Sobe o som

MAESTRO, UMA NOTA: Falta espaço para a música na TV, é fato. Mas não é preciso procurar muito para encontrar biscoitos finos na programação dos mais variados canais

Patrícia Villalba, de O Estado de S. Paulo

03 de julho de 2010 | 16h00

Charles Gavin apresenta o Som do Vinil, no Canal Brasil

 

Se você se pergunta por onde andam os grandes nomes da nossa música que mal dão as caras na TV aberta, mude para canais como TV Brasil, Canal Brasil e Globo News e Record News. É lá que os bambas da MPB são entrevistados por quem entende do assunto, lançam seus trabalhos e, claro, cantam, em programas que reinventam a maneira de apresentar música.

 

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"A MPB está exilada no seu próprio país", dispara o crítico Tárik de Souza, que apresenta o MPBambas no Canal Brasil. O programa mostra o lado musical menos conhecido de gente que foi ou ainda é bastante conhecida. Na próxima quinta-feira, o humorista Chico Anysio relembra seus tempos de compositor, quando foi parceiro de gente como Altamiro Carrilho e Luiz Gonzaga. "Ele foi o primeiro a usar o termo ‘bossa nova’ numa música. Foi em 1955, com Cinema Bossa Nova", conta Tárik, dando uma palinha do recheio do programa. "A graça é mostrar o que essas pessoas, algumas até esquecidas, têm uma dimensão muito maior do que se possa imaginar."

 

Por que um programa como o MPBambas não está na TV aberta, acessível ao grande público, não é um grande mistério. A desculpa é que iniciativas desse tipo não atraem grande audiência. De dentro de uma espécie de oásis musical na grade da Globo, o Som Brasil, o diretor Luiz Gleiser prefere não questionar os motivos que levam o seu programa ser exibido à 1h40 da madrugada, uma sexta-feira por mês.

 

"Neste horário, posso experimentar à vontade, sem precisar dar explicações. A partir do momento que você vai para o horário nobre, o cenário muda", diz ele, que tem levado à maior emissora do País gente que nunca havia aparecido na TV. Com todos os poréns, a audiência do Som Brasil é bastante expressiva para o horário: marca em média 6 pontos.

 

Com grandes encontros musicais raramente vistos na TV aberta, o Altas Horas, pilotado por Serginho Groisman no mesmo canal e também na madrugada, endossa a receita, com boa audiência.

 

Plataforma. Qualquer telespectador com um pouco de memória pode perceber que o espaço destinado à música na TV não chega perto do que havia nos tempos dos grandes festivais ou de programas célebres como o Fino da Bossa, que Elis Regina e Jair Rodrigues comandaram nos anos 60 na Record. "É realmente incrível um país do tamanho do Brasil, com uma diversidade cultural enorme e que tem uma das melhores músicas do mundo, tenha tão pouco espaço para programas musicais", anota o sambista Diogo Nogueira, o mais badalado da nova geração - e olhe que aparece com frequência em auditórios como o de Faustão.

 

No ano passado, Diogo entrou para o time dos cantores e compositores que apresentam programas sobre música. O dele, o Samba na Gamboa, na TV Brasil, é um animado bate-papo em clima de botequim, por onde já passou gente como Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, Jorge Benjor e João Bosco. No palco, entrevista e canta ao lado dos artistas. Com isso, nessas mais de 70 entrevistas, já gravou mais de 400 músicas - um acervo e tanto do melhor do nosso samba.

 

Para o ex-Titã Charles Gavin, que há quatro temporadas apresenta O Som do Vinil, no Canal Brasil - um dos que mais têm investido na música -, praticamente não há mais espaço para o que ele chama de "plataforma de lançamento". "É resultado destes tempos que estamos vivendo, em que a música sofre concorrência de outras formas de entretenimento, como videogames e até fofocas. Não sei aonde isso vai levar", lamenta. "Na condição de música e de quem se preocupa com a música, sou pessimista porque não sei como retomar os programas importantes de outros tempos, como o Cassino do Chacrinha e o Globo de Ouro. Desses, o único que sobreviveu é o Raul Gil e, justiça seja feita, é um bom espaço."

 

O declínio das gravadoras e a divulgação de conteúdo pela internet dão a falsa ideia de que qualquer um pode apresentar seu trabalho para o mundo. Mas mesmo com YouTube e MySpace a mil, a TV ainda é o mais poderoso veículo de divulgação. "A TV não vai perder nunca o seu lugar, o seu destaque", acredita Diogo. " Edu Lobo e Nara Leão se tornaram pop star quando foram lançados pela televisão. Hoje, gente como o Ginga, por exemplo, é consagrado nos subterrâneos. A MPB virou underground", encerra Tárik.

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