELES - Nos anos 1980, séries como Dinastia e Dallas exaltavam os milionários e suas famílias, ainda que eles se comportassem mal de vez em quando. Adam McKay e Jesse Armstrong, que estão por trás da série Succession (“sucessão”, em português), acham que os tempos são outros: é hora de questionar esses valores. A nova série da HBO estreia neste domingo, 3, às 23h. “Não dá para ignorar a realidade que vivemos”, disse McKay em Los Angeles. “A desigualdade de renda está em um nível histórico. Conversei com um estudioso do assunto que disse que ela é maior hoje do que no século 19 nos Estados Unidos, com escravidão e tudo, e do que no Império Romano. Estamos vendo um planeta oligárquico sem paralelos, e isso está distorcendo nossos valores. Cerca de dez por cento do dinheiro do mundo está parado em contas secretas. Então, o interesse por esse mundo é diferente do que era nos anos 1980. Acho que estamos começando a perguntar o que essa riqueza extrema significa para todo o mundo.”

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Como o título denuncia, a série trata da sucessão de um império familiar de mídia. Logan Roy (Brian Cox) é o patriarca e tem quatro filhos de mulheres diferentes. Kendall (Jeremy Strong) é o sucessor natural - pelo menos é o que ele próprio pensa. Mas, no dia em que acha que isso vai ser oficializado, ele é surpreendido pela decisão do pai de continuar à frente das empresas. Começa então uma briga pelo controle da situação, envolvendo também os outros filhos de Logan, Shiv (Sarah Snook), o engraçadinho Roman (Kieran Culkin) e o hippongo Connor (Alan Ruck). Não à toa, o ator inglês Brian Cox vê semelhanças com Rei Lear, de William Shakespeare. “Logan também tem uma tristeza, porque não é querido por seus filhos”, disse. A tensão aumenta quando Logan tem um problema de saúde, sem ter indicado um sucessor - e sem estar disposto a abdicar de seu trono. Para Kendall, é um drama e tanto, já que ele sempre se preparou para assumir o papel do pai e sente o risco de perder a empresa para um de seus irmãos, que nunca levaram a possibilidade de herdá-la muito a sério.

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Jesse Armstrong, que trabalhou durante anos num roteiro sobre o magnata da mídia Rupert Murdoch (dono da Fox News e do The Wall Street Journal), negou ter se baseado nele para escrever Succession. “Esta é uma família ficcional”, afirmou. “Mas nós, roteiristas, falamos de todo o mundo, incluindo Robert Maxwell, barão da imprensa britânica, e William Randolph Hearst.” 

Também entraram nas conversas a rainha Elizabeth e seu filho Charles, que espera para substituí-la há anos. “Não se tratava de uma família específica. Era mais uma questão de explorar o que acontece quando esse tipo de poder é passado pela linhagem. Como isso afeta o mundo ao redor? Como isso afeta os membros da família? No fim, fiquei surpreso de como, no fim das contas, a série é um drama de família”, disse McKay.

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Tanto o produtor e roteirista Jesse Armstrong (Conversa Truncada, The Thick of It) quanto Adam McKay (O Âncora - A Lenda de Roy Burgundy, Quase Irmãos), que produz a série e dirigiu o primeiro episódio, têm um passado firme na comédia. “Sempre abordo tudo pelo ângulo da comédia”, disse Armstrong. “Acho que é uma boa maneira de tratar desse assunto, porque ninguém aqui estava interessado em fazer algo que celebrasse totalmente esse grupo de pessoas, mas também não queríamos fazer uma denúncia. Queríamos mostrá-los como humanos.”

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Apesar de Succession ser um drama, em alguns momentos, fica claro o ridículo de certas situações. Por exemplo, Kendall ouvindo rap para se preparar para a reunião que acredita ser seu grande momento, ou um absurdo torneio de beisebol particular. “Um dos filhos dos irmãos Koch, Wyatt Koch, lançou uma linha de camisas com design próprio. Juro por Deus, quando assisti pela primeira vez, achei que era um esquete de comédia. E não era”, contou McKay. 

“Porque essa é uma questão: o que acontece com a comédia quando o mundo à sua volta fica mais estapafúrdio do que a comédia? Eu acho que o acerto de Succession é apostar no humano. Em nos fazer pensar o que aconteceria conosco se fôssemos criados para sermos filhos de um multibilionário.”

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