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Silvio Santos chega aos 84 anos

Seus funcionários por vezes descrevem suas decisões como coisa de quem parece doido, mas, no fundo, idolatram ordens do "mestre"

Cristina Padigione, O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2014 | 10h37

Dizem que quanto mais velho se fica, maior o empenho em ser sincero e a irrelevância em ser político com todos. Nesse contexto, não há quem desperte mais dúvida sobre estar gagá ou apenas se valendo dessa tese, plenamente ciente do que faz, do que Senor Abravanel, mais conhecido como Silvio Santos, 84 anos completados nesta sexta, 12.

O primeiro dos cinco filhos de Alberto Abravanel e Rebecca Caro, nascido na Lapa, no Rio de Janeiro, em 12 de dezembro de 1930, sabe bem o que diz. De uma lucidez rara a essa altura da vida, vem se valendo há algum tempo da prerrogativa de quem já está senil. Balela. Toda a aparente loucura no discurso do empresário, pode reparar, há de se comprovar fundamentada em curto prazo.

Há quatro anos, Silvio Santos se viu encrencado por uma fraude contábil no Banco Panamericano, instituição financeira que lhe pertencia. Até aqui, comprova a capacidade de sair do episódio com reputação ilesa. Não é para qualquer um. Por experiência de quem jornalisticamente acompanha a produção televisiva há 24 anos, tendo inclusive prestado serviços ao SBT, esta escriba pode dizer, com segurança, que o slogan da "TV mais feliz do Brasil" não é em vão. Silvio Santos é tratado como louco e gênio, na mesma medida, nos bastidores de suas empresas. Seus funcionários muitas vezes descrevem suas decisões como narrativa folclórica, coisa de quem parece doido, mas, no fundo, idolatram as ordens de "seu mestre mandou". Em dezembro passado, ele apareceu de surpresa na festa dos funcionários do SBT para se declarar não o patrão, mas o "colega de trabalho". Argumentou que foi ao Panamericano uma única vez e à Jequiti, empresa de cosméticos do grupo, em raras ocasiões. "Aqui", disse, no palco da festinha de fim de ano da emissora, "sou colega de vocês". A cena está no Youtube.

Outro indício da plena lucidez de Silvio Santos está no seu depoimento à a Justiça Federal, em 19 de agosto deste ano,  como testemunha de defesa de um dos réus na ação penal sobre o rombo de R$ 4,3 bilhões no Banco Panamericano. "Me diziam que o banco era uma maravilha", afirmou, ao ser indagado se tinha conhecimento das fraudes, segundo relato do repórter Fausto Macedo publicado neste Estado

"Chegou quase uma hora antes do início da audiência", descreve Macedo, "foi tietado pelas moças da limpeza do fórum e por servidores, mas desta vez não distribuiu aviõezinhos de notas de R$ 100 e pouco exibiu o sorriso que o acompanha desde sempre na TV", concluiu.

Com seis filhas, duas do primeiro casamento, com Cidinha, e quatro de Íris Abravanel, Silvio cuida profissionalmente de sua sucessão, tendo a filha de número 3, como ele diz, Daniela Beyrutty, no comando da programação e do artístico do SBT. Rebeca e Renata se dividem no administrativo, enquanto Patrícia tenta seguir os passos do pai diante das câmeras. É uma boa apresentadora, atestava Hebe Camargo, com potencial para crescer muito mais, mas o pai é mais que isso: é o melhor vendedor do País, no que sabe persuadir seu público a não trocar de canal, mesmo que ele o veja em formatos absolutamente clássicos, que se repetem há anos. Nas noites de domingo, quando o Ibope mais fragmenta a plateia da TV aberta, Silvio mantém inabalável a fatia que lhe cabe, enquanto Fantástico, Pânico e Record dão cambalhotas em busca de novas ideias para atrair o respeitável público do horário.

Há pouco mais de um mês, abandonou o tradicional microfone de lapela, item que lhe era muito precioso no início dos tempos de animador, quando ainda locava horário nos domingos da Globo. Tinha até um funcionário que tomava conta do microfone, como se fosse um cofre. Ao dispensar o então Homem do Baú de sua grade, a Globo viu Silvio se empenhar na compra de um canal de TV, e ele chegou a ter 50% da Record, além de conquistar uma tão sonhada concessão do governo para ter seu próprio canal. Para chamar a TVS de sua, em 1980, numa sobra do que havia sido a falida TV Tupi, Silvio contou, em boa dose, com uma fã essencial: dona Dulce Figueiredo, mulher do último presidente militar da era da ditadura,

Nascia ali, em agosto de 1980, a TV que abrigaria Chaves e boa parte da safra de novelas mexicanas que fazem sucesso mundo afora.

NO PRINCÍPIO...

Senor Abravenel é filho de imigrantes judeus sefarditas. Na comunidade judaica, reza a lenda que Silvio é um doador muito melhor do que o que diz ser. Mas é ele próprio quem costuma pedir que anunciem sua doação com cifras inferiores, a fim de endossar para sua mulher, dona Íris Abravanel, evangélica, que o montante destinado à causa judaica se equipara às doações feitas à igreja da qual ela é devota.

