João Miguel Junior/TV Globo/Divulgação
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Cristina Padiglione
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'Sete vidas', novela das 6, aborda filhos gerados por doação de sêmen

Nova trama enfoca geração nascida com ajuda da ciência

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

18 Janeiro 2015 | 03h00

RIO - Depois de matar boa parte dos recursos que favoreciam a narrativa das novelas - vide o telefone celular, que dificulta os desencontros necessários a um folhetim, e o exame de DNA, que reduziu as intermináveis suspeitas sobre paternidade - a parceria entre tecnologia e ciência finalmente promove um prato cheio para o gênero. Com uma geração já adulta nascida com a doação de sêmen, Sete Vidas, a próxima novela das 6 da Globo, se abastece das infinitas possibilidades de encontros e desencontros criadas por esse novo contexto de relações.

É a segunda novela de Lícia Manzo - a primeira foi A Vida da Gente, um sucesso de exportações da Globo - de novo com direção de Jayme Monjardim. O repertório tem todas as condições de comover a plateia. Há a busca dos laços sanguíneos desconhecidos e, claro, os romances entre possíveis irmãos, um clássico do folhetim, agora revisto por outros caminhos, nas vozes de Isabelle Drummond e Jayme Matarazzo.

É Domingos Montagner, o Miguel, um navegador disposto a zelar pela solidão, quem alinhava todas as pontas da trama. Avesso a relações afetivas, Miguel programa uma expedição à Antártica para se refugiar de sua amada (Débora Bloch). A sequência foi toda gravada na Patagônia Argentina, com toda a infraestrutura padrão Globo. Seu barco bate num iceberg, e, como isso não é Titanic, ele perde a memória e é dado como morto, mas reaparece um ano depois. Ao chegar em casa, toma conhecimento de seis dos sete filhos que justificam o título da história. “Esse cara volta, ele não quer se identificar, porque ele não quer nada que remeta a família, e ele se aparta da família, ao contrário dos irmãos que se procuram.”


Na vida real, meios-irmãos têm se encontrado mundo afora, graças à internet, outra nobre contribuição da tecnologia ao enredo. São sites como o Donor Sibling Registry, que, com base no número do doador e no nome da clínica, permitem que alguém gerado pela doação de sêmen procure outros frutos do mesmo doador.

“Dessa cruzada online começaram a surgir grupos de até cem pessoas”, conta Lícia, que vem estudando o assunto há pelo menos quatro anos, por meio de documentários e investigações em sites e clínicas. “Na verdade, existiria, a priori, um controle sobre isso, mas esse controle já foi para o espaço, mesmo em termos de Brasil, porque é um comércio.”

A autora cita um documentário inglês sobre meio-irmãos americanos e o reality show Geração In Vitro, da MTV, de 2013. “É maravilhoso: são 10 meio irmãos que se localizam. O que mais me tocou nesse grupo de jovens foi a vontade de se pertencerem, de conexão, de se conhecerem, de se receberem uns aos outros na vida e como meio-irmãos, com backgrounds familiares, financeiros, às vezes religiosos totalmente diferentes. Talvez até pra encontrar um igual, porque eles vivem, de alguma forma estigmatizados, e de repente, encontram um bando na mesma situação.”

Não é difícil imaginar que muita gente busca características que considera ideais em um doador, o que motiva a procura maior por determinados pais. “É uma situação muito controversa”, continua Lícia, “porque tem esse lado da afetividade, que é muito bonito de ver, muito tocante, mas tem um lado aí do comércio, que preocupa. Há os doadores mais populares. Você vê, na ficha do doador, se ele tem doutorado em Harvard, qual o seu QI, se tem olhos claros, cabelos louros... E vira um projeto meio louco, o poder de arbitrar sobre tantas características que você quer para o seu filho. E as clínicas não vão deixar de vender só porque já venderam aquele sêmen 24 vezes. Elas comercializam mesmo.”

A ideia da novela nasceu logo após o fim de A Vida da Gente, quando Lícia e Monjardim, satisfeitos com a parceria, conversaram sobre uma próxima novela. “Logo de cara, a gente trocou dois temas: ele falou que tinha, já há muitos anos, uma vontade de falar sobre a Antártica, ou sobre um navegador que vai à Antártica, e eu achei interessante. Quando eu era pequena, adorava essas histórias, Robson Crusoé... Todo homem que se exila, que se isola, sempre foi um tema que me foi interessante. E eu já tinha assistido a um documentário que me impactou muito e eu falei: eu gostaria de escrever sobre isso, sobre meio irmãos, gerados via doação de sêmen, que hoje já existe no mundo uma geração adulta.”

