Silveirinha é o cara: sabe tudo

Habituado a driblar os estigmas da TV, ator conta que personagem nada tem de submisso

Alline Dauroiz, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2008 | 21h25

Em 56 anos de carreira e com 44 novelas no currículo, fica difícil lembrar de Ary Fontoura em um personagem realmente do mal. Aos 75 anos, esse ator curitibano é bem mais conhecido na TV por tipos engraçados, ora ranzinza, ora muquirana e até galanteador. No ar agora em A Favorita, seu 45º folhetim, Ary vive o enigmático Silveirinha, mordomo e confidente de Donatela (Cláudia Raia), que começa a colocar suas asinhas da maldade de fora. Ex-empresário da dupla sertaneja formada pelas arquiinimigas Flora (Patrícia Pillar) e Donatela, Silveirinha foi acostumado a ter poder. "Ele tinha status, agora é um sujeito comandado. Isso, para uma pessoa que já esteve no topo, é profundamente sofrível. O ser humano se sente humilhado", explica o ator.Depois de viver um romântico e elevar a auto-estima do público da terceira idade, com o casal Romeu e Juju (Nicete Bruno) na novela Sete Pecados, Ary não teve férias para emendar um trabalho no outro. Em conversa com o Estado, ele conta como contraria a idéia de que a idade é empecilho para bons papéis.O Silveirinha ainda não mostrou muito a que veio. No caso dele, as aparências enganam?Tem uma hora em que eu digo para a Donatela que os patrões subestimam os empregados, porque pensam que eles são surdos, mudos e cegos. Ele está envolvido com muitas pessoas, sabe verdadeiramente do assassinato. É um personagem importantíssimo dentro da trama. Aliás, todos os personagens dessa novela não são absolutamente confiáveis, eles vão se modificando de acordo com as histórias. É como o jogo de detetive. Todos são culpados, até que se estabeleça a verdade. E como você trabalha com esse fator surpresa? Como estou sentindo que ele vai ter uma virada, eu não fecho o meu personagem totalmente, porque, senão, não poderei mudá-lo. Sempre deixo perspectivas para o dia seguinte.O que há de Silveirinha em Ary Fontoura?Eu vou procurando em mim as emoções já vividas. Não sou uma pessoa totalmente boa, nem totalmente ruim. Só que tenho outros princípios. O Romeu (de Sete Pecados), por exemplo, era um sujeito essencialmente romântico e eu também sou.Vai ter espaço para o humor no Silveirinha? Em todo aspecto negativo, trágico da vida, há sempre uma pitada de humor. O Silveirinha é um personagem que dá para exercer tudo. Mas tem umas coisas patéticas que acontecem com ele, aquelas humilhações... Depois de ter tido uma posição superior, ele foi desvalorizado. Ele tinha status, era empresário musical de uma dupla que estava deslanchando. É evidente que era paparicado aqui e ali.Ele determinava o que deveria ser feito, agora é um sujeito comandado. E isso, para uma pessoa que já esteve no topo, é profundamente sofrível. O ser humano se sente humilhado. Deu uma derrubada na vida dele, que de uma forma ou de outra, deverá ser posta pra fora. Ele sempre terá um recalque, vai querer a volta por cima. E eu faço questão que isso aconteça!Muitos atores reclamam que quando se chega a uma determinada idade, os papéis começam a rarear. E você sempre está na TV. Como faz para driblar esse estigma?Claro que o ator coloca muito dele em cada personagem. Porém, há alguns que se limitam a fazer só um tipo de trabalho. Nunca fui galã, sempre vivi coadjuvantes. Tenho até preferência por aqueles personagens que vivem à margem da vida, um tanto abandonados. Eles são sempre muito criativos e profundamente humanos. Isso foi me caracterizando como um ator criador de tipos. Já driblei a Globo e deixei de fazer muitas coisas que achava parecidas. Cada papel deve ser um desafio ao intérprete, em benefício do público que o elegeu como ator. Também acho que, se o ator despreza a convivência com os outros, fica isolado em casa ou restrito a um número ínfimo de amigos, ele passa a desconhecer um pouco o gênero humano. Por isso, você vai me encontrar com facilidade nas arquibancadas do Maracanã, num supermercado, no cinema. É do cotidiano que eu tiro motivação para o meu trabalho.

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