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Séries de fora vão além da missão de tapar buraco na TV aberta

Classificação indicativa limita espaço a séries estrangeiras

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

06 de julho de 2014 | 02h00

Bastante valorizadas na TV fechada, as séries internacionais - produto que um dia já foi tratado pejorativamente como "enlatado" - normalmente chegam à TV aberta em horários ingratos e sem muita lógica na exibição entre uma temporada e outra. Ainda assim, o negócio é bom para todos: para quem vende, para quem compra e para quem vê. Na Globo desde a semana passada, Under The Dome chegou a somar 8 pontos de audiência média em seus dois primeiros episódios, em plena madrugada, (1h31 às 2h31). O resultado representa um crescimento de 33% em relação à faixa horária, normalmente ocupada pelo Programa do Jô, que cumpre recesso até o fim da Copa.

O negócio é bom também para a TV paga. A 2.ª temporada de Under The Dome, que acaba de estrear nos Estados Unidos, chegará aqui pelo TNT em 28 de julho, certamente atraindo mais interessados, graças à exibição da 1.ª safra na TV aberta. E produções como Under The Dome e Revenge (Globo), Big Bang Theory (SBT), Breaking Bad (Record) e Walking Dead (Band) sempre trazem algum benefício às redes, senão quantitativo, qualitativo.

Nem por isso a TV aberta é terreno para toda e qualquer série. "Uma série como Mad Men, por exemplo, foi pensada com uma liberdade de criação que só a TV fechada poderia proporcionar, tem conteúdo complexo, uma trama de desilusão, a narrativa valoriza o interior", opina a executiva de TV Jacqueline Cantore, uma das idealizadoras do Programa de Roteiristas da Globosat.

Mad Men chegou a ser exibida por pouco tempo na TV aberta, mas no contexto segmentado da TV Cultura. E até rendeu 25% de crescimento para a audiência do horário.

Revenge, ao contrário, diz Jacqueline, "é meio folhetinesco". "Tem até uma locução no início de cada episódio em que a personagem principal explica a que veio. Toda premissa é muito simples: Greyson (mal) é responsável pela morte do pai de Emily (bem). Emily quer vingar a morte do pai."

Se as séries americanas e inglesas são tão cultuadas e, em boa parte, atraem público também na TV aberta, por que vão ao ar tão tarde? No SBT, a diretora artística e de Programação Daniela Beyruti menciona as restrições de horários impostas pela Classificação Indicativa, o que não ocorre na TV paga. Na Globo, a regra é clara, como endossa o diretor de Programação Amauri Soares: a emissora, muito mais que as outras, investe alto na produção de séries nacionais e faz desse o alvo prioritário de suas estratégias.

"Atualmente, com tamanha rigidez na Classificação Indicativa para uso de conteúdo em TV aberta, sofremos com a programação de filmes e séries e não usamos aquilo que gostaríamos”, diz Daniela. “Para se ter uma ideia, de todo material que temos disponível, apenas 30% das séries de (1) hora e 10% das de meia hora podem ser usadas durante o dia, até as 20 horas."

Já na Globo, em que 90% do horário nobre é ocupado por produções da casa, há uma “evidente preferência do público pelas séries e seriados brasileiros”, diz Soares. "Isso acaba justificando a decisão de exibir as séries estrangeiras de maneira concentrada, já que elas não costumam ter o mesmo fôlego semanal das nossas."

Considerando que a Globo "persegue uma programação com o melhor da TV", sempre haverá espaço para abocanhar as boas produções de fora, seja de filmes, seja de séries. "As séries especificamente são um bom complemento para a nossa grade. A questão é que não temos muitas janelas para uma exibição permanente, assim acabamos optando por colocá-las no ar durante as férias de nossos programas de linha ou em oportunidades específicas."

Os argumentos de Soares vão de encontro à análise de Jacqueline Cantore, executiva de TV (leia entrevista ao lado). "Há um volume maior de produção de séries de qualidade hoje em dia, a oferta é enorme e não há espaço nas grades de redes abertas", ela explica. "A lealdade a uma grade que há mais de 40 anos é a mesma iria sofrer com qualquer tipo de interrupção. Só sobram os horários alternativos."

Para endossar a análise, Jacqueline lembra que Under The Dome, atualmente no ar, é uma série curta, assim como 24 Horas, cuja nova temporada chegará em prazo recorde à Globo - a partir do próximo dia 20, na vaga do reality SuperStar - e é uma “franquia familiar ao público".

