'Sou um cara de sorte'

Ator que vive o Rudi de Poder Paralelo conta que saiu de Varginha e só ganhou bons papéis

Alline Dauroiz, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2009 | 23h52

Aos 17 anos, Petrônio Gontijo pegou um ônibus em Varginha, sua cidade, em Minas Gerais, e rumou para São Paulo, ouvindo Barão Vermelho no seu grande walkman amarelo. Tinha acabado de entrar na faculdade de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), único vestibular que prestou. Eram apenas 25 vagas. "Foi muita sorte", diz.

Hoje, aos 41, o ator gosta de incluir a palavra sorte, quando fala de sua carreira. Ainda na faculdade, fez teste para novela de Gilberto Braga, mas foi realocado para o folhetim Salomé (1991), quando estreou como protagonista. Em 1996, mudou para São Paulo, trabalhou no SBT, Record e Band e teve "a sorte" de realizar um sonho: fazer teatro com "os caras" da cena paulistana.

Vinte peças, 15 novelas e 6 filmes depois, Petrônio conversa com o Estado e fala de Rudi, o irmão drogado do protagonista de Poder Paralelo, que interpreta na Record. "Se bobear, meu personagem mais complexo de todos os tempos", revela.

O público tende a se distanciar de personagens problemáticos. Com o Rudi tem sido diferente?

Estou muito surpreso. Prova de que o público é inteligente, sensível. Não precisa minimizar na TV para ser popular. Podemos falar de coisas complexas e verdadeiras.

Chegou a visitar alguma clínica de reabilitação de dependentes químicos?

Meu laboratório foi mais com livros e conversas com minha psicóloga. Pesquisei sobre carência, abandono, dificuldade de comunicação. A droga encobre esses sentimentos. E já tive contato de várias formas com dependentes químicos, é algo que não está longe da minha vida.

O que é mais difícil ao interpretar uma pessoa nessa situação?

É trazer a compreensão do que causa a dependência. Queria fugir do estereótipo largado, barba mal feita. O Rudi pinta o cabelo para chamar atenção, é um playboy paulistano. A maior dificuldade é a condução emocional dele. E acho que tem um depoimento meu aí. É um trabalho de exposição.

Há algo de Rudi em você?

Lógico! Todos nós temos carências, dificuldades emocionais e debilidades afetivas. A diferença é como lidar com esses sentimentos. Quando o ciúme vira inferioridade, a inveja, uma raiva oca... Com o trabalho da minha psicóloga, procuro lidar de um jeito saudável. O Rudi não consegue se gostar.

O Fredo (vilão de Os Mutantes - Caminhos do Coração) tinha um tique na boca, e o Rudi tem tremedeiras. Seus personagens costumam ter um gesto?

Acredito no trabalho das ações físicas dos personagens. É o método das ações do (ator e diretor russo) Constantin Stanislavski, que diz que as emoções estão no corpo. E trabalho muito com música. Tenho trilha para cada personagem.

E qual é a trilha do Rudi?

Antes de entrar em cena, a música que toca no meu i-Pod é Lover, You Should''ve Come Over, do Jeff Buckley, um cara da época do grunge, que lançou um disco e morreu no fim dos anos 90. É uma das canções mais lindas que ouvi. Para o Fredo era uma coisa mais hardcore. Já o Tom, de Luz do Sol (Record), eram as músicas Gostava Tanto de Você, do Tim Maia e Cama e Mesa, do Erasmo Carlos. Quando leio a sinopse, penso na música, nos adereços. Isso tira de mim certas emoções.

Arrepende-se de algum personagem?

Sou um cara de sorte. Nunca peguei um personagem que não quisesse fazer. Até os que pareciam não ser tão legais, fiz com o maior prazer. Eles são um pouco do meu depoimento de vida.

A formação acadêmica faz falta na TV?

Para mim, foi fundamental. Eu era uma pedra bruta, que precisava do conhecimento para desenvolver um estilo. Mas conheci grandes atrizes que não se encaixam dentro do esquema acadêmico, que são intuitivas. O importante é descobrir um caminho de exercício, pesquisa e estudo. E o problema está em colocar o camarote na frente (risos), esse culto à celebridade na frente do ofício.

Mas você é celebridade.

Tenho um espaço na TV e no teatro que conquistei, colegas que me respeitam. Mas isso, para mim, foge da palavra celebridade, que não combina com meu jeito de ser. Minha vida é muito pacata. Não frequento badalações. Sou mineiro (risos). Estou longe de ser uma personalidade.

Se pudesse escolher, qual seria seu próximo papel na TV?

Sempre imaginei fazer um cara que anda a cavalo, toma banho de ribeirão, meio selvagem. E, claro, já tenho até música-tema. É aquela (Paisagem da Janela, de Milton Nascimento): ?Da janela lateral, do quarto de dormir...? (risos)

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