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Síndrome de Lena Dunham já afeta 'Girls'

Polêmicas envolvendo a atriz e roteirista são sinais do que tem tornando a terceira temporada da série previsível

Clarice Cardoso, O Estado de S. Paulo

01 de fevereiro de 2014 | 00h05

É sintomática a proporção tomada pelo debate envolvendo o uso de Photoshop em fotos da atriz e roteirista Lena Dunham para uma revista de moda no último mês. Quando surgiu, a criadora de Girls era tida como um prodígio da televisão norte-americana. Louvada como a nova voz do humor, tornou-se queridinha de jornalistas. Dizia-se que daria voz a uma geração.

A controvérsia começou com fotos feitas para a Vogue, que logo geraram especulação sobre o fato de terem ou não sido alteradas. O site Jezebel, conhecido por se posicionar como um portal feminista, ofereceu US$ 10 mil para quem lhe enviasse as imagens originais – queria provar que a revista emagrecera a moça. Foram mais de um milhão de cliques para as fotos que, ao fim e ao cabo, receberam retoques relativamente pequenos. “Algumas coisas são ridículas demais para que eu me engaje nelas”, postou a estrela da série em sua página no Twitter. “É muito legal quando as pessoas fazem as coisas por despeito, em vez de por falso altruísmo”, cutucou. (A ironia é que, num episódio escrito tempos atrás, e exibido recentemente, sua personagem defende o grupo de mídia.)

O foco excessivo no peso e na forma física de Lena é, em parte, culpa dela mesma. Na série, nunca perdeu a chance de criar cenas em que desfila seminua. Os quilos a mais sempre geraram controvérsia, e ela continuou a tentar chocar, orgulhosa por não seguir o padrão de beleza – numa cena de episódios passados, joga pingue-pongue apenas de calcinha. Natural que, agora, o público só queira falar disso. E que o foco distancie-se mais de seu trabalho para fechar-se em sua pessoa. Algo similar acontece em seu programa na TV. A vida imita a ficção.

A princípio, Girls propunha-se a retratar a vida de garotas na faixa dos vinte e poucos anos numa grande cidade. Relacionamentos confusos, instabilidade financeira, incertezas profissionais e inseguranças sexuais eram o tema de fundo dos episódios. À medida que a terceira temporada avança, essas questões se tornam mais estereotipadas – e os episódios, mais previsíveis.

Características que sugeriam identificação com o público, como a falta de perspectiva de Marnie (Allison Williams) após o término de um longo relacionamento, as inseguranças de Shoshanna (Zosia Mamet) com a vida sexual ou as destrutivas escolhas de Jessa (Jemima Kirke), se intensificam de modo quase caricato. (A primeira voltou a morar com os pais. A segunda adotou o sexo casual como se para compor uma tese. A última foi parar na reabilitação.) Mais que tudo, as excentricidades de Hannah (Lena) evoluíram até virar doença mental.

Ao fim da última temporada, uma crise faz Hannah tosar o cabelo, desenvolver TOC e furar o ouvido com um cotonete. Agora, medicada, ela começa a colocar a vida em rumo. Mora com o namorado e conseguiu contrato para escrever um e-book. O problema é que vê o mundo por uma ótica deformada, e a dor do outro serve-lhe apenas como tema para uma nova crônica. Um episódio em particular parece escrito apenas para mostrar o quanto Hannah não é uma pessoa como todos nós. Ao saber da morte de uma pessoa próxima, tem uma reação fria, pensa apenas em si mesma, não demonstra emoções. As amigas não veem nisso um problema, nada é, ensimesmadas que estão. Mesmo elas vão se tornando secundárias. Tudo parece a serviço de Hannah, ou Lena.

Na madrugada de domingo para segunda, à 1h, a HBO exibe o quinto episódio da atual temporada (com pouquíssima diferença em relação aos EUA, ação notável).

Logo que a série estreou, Lena tinha de dar entrevista após entrevista dizendo que não queria fazer um novo Sex and the City. Para o que isso implica de positivo e negativo, a comparação jamais será feita. Girls tem se fechado demais em si mesma para se propor a fazer qualquer retrato de uma geração. Com a pretensão de abordar “Hannah e suas amigas”, a série vai aos poucos perdendo o potencial que tinha de se tornar única.

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