João Miguel Junior/Globo
João Miguel Junior/Globo

'Sob Pressão põe o dedo na ferida', diz Drica Moraes, novidade da última temporada da série

'Sob Pressão' estreia sua terceira e última temporada no dia 2 de maio; as duas primeiras temporadas estão disponíveis no Globoplay

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 de abril de 2019 | 03h00

Com as duas primeiras temporadas disponíveis no Globoplay, a terceira temporada da série Sob Pressão estreia dia 2 de maio na TV aberta. Prepare-se. O primeiro episódio é eletrizante. Foi apresentado para uma plateia de jornalistas, na semana passada, no Rio, e na sequência o diretor-geral Andrucha Waddington, o roteirista Lucas Paraízo e os atores Júlio Andrade e Marjorie Estiano participaram de uma entrevista coletiva. 

Drica Moraes, que se integra ao elenco, chegou um pouco atrasada. Embora seja uma das séries de maior audiência na grade da Globo, Sob Pressão inicia a nova temporada já em ritmo de despedida. Será a última. Ninguém sabe explicar o porquê. “É uma decisão da emissora”, explicou Andrucha. E Júlio: “A gente prefere acreditar que, no futuro, a atração voltará. É muito forte, e tem um impacto muito grande sobre o público. Já ouvi de muito jovem que quis fazer medicina por causa do dr. Evandro, da dra. Carolina”. São os personagens de Marjorie e Júlio. O primeiro episódio começa com a greve dos caminheiros do ano passado. Falta combustível, as ambulâncias estão paradas. Só uma ou outra funciona, e é numa ambulância assim, com o combustível acabando, que dra. Carol conduz um paciente – um jovem com um espeto que lhe trespassa o peito –, atrás de vagas num hospital. O atendimento é do SUS, Sistema Único de Saúde, mas, em desespero, ela adentra um hospital chiquérrimo em busca de socorro. A segurança é acionada, mas, penalizado, o plantonista resolve ajudá-la. Você precisa ver como. Seria cômico, se não fosse trágico. Do macro ao micro. Num episódio, a história vai do estado do Brasil à radiografia do sistema de saúde visto pelo ângulo de quem não tem recursos.

No livro que inspirou a série – Sob Pressão –, o dr. Márcio Maranhão, em depoimento à jornalista e coautora Karla Monteiro, narra a rotina de guerra de um médico brasileiro no SUS. Dr. Maranhão não se vexa de revelar a cruel piada dos próprios médicos nos corredores de hospitais mal equipados e lotados – SUS é a sigla para ‘seu último suspiro’.

Andrucha define a série criada por Jorge Furtado – “Esse movimento do macro ao micro está presente desde a primeira temporada, é a marca da série. Estamos abordando de um novo ângulo os problemas que são os de sempre no sistema de saúde. Falta tudo – equipe, remuneração, material. E também falta participação do Estado num serviço público fundamental.”

Para Lucas Paraízo é muito triste constatar que a Constituição de 1988 defende o direito à saúde, à educação, ao emprego, e não está sendo cumprida. “É só ir a um hospital público, qualquer um, para constatar o abandono.” E Andrucha – “Em especial, nessa terceira temporada existe uma pergunta que nos fazemos o tempo todo – quanto custa salvar uma vida?”

Toda a equipe se orgulha muito do trabalho porque reconhece que Sob Pressão alcançou essa síntese difícil que é a informação com o entretenimento. “O que a gente mais percebe nas ruas, nas pessoas que aproximam para falar e comentar a série, é uma coisa de identificação. Todo mundo viveu uma situação parecida, ou conhece quem viveu, então fica muito próximo das pessoas, muito real para elas”, diz Marjorie. E Júlio – “Eu acho que as pessoas estão conseguindo ver o lado dos médicos. Eles são vilanizados, como se a falência do sistema de saúde fosse culpa dos médicos. Mas eles estão ali muitas vezes desesperados por não poder ajudar. Dr. Maranhão, que foi nosso guia, reflete muito sobre esse drama dos médicos. O que as pessoas estão descobrindo é que estão do mesmo lado, que os médicos não têm respaldo.”

