Paulo Liebert/AE
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Stand up na TV: há vagas para humoristas de bar

TV brasileira se rende e a comédia em pé vira alvo de busca por novos talentos

Alline Dauroiz, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2009 | 00h04

Em meio a tantos personagens caricatos, roupas espalhafatosas e mais de 50 anos de bordões, um tipo diferente de humor começa a invadir a panelinha da TV, façanha que só foi possível, é claro, depois de virar febre nos bares, teatro e internet.

De cara limpa, raciocínio rápido e muita espontaneidade, a comédia stand up, ou comédia em pé, virou uma mina de novos talentos, depois que o CQC, da Band, resolveu apostar, no ano passado, em três sucessos do YouTube - Danilo Gentili, Rafael Bastos e Oscar Filho - e alcançou repercussão imediata. De lá para cá, as emissoras abriram a caça aos novos comediantes do gênero, coisa que a TV americana já faz há muitos anos para abastecer seus sitcoms e talk shows. "Fomos descobertos pelo diretor do CQC (Diego Barredo), um argentino que não estava acomodado com a visão brasileira do que é comédia", anota Gentili.

Outra aquisição da Band, Marcelo Marrom, do Grupo Deznecessários, foi descoberto no teatro por Adriane Galisteu e agora ganhou quadro no novo programa da loira. Humorista de stand up há apenas dois anos, o músico que compõe canções para o KLB e Inimigos da HP ainda nem assinou contrato com a emissora e já está sendo cobiçado pela Record. Na rede dos bispos, Marrom pode ter chance ao lado de Carlos Alberto e Vinícius Vieira, o Mendigo e o Gluglu (ex-Pânico).

Marcelo Adnet e Dani Calabresa, considerados revelações da MTV, também têm berço no espetáculo "em pé".

Mas o que esse povo tem de tão diferente? A chave parece estar na capacidade de improvisar. Num show, além da coragem de dar a cara a tapa sem vestir personagens, eles têm de estar muito atentos ao ambiente. "O diferencial é o free style, é sacar coisas na hora", diz Marrom. Da notícia que acaba de pipocar nos sites ao mala sentado na plateia, tudo pode virar piada.

"A TV demorou muito para entender que um comediante de stand up é bom porque antes de tudo é autor", explica Gentili. "Por mais que não cante, não dance, ele é completo, pois escreve e pode criar textos até para outro fazer."

É aí que está a vantagem para a TV. No CQC, por exemplo, antes de ir para a rua, os meninos têm de saber com quem poderão encontrar e o que os jornais andam falando, para montar uma base de piadas. E, se houver o fator surpresa, a experiência dos barzinhos é que conta.

VAI PARA O TRONO?

Contratados para apresentar coisas diferentes do que fazem no palco, esses novos artistas bem que poderiam ganhar um programa de stand up, não? A situação divide opiniões.

Do outro lado do balcão do humor, Carlos Alberto de Nóbrega, há 22 anos "escada" das esquetes na A Praça É Nossa (SBT) e fã do stand up, diz já ter tentado levar o gênero ao seu programa. "Mas um quadro desses quebraria o clima da Praça, seria um peixe fora d'água."

Gentili também acredita que o estilo exija uma plateia preparada. Não por se tratar de algo intelectualizado - "Isso não depende do formato, só do comediante", diz - mas pelo que acredita ser o segredo do stand up: a identificação. "No meu show, as pessoas sabem do que se tratam minhas piadas. O público de TV aberta é heterogêneo, não é o ambiente certo", afirma. Para ele, a melhor forma de o stand up se adaptar à TV é seguir os passos americanos e virar sitcom. "Mas, era preciso dar liberdade ao humorista." Marrom concorda. "Fazemos muita piada com celebridades e marcas, e a TV vive disso."

Comediante há 22 anos, Marcelo Mansfield fundou um dos primeiros grupos de stand up no País, em 2004. Otimista, ele é daqueles que acreditam ter chance de emplacar o formato na telinha. "Tenho um piloto pronto, mas precisaria ter plateia. Falar só para uma câmera seria uma crônica. Daí, prefiro o Arnaldo Jabor."

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