Marcelo Faustini
Marcelo Faustini

'Só as coisas simples nos reconectam com a essência da vida', diz Christiane Torloni

Isolada em sua casa no Rio e de volta às telas como Tereza Cristina de 'Fina Estampa', atriz reflete sobre a pandemia do coronavírus e diz estar preocupada com o desmatamento da Amazônia durante a quarentena

Entrevista com

Christiane Torloni

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

10 de abril de 2020 | 05h00

Tereza Cristina, a grande vilã de Christiane Torloni em Fina Estampa, está de volta. Assim como Griselda, Crô e outros personagens memoráveis. E de uma maneira sem precedentes na história da Globo. Isso porque a trama das 9 de Aguinaldo Silva, exibida entre 2011 e 2012, está sendo reprisada no horário nobre. O avanço do novo coronavírus fez com que a emissora suspendesse as gravações de suas novelas e colocasse em prática um plano emergencial: resgatar antigos folhetins de sucesso da casa para ocupar sua grade das 18h, 19h e 21h. “Essa novidade coloca o artista diante de uma surpresa do destino incrível”, observa Christiane Torloni, em entrevista ao Estado, por telefone, de sua casa, no Rio. A atriz tem boas lembranças dessa época. Era uma rotina intensa. “Eu tinha uma média de 70 a 100 cenas por semana, isso é um recorde.” 

Na nova realidade de confinamento, Christiane assiste à novela, e também se dedica às atividades físicas indoor, à leitura e aos projetos pessoais. Ela conta, orgulhosa, que, antes de conversar com a reportagem, estava envolvida com um texto em inglês, após ter sido convidada para fazer parte do The Science Panel for the Amazon. “É um painel científico para a Amazônia. Junta ciência com sociedade civil”, diz a atriz, de 63 anos, que integra a Fundação Amazônia Sustentável e é diretora do documentário Amazônia – O Despertar da Florestania. Aliás, em tempos de pandemia, ela faz um alerta: “Você acha que pararam o desmatamento e as queimadas na Amazônia? Estamos na quarentena, eles não estão. Você acha que quem é do mal fica na quarentena?”. 

Na época em que Fina Estampa foi exibida, você estava gravando intensamente e agora está em casa, assistindo à novela. Como é vê-la como espectadora?

Antes de tudo, acho que essa é uma oportunidade se não rara, única, porque, em 45 anos de carreira, isso jamais aconteceu. Uma coisa é ter uma novela sua reprisada no Vale a Pena Ver de Novo, no Viva. São categorias diferentes. É história o que está acontecendo, nunca foi feita uma estratégia como essa, porque um momento como esse nunca existiu. Fina Estampa foi uma novela de muito sucesso, dentro de uma situação do Brasil que era completamente diferente desta. A primeira coisa que a gente vê nessa novela é uma estética amorosa, solar, afetiva para um lugar. O espectador está sendo apresentando ao clássico folhetim. Em uma semana, você vai saber quem são seus afetos ou seus desafetos. 

E como é ver a personagem quase dez anos depois?

Você tem que lutar com você mesmo para não tentar criticar o personagem, sua performance... Quer dizer, o personagem, não. Isso é uma coisa que eu percebo já há muitos anos: não faço julgamento de valor de personagem, nunca. O único que pode fazer isso é o público. A novela é um exercício de erro e acerto, você vai percebendo onde você vai errando, onde precisa ajustar, e ouvindo teus diretores, teu autor. Vejo a Tereza Cristina como um grande exercício de liberdade interpretativa. Ela e o Crô (Marcelo Serrado) têm uma pequena afetação, um pequeno tom que faz com que as pessoas sensorialmente percebam que estamos um pouco além da realidade do chamado naturalismo. Então, transitar do ponto de vista interpretativo entre o natural e esses momentos em que os personagens são um pouco hiper-realistas, isso é uma coisa muito precisa. 

Como é chegar aos 45 anos de carreira relembrando uma personagem tão importante? Tem esse olhar para trás nesses momentos de carreira? 