Soares fala ao Estado que, no caso da Globo, as escolhas obedecem claramente às necessidades da grade da emissora. "Cada ano, cada temporada da programação da Globo tem suas necessidades", completa. "Este ano, por exemplo, com Copa do Mundo e eleições, o calendário é bem específico. Ano que vem será bastante diferente."

Com uma produção de séries nacionais infinitamente mais modesta que a Globo, a Record tem vaga permanente no horário nobre para os títulos mais fortes que adquire. São da emissora, por exemplo, os direitos de exibição de Breaking Bad, vencedora mais recente do Emmy, o Oscar das séries. O título, no entanto, beira os 4 pontos de audiência, patamar quantitativo muito baixo para as pretensões do canal. Em contrapartida, é o tipo de produto capaz de atrair um público mais qualificado do que a média da plateia atingida pela Record.

A rede de Edir Macedo tem ainda Bates Motel, Grimm, Lie to Me e Once Upon a Time, todas bem cotadas na TV paga, além das franquias de House e todas as versões de CSI, que já teve todos os seus episódios vistos e revistos na Record - no momento, CSI descansa na gaveta, até para ganhar fôlego de um novo público em prováveis reprises, em curto prazo.

Também no comando de uma programação popular, Daniela Beyruti acredita que tudo é questão de hábito e que o SBT encontra, na madrugada, um público fiel a gêneros não necessariamente compatíveis com quem se delicia com Ratinho e novelas mexicanas durante o dia. "Quem faz o público da TV é o conteúdo oferecido. Se você programar uma novela na madrugada, com o tempo, vai criar hábito de novela. Assim funciona com outros produtos", afirma. "Criamos hábito, por exemplo, de exibir séries de comédia logo após o nosso Jornal do SBT. Virou mania e gera bons resultados. Nas madrugadas de sábado para domingo, temos outras séries na sessão Ataque de Risos, para um público diferente e que também criaram hábito."

Até por isso, Daniela não descarta nenhum título da mira de interesses do SBT e aposta que até séries cult como Downton Abbey e Mad Men caberiam na sua grade notívaga.

Experiente em roteiro e no gosto da plateia nacional, o autor Aguinaldo Silva, que escreve a próxima novela das 9 da Globo, não vê espaço local para a linguagem que predomina na atual safra de séries mais cultuadas lá fora. O chamado

"tempo morto", para ele, quando Walther White (Bryan Cranston), protagonista de Breaking Bad, aprecia vagarosamente o voo de uma mosca, não seria aceito pelo público de TV aberta aqui. "As pessoas não aguentam, trocam de canal, saem da frente da TV e vão pra rua. Em lugar nenhum do mundo tem gente na rua como no Brasil", define.

ENTREVISTA

Aceitação da massa depende do enredo - Jacqueline Cantore - EXECUTIVA DE TV

Com 16 anos de experiência no mercado internacional, incluindo Índia, Espanha, Itália e Estados Unidos, onde está desde 1999, a executiva de TV Jacqueline Cantore acredita que é a complexidade do conteúdo que determina se uma série cabe na TV aberta.

Há espaço na TV aberta para séries cult como Mad Men, Breaking Bad, Downton Abbey?

Acho que a distinção não pode ser pelas séries serem cult, mas pela complexidade do conteúdo. Nem todas cabem na TV aberta, que é grátis, para todo mundo. Uma série como Mad Men foi pensada com uma liberdade de criação que só a TV fechada poderia proporcionar, a narrativa valoriza o interior. Já Downton Abbey tem trama mais simples, tanto nos EUA quanto na Inglaterra é exibida na TV aberta. CSI e House foram criados para TV aberta, os episódios se resolvem em si. House of Cards é para ser vista em 3, 4 ou 7 horas seguidas, não funcionaria em um episódio por semana.

Como funciona a distribuição de séries na TV americana? 

É como no Brasil. A TV aberta americana é movida a anunciantes e a TV fechada/paga, a assinantes. Uma precisa da maior audiência possível num determinado horário e a outra precisa programação de qualidade para atrair assinantes. Quem gera o conteúdo para todos eles são os estúdios. Como é uma sociedade capitalista, para que o controle ficasse sob o mesmo dono, os canais passaram a ter seus estúdios. 

O público brasileiro algum dia estará mais a fim de consumir narrativa seriada do que novela?

A narrativa de folhetim é mais que um hábito, é uma tradição brasileira, que vem do rádio (com origem nos romances franceses do século 19) e sempre vai fazer parte da nossa TV: valoriza o conflito externo. Para mudar esta linguagem para uma narrativa que valoriza o conflito interior, a história precisa ser muito envolvente, com personagens complexos e que tratem de valores muito relevantes à audiência.

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