O crescimento dos primeiros filhos de doação de sêmen logo motivariam a mudança da legislação em vários países. Reivindicam, com razão, o direito de conhecer suas origens. No Brasil, o filho deve deixar uma carta na clínica onde foi gerado e aguardar pela procura do doador. Em Sete Vidas, Isabelle e Jayme, ao se descobrirem irmãos, deixarão a tal carta na clínica. O documento chega à suposta viúva de Miguel, que está grávida e resolve procurar os meio-irmãos de seu futuro bebê.

Tramas paralelas. Com apenas 107 capítulos e 35 atores no elenco, a história endossa a tendência de enredos mais curtos no horário. Os assuntos paralelos ao foco central são igualmente contemporâneos e comportamentais, abraçam relações humanas, despindo uma série de mudanças operadas no nosso tempo.

Malu Gali, que na ficção será irmã de Débora Bloch, por exemplo, é uma publicitária muito bem sucedida, que passou dos 40 anos e vem adiando o sonho da maternidade, em prol da carreira. “Hoje, nas grandes empresas, é esmagador o número de mulheres que ocupam grandes cargos, sem filhos. Isso cai para 10% entre os homens. Li uma notícia de que o Facebook e a Apple, nos EUA, estão pagando pelo congelamento dos óvulos de suas executivas, à medida que eles reconhecem que é feito uma doação da mulher para a empresa, e o processo de congelamento de óvulos, assim como da manutenção, é caro.”

Outro tema abordado em cena é a “geração canguru”, assim batizada por aquele filho que já chegou aos 40 anos e ainda não abandonou o teto de papai e mamãe. Aí estão as personagens de Walderez de Barros, “uma Jocastona doida”, como diz Lícia, e André Frateschi. “Há muito mais etapas de estudos possíveis hoje: tem mestrado, doutorado, pós-doutorado, você pode ficar a vida inteira estudando, sem sair da casa dos pais. E com violência urbana, as famílias deixam trazer a namorada pra casa. Também não há mais a obrigação de ter filhos tão cedo: tudo isso criou uma espécie de teenager tardio”, avalia.

O folhetim toca ainda na questão da mulher madura que perdeu o apetite sexual e a auto-estima, o que é traduzido muito mais por um olhar brasileiro, infelizmente. Assim reza o papel de Cláudia Mello, que faz par com Luiz Serra. “Li o livro da Miriam Goldenberg, da mulher invisível depois dos 50: é uma mentalidade latina. Essa coisa de que a mulher não está mais no mercado amoroso depois de uma certa idade é bem brasileira. Na Europa e nos outros países, é até o contrário. Os homens procuram mulheres mais velhas por uma série de fatores. Aqui, a Cláudia Mello é aquela mulher que assinou embaixo disso, ela se sente uma senhora, e quando a filha sai de casa, ela vive a síndrome do ninho vazio.”

Em Sete Vidas, Lícia retoma a parceria com parte do time de roteiristas de A Vida da Gente, casos de Marta Góes, Dora Castellar e Daniel Adjafre. Juntam-se à equipe Cecília Giannetti e Rodrigo Castilho. “Adoro a equipe, é uma investida trazer gente do teatro, da literatura e do cinema, ninguém veio de novela. Eu queria esse frescor”.

O exercício diário de contar uma história, diz Lícia, esvazia todo o repertório do autor sobre os temas em foco. E como o alvo preferido dela são relações humanas, bingo, confessou a amigos que era capaz de “vampirizar” toda e qualquer conversa fora das telas. “Eu pedia: não me contem nada! Chega uma altura em que você está usando na novela as conversas com o ex-namorado, as confidências de uma amiga, é um processo de esvaziamento: a novela leva tudo embora”, ri. 

Autora que dedicou bons anos a programas de humor, como Sai de Baixo, Retrato Falado e A Diarista, Lícia dispensa núcleo de humor de novela. Todas as pontas estão amarradas, como manda o bom folhetim, entre risos e lágrimas. “É uma trama muito conectada. É igual sinuca: bate em todo mundo, é mais trabalhoso. E não tem aquela coisa do núcleo de humor no Grajaú. A vida é assim: humor e drama se misturam o tempo todo.”