Fui criada de uma maneira muito espartana no que diz respeito a essa questão da arte. Sou filha de dois atores, Monah Delacy e Geraldo Matheus. Olho minha carreira, e é um passo depois do outro. Nunca fiz grandes planos. Fui criada dentro de uma disciplina, dentro do teatro, por isso que sou uma atriz de teatro há tantos anos. Terminamos a 3.ª temporada do Master Class no final do ano passado, com mais de 72 mil espectadores, e depois desse projeto outros papéis muito lindos vieram, oportunidade de trabalhar com Luiz Fernando (Carvalho) fazendo Velho Chico. Autores novos com quem eu não tinha trabalhado como Daniel Ortiz e Mário Teixeira. E produzindo um filme que idealizei, um documentário apresentando todo um lado ativista de meio ambiente. Então, quando o passado chega ao meu presente, me sinto agraciada, porque de alguma maneira ele vem dizer: continua, hein. 

Por causa da pandemia, como está sendo sua nova rotina? 

Sou uma pessoa que exercita a solidão há muitos anos, de alguma maneira. Apesar de eu ser uma pessoa bastante social, cultivo a minha companhia, os meus estudos, os meus projetos. Meu filho é um homem adulto, tem o filho dele, tem a vida dele. Meus pais não moram no Rio, moram na serra. Tenho meus amigos, mas não é todo dia, toda semana. As pessoas que conheço são muito produtivas também nos seus afazeres. O que me deixa muito angustiada é ter que ser absolutamente obediente e não poder fazer práticas físicas fora de casa. Faço isso a vida inteira: ando, ando de bicicleta, corro na praia. Mas não tem o que fazer, porque estamos lidando com uma situação que é invisível. Percebo a responsabilidade de tentar não arriscar, até em nome dos meus pais, do meu filho, do meu neto. Então, todas as práticas que eu costumava fazer fora de casa, estou fazendo dentro de casa. E fazendo uma coisa que sempre digo para as pessoas que falam que odeiam fazer qualquer tipo de ginástica. Pergunto: você gosta de música? ‘Adoro’. Então, bota música e dança. Dance na sua sala, solte seu corpo, porque o coração precisa disso. 

E como você está enfrentando este momento?

Vou te falar uma coisa: só pessoas que enfrentaram tragédias nas suas vidas sabem como é um dia atrás do outro. Como a gente está vivendo uma tragédia mundial, aconselho as pessoas amorosamente a viverem um dia de cada vez, e fazerem as coisas simples com alguma alegria. As coisas básicas do seu dia, ao se levantar, escovar os dentes como se fosse a primeira vez ou a última na sua vida. Só as coisas simples nos reconectam com a essência da vida. Este é um momento em que a gente vai ter que viver com muita simplicidade. Isso chama-se altruísmo. A gente olhar que todos nós estamos passando por este momento, por alguma razão que talvez a gente nunca saiba. Estamos neste momento no Brasil, todos batendo no mesmo ritmo dos nossos corações. Um país que estava tão desalinhado, com tantas polarizações políticas, você pode imaginar que, por uma regência cósmica, estamos todos no mesmo ritmo: todos os dias tomando café e almoçando mais ou menos no mesmo horário, lavando louça, varrendo a casa. As coisas simples nos salvam. Para quem já tomou grandes trancos, tsunamis existenciais, a gente sabe que só isso nos leva para frente. Então, vamos juntos. 

Você passou por uma grande tragédia que foi a perda de um filho...

E você se conecta com todas as outras pessoas que também tiveram perdas e você percebe que foi assim, porque isso é um bastão de ensinamento que vai passando ancestralmente. É muito difícil você passar uma vida inteira sem ser tocado pela tragédia. E, quando ela acontece, você olha também amorosamente para o mundo, porque muitos braços e abraços vêm te confortar. Então, neste momento, estamos fazendo isso uns com os outros, nos consolando. Todos nós perdemos uma coisa chamada liberdade, que é um bem supremo e intangível. A gente está vendo as pessoas cantando Parabéns Pra Você a distância, batendo palmas, cantando na janela. As pessoas estão fazendo coisas que são grandes abraços. O dia de hoje vai acabar já já. Just for a day. Um dia após o outro. 

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