Andrucha não está feliz só pela consciência do trabalho bem feito. Chama o repórter de lado e diz – “Olha aqui um dos meus diretores.” É seu filho Pedro, que o repórter conheceu menino. Pedro está um homem. Dirigiu dois episódios – o 5 e o 12. No total, são 14. “São episódios que abordam o racismo e a paternidade. Foi um aprendizado muito grande, porque a urgência está no centro de ambos. Está no cerne da questão da saúde. Muitas vezes, senão sempre, não existe segunda chance na saúde. É agora, e agora.”

Outros dos diretores é o próprio dr. Evandro, o ator Júlio Andrade, que faz sua estreia na direção. “Sempre quis, sou aquele cara curioso que está sempre com o olho atrás da câmera, palpitando. Andrucha me deu a chance, e eu fui.” O episódio vai dar o que falar. É narrado em planos-sequência de 15 minutos, que duram o bloco inteiro, entre comerciais. “Foi preciso muito ensaio, muita preparação e o Andrucha foi parceiro, me ajudando. Só acho que não estou tão bem como ator. É muito complicado conciliar as duas coisas.” Andrucha o tranquiliza. “Esse cara nunca é menos que bom.” E é verdade.

 

‘Ter estado doente me deu uma visão do bastidor da medicina’, diz Drica Moraes

Drica Moraes é a novidade da terceira – e última – temporada de Sob Pressão. Faz a dra. Vera, uma infectologista de maus bofes que vai trabalhar com dra. Carolina/Marjorie Estiano e dr. Evandro/Julio Andrade. Dra. Vera não aparece no primeiro episódio, mas, antes mesmo de conhecê-la, você pode ter certeza que a série reserva uma surpresa, uma revelação sobre o passado dessa mulher, que ajuda a explicar (e entender) quem ela é.

Quem é essa dra. Vera?

Não posso dizer porque essa é a revelação final, mas o que posso dizer é que ela se transforma. Começa de um jeito e termina de outro. Humaniza-se. Vera tem um passado muito pesado e, no contato com os médicos, vai se limpando, depurando. É uma personagem complexa, que me deu prazer de fazer, mas também exigiu muito.

Em que sentido?

Não é segredo que eu estive muito doente e passei por um processo longo de tratamento. Não era o SUS, mas isso me deu uma visão do bastidor da medicina. E tem a família. Meu marido é médico, minha irmã, meu cunhado, todo mundo é médico. Então eu conheço os dois lados dessa história. Aprendi a conhecer mais os médicos, enfermeiros. Ator tem essa coisa, a gente observa muito. Estava lutando pela minha vida, e aquelas pessoas passaram a fazer parte dela. Então a série me permitiu agregar o que observei, o que vivi.

Você contou que o realismo é uma coisa brutal...

É muito verdadeiro. Eu ia lá na maquiagem só para retocar, passar um pó para tirar o brilho, essas coisas, e chegava lá e via todas aquelas pessoas sendo maquiadas para coisas muito mais fortes. Tiros, feridas pavorosas. Era uma coisa horrível de ver, mas acho que Sob Pressão necessita mesmo desse realismo que pode se tornar nauseante.

Dra. Vera fica amiga da dra. Carolina, é isso?

Ficam, essa coisa de ter filhos une muito as mulheres. A Carolina quer, o Evandro não quer. Então essa questão da gravidez, da maternidade e da paternidade vai ser importante na série.

Já se sabe que a dra. Vera é truculenta. Por quê?

Acho que é uma carranca, uma proteção que as pessoas desenvolvem. De tanto conviver com essa realidade, as pessoas ficam mais frias, até para se proteger. A Vera é supercompetente, mas embrutece, e o meu desafio foi resgatar a humanidade dela. Gosto de dizer que lidar com a saúde pública, mesmo numa ficção, termina por indignar a gente. É tanto descaso das políticas públicas. Sob Pressão põe o dedo da ferida. 

 


 

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