Só Jack Bauer salva?

Oitavo ano tenta provar que a série ainda é atual e inovadora, apesar dos rumores negativos sobre o futuro da atração; um filme está nos planos dos produtores

Gustavo Miller, de O Estado de S. Paulo,

13 de março de 2010 | 16h00

São 86.400 segundos, 1.440 minutos, enfim, 24 horas. Jack Bauer nunca precisou correr tanto contra o relógio como neste seu dia de nº 8. A 8ª temporada da série policial estreia no Brasil às 23h desta terça-feira, 16, na Fox, e deve ser a derradeira na vida do agente que passou os últimos anos no papel de torturador, de torturado e de salvador do mundo por "x" vezes.

 

24 Horas é um ícone entre as séries da década. Entrou no ar dois meses depois do 11 de setembro, o que fez de seu protagonista um anti-herói na luta contra o terrorismo - convém lembrar que ela entrou em produção muito tempo antes da tragédia do World Trade Center. Provocativo para a época (trazia inclusive a figura de um presidente americano negro), o seriado inovou ao sugerir na TV o que seria um dia na vida de um agente especial do governo americano. A ação corria em tempo real, durante 24 episódios de uma hora cada.

 

Ironicamente, o formato é justamente o que levará 24 Horas ao seu cancelamento. Além de a trama ter ficado engessada (mudam vilões e mocinhos, mas a sinopse é a mesma), sua produção é muito cara e engenhosa. Somente o protagonista, Kiefer Sutherland, ganha mais de US$ 500 mil por episódio. E sem os prêmios e a audiência de temporadas anteriores, a Fox não tem receio de encerrar a produção - que, especula-se, renderá uma versão para a telona em breve.

 

Bauer agora é um cara família, avô, prestes a se mudar com a filha para Los Angeles

 

"Não quero saber a sensação do fim, sei que isso acontecerá algum dia. 24 Horas é parte da minha vida: outro dia levei meu filho ao set e Kiefer leu um livro para ele. Quando entrei na série eu não tinha filho nem marido", diz Mary Lynn Rajskub, a Chloe, ao Estado.

 

Como é de praxe, a cada nova temporada, 24 Horas passa por uma grande renovação. A principal delas, desta vez, é a volta da CTU (Unidade de Combate ao Terrorismo), que foi desligada ao final do 6º ano e passou a temporada anterior trabalhando na clandestinidade, em conjunto com o FBI.

 

A nova CTU é descolada, sem paredes e com divisórias de vidro, tipo agência de publicidade moderninha da paulistana Vila Leopoldina. Ela também tem um quê de Batcaverna, por agora ser subterrânea e ficar em Nova York, uma importante novidade neste ano. "É uma cidade com uma energia bacana, uma vibração que tem tudo a ver com o show", acredita Annie Wersching, que faz o papel da agente Renee Walker.

 

Vovô Jack Bauer. No final da 7ª temporada, Jack Bauer esteve bem próximo da morte, após ser exposto a um componente tóxico. Mas é claro que ele não morreu. No episódio que vai ao ar na terça-feira, o agente - aposentado - mostra-se um cara família, avô presente, prestes a se mudar com a filha para Los Angeles, Califórnia.

 

Porém, uma fonte sua dos velhos tempos lhe passa a informação de um atentado ao presidente da fictícia República Islâmica do Kamistão, que está na ONU, em Nova York, negociando um acordo de paz com a presidente americana Allison Taylor (a vencedora do Emmy Cherry Jones). O país de mentira busca pôr fim ao seu plano nuclear.

 

O resultado é óbvio: mais uma vez Bauer põe o trabalho à frente da família e se alia à nova CTU para descobrir quem está por trás do ataque. Bauer aceita a missão por trabalhar novamente ao lado de uma surpreendente agente Renee Walker, que agora é praticamente uma versão feminina de Jack. "Ela está bem perigosa e obscura", adianta Annie.

 

Com o possível final da série à vista, a atriz sabe que o público torce para que Renee seja, oxalá, a pessoa com quem Bauer passará o resto de sua vida. "É um risco se envolver com ele. Não funcionou com outras mulheres", diz Annie, que ri ao escutar dos espectadores mais xiitas sobre a impossibilidade de se apaixonar por alguém em apenas um dia. "Não sei vocês, mas já tive momentos em que me senti conectada com alguém instantaneamente".

 

 

Turma de bajuladores

 

Com a CTU 2.0, novos personagens são apresentados. Katee Sackhoff é a analista de sistemas Dana Walsh, assim como John Boyd, no papel de Arlo. Os dois são o pesadelo de Chloe por serem mais competentes que ela, sempre tão esnobe. "Foi uma sacada bacana. Não é bom para ela, mas é divertido na hora de atuar. Você riu ao assistir?", pergunta Mary Lynn, conhecida nos bastidores por ser o oposto de Chloe. "A sinopse é tão pesada e os diálogos são tão complicados que trabalhar com ela é fantástico. Às vezes temos de olhar para sua testa para não rirmos em cena", brinca Katee.

 

Quem também integra a equipe da CTU é Freddie Prince Jr., como o militar Cole Artiz. Fora da TV há dois anos, o ator ficou famoso por ser o queridinho da América no começo da década passada. "Fiz filmes como ‘o’ bonzinho e todo mundo amou isso para vender revistas. A mídia me fez assim. Ao mandar minha fita (de audição) mostrei que não era apenas um sorriso", explica Freddie, inquieto sobre seu passado.

 

Entre os novatos, é regra elogiar a produção e o protagonista de 24 Horas. "O trabalho é fantástico, do cara que limpa a câmera ao diretor. É um programa difícil: você está em uma cena ao telefone com três pessoas diferentes, olhando para uma tela, enquanto cinco relacionamentos acontecem ao mesmo tempo. Kiefer faz isso como se cortasse manteiga", diz Boyd. "Já trabalhei com Al Pacino e Tom Hanks e me sinto nervoso no caminho ao trabalho todo dia", concorda Mikelti Williamson, intérprete de Brian Hastings, o novo diretor da CTU.

 

Hastings será o algoz de Bauer. "Ele é alguém com dificuldade de pedir desculpas ou admitir seus erros, aquela coisa de macho-alfa. Você não veria os dois saindo em casaizinhos", ri. O ator estava nos planos de Sutherland em 24 Horas desde o começo da série. Ele diz não lamentar a entrada tardia e sabe que, independentemente da decisão da Fox, a série não será esquecida. "Audiências do mundo todo ficam curiosas sobre a reação de um homem ou mulher que colocam a vida em risco por pessoas que nunca viram. Quem faz isso? Jack Bauer".

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