ENTREVISTA - JAYME MONJARDIM - DIRETOR

Diretor celebra as benesses da tecnologia, onde menos é mais, e dispensa 'firulas' em tramas sobre relações humanas

Diretor de duas das novelas recentes mais exportadas pela Globo - A Vida da Gente, também de Lícia Manzo, e Flor do Caribe, de Walther Negrão - Jayme Monjardim credita ao texto a condição de protagonista na novela que vem aí. Para ele, autores como Lícia e Manoel Carlos, de quem dirigiu as últimas produções, pedem discrição a todos os demais setores, da cenografia ao figurino e à própria direção, para fazer valer a máxima de que “menos é mais”. Sob um sol de 38 graus, enquanto gravava cenas com Isabelle Drummond na Praia do Arpoador, no Rio, Monjardim conversou com o Estado.


O foco da novela é um prato cheio para folhetim, não?

É uma coisa muito nova porque ninguém imagina, na vida, um cara como eu, de 58 anos, ou de 35 pra frente, que de repente pode aparecer na sua porta, se eu fui doador quando eu tinha 20 anos, 15 filhos. E encontrar seus irmãos só é possível a partir desse fenômeno, que é a internet. As pessoas, em questão de um click, ficam sabendo de tudo o que acontece no planeta. O cara agora transmite ao vivo, de qualquer país do mundo, diretamente do celular, ou Facetime.

Como esse assunto pode provocar o espectador?

Pra mim isso tem o mesmo impacto que teve O Clone. Acho que as pessoas ainda não tomaram ciência do que está acontecendo. Eu tô muito esperançoso de que esse tema vá mexer muito com as pessoas. E é contado de uma maneira muito bonita. A história é linda. Tenho tentado produzir, paralelamente à novela, o mesmo assunto, real, para alguma coisa estendida à internet. A ideia é discutir na internet todo esse processo com personagens verdadeiros, doadores, irmãos que se encontraram. A ideia é conjugar isso com Fantástico, Profissão Repórter, já que é um assunto tão novo. Terminando a novela, você tem condições de saber mais na internet.

De que forma isso afeta a estética de uma novela?

Acho que a estética não muda, é centenária. O que acho legal é que, à medida que a gente vai avançando, a tecnologia nos permite, com menos, fazer mais. Com pequenas câmeras você entra em lugares que antes precisaria de uma big estrutura. Hoje, tem câmeras pequenininhas, como a Go Pró 4, que é 4K, que dá pra brincar com ela na mão e entrar debaixo d’água. A tecnologia vai facilitar que se conte história da maneira mais ousada, ou cada vez mais realista. O que era muito grande se torna pequenininho, com qualidade. Eu viajei pra Patagônia, com as Go Pró 4: bota na frente do barco e faz planos incríveis. 

Menos é mais...

Quando você tem um texto muito humano, muito realista, não pode firular muito. Nesta novela, eu comecei fazendo um carrinho lindo e tal, mas quando fui ver, não estava de acordo com a cena. A cena pede que você seja objetivo, que estabeleça um contato imediato com o texto. Acho que novelas como as do Manoel Carlos, da Lícia, essa gleba de autores que trabalham muito o dia a dia, muito naturalismo, têm essa diferença: não são novelas em que se enfeita muito, o protagonista da novela é o texto mesmo.

E a vaidade do diretor fica...

Não acho que diretor tenha vaidades. Quando você tem um texto dessa natureza, é muito difícil firular ou ter vaidade, porque o teu sucesso tá muito no sucesso da obra e você não vai querer botar na frente os teus desejos ou delírios pessoais como diretor, passar por cima da obra, porque a obra não vai ser tão elogiada como seria se você não aparecer. Em obras como da Lícia, não podem aparecer direção, figurino, não pode aparecer a arte, a luz. Tem que aparecer a história, nada pode destoar. Esse é o segredo: fazer menos ficar mais. Mas é difícil. Aqui eu trabalho com dois diretores, um diretor sempre comigo, pra um ficar analisando o outro. Porque a tendência, realmente, é se entusiasmar um pouco. Na Patagônia, com aquelas imagens fantásticas, dá entusiasmo, mas tem que botar o pé no chão e contar a história.

Mas também motiva a direção de ator, não?

Novela é só direção de ator. Não existe novela sem direção de ator. O diretor é diretor de ator, não é diretor de imagem, diretor de imagem é outra coisa.

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