Pai do animador, Alberto Abravanel nasceu na cidade de Tessalônica, no Império Otomano, atual Grécia,em 1897. A mãe, Rebecca Caro, nasceu em Esmirna,também na época parte do Império Otomano, atual Turquia, em 1907. Ambos estão sepultados lado a lado no Cemitério Israelita do Caju.

Senor possuía cinco irmãos, Beatriz, Perla, Sara, Leon e Henrique. Descobriu-se exímio vendedor já aos 14 anos, quando se viu faturando como camelô, no centro do Rio. Seu ponto preferencial ficava entre a Avenida Rio Branco e a Rua Sete de Setembro. Atuava com o irmão Leon e um sobrinho de Adolfo Bloch, que o escoltavam, à espreita de qualquer sinal da polícia, desde sempre disposta a fazer o rapa entre camelôs.

Sua primeira oferta de venda foi aquela capinha de plástico para o título de eleitor, num momento em que o Brasil entrava em uma fase de redemocratização, após o Estado Novo de Getúlio. E foi justamente um fiscal de posturas da prefeitura carioca quem notou potencial radiofônico naquela voz do camelô, convidando-o então para fazer um teste na Rádio Guanabara. Pegou o primeiro lugar, derrotando até um tal de Chico Anysio, que viria a se orgulhar de ter perdido o posto para ele, anos mais tarde.

Bastou um mês como radialista para saber que o negócio lhe rendia mais, por menos esforço.

Aos 18 anos, serviu ao Exército Brasileiro com paraquedista, em Deodoro. Como era impossível ser camelô e servir à causa militar, aceitou oferta de uma rádio em Niterói, e ali se fez locutor de vez. Mas, que diacho, o homem esbanja senso de oportunidade, e logo perceberia que as viagens das barcas entre o Rio de Janeiro e Niterói padeciam de monotonia. Logo decidiu montar um serviço de alto-falantes nas embarcações, com anúncios de produtos nos intervalos. Foi assim que o comerciante começou a se perceber no animador.

Um acidente com a barca o levou para São Paulo, a convite da Antárctica, àquela altura, anunciante na barca. Não demorou para comandar caravanas com músicos, sob a alcunha do "Peru que fala". É que Senor, embora fosse muito bom de microfone, ficava ruborizado a cada fala, o que lhe valeu o apelido da ave.

Foi a própria Globo, que passou anos tentando fugir da prioridade do SBT, quem primeiro abrigou SS, cobrando  pelo espaço ocupando, a princípio com Vamos Brincar de Forca, que estreou em 19672, ainda pela TV Paulista, antigo Globo.

Em 1988, chegou a propor sua candidatura à prefeitura de São Paulo,o que não foi em frente, mas, em 1989, entraria na corrida presidencial para as primeiras eleições diretas ao posto, em 29 anos. Foi ao horário eleitoral, para pedir que o público fizesse o xis na cédula, àquela altura pronta, onde constasse o nome do pastor Armando Corrêa. A candidatura logo foi impugnada pelos adversários, mas o episódio acabou desacelerando a tendência de crescimento de Mário Covas. Nunca saberemos, no entanto, se isso de fato alterou a configuração que viria a resultar na vitória de Fernando Collor, ao fim do pleito.

Em 2001, foi homenageado pela escola de samba Tradição, no Rio, com o enredo Hoje É Domingo, É Alegria. Vamos Sorrir e Cantar!, de Lourenço e Adalto Magalha.

Em agosto do mesmo ano, viveria o episódio mais espetacular de sua vida, num script que a ficção certamente recusaria, de tão absurdo. Sua filha, Patrícia Abravanel, foi sequestrada na porta de casa, no Jardim Morumbi, em São Paulo. Após alguns dias de negociação, o resgate foi pago e Patrícia foi libertada. Um dos sequestradores, no entanto, Fernando Dutra Pinto, acabou sendo perseguido pela polícia e matou a tiros dois policiais. Sem ter para onde ir, invadiu a casa do próprio Silvio Santos e manteve o empresário e toda a sua família como reféns. Em tempo recorde, Silvio usou seu poder de persuasão para convencer o sequestrador a libertar as outras pessoas da família, e seguiu sob a mira do criminoso durante sete horas. Pela primeira vez em décadas, Silvio ocuparia a programação da Globo de maneira intensa. Durante toda aquela manhã, helicóptero da emissora e de outros canais sobrevoavam a casa e acompanhavam, atentamente, aquele roteiro sem precedentes.

Fernando só se entregou com a chegada do governador Geraldo Alckmin, que garantiu a integridade do criminoso na ocasião. Alguns meses depois de preso, no entanto, no dia 2 de janeiro seguinte, Fernando morreu em consequência de uma infecção generalizada causada por um corte profundo nas costas, dentro da prisão.

Em fevereiro de 2013 a revista Forbes divulgou um levantamento em que atesta que o patrimônio de Silvio Santos gira em torno de US$ 1,3 bilhão, o que o coloca na lista dos homens mais ricos do mundo. Faz todo o sentido, para alguém que consagrou o bordão "quem quer dinheiro?"

Veja alguns vídeos com Silvio Santos:

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