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Série ‘Wormwood’ trata de um dos mistérios da CIA

Produção é um documento de impacto sobre a política intervencionista americana em outros países 

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

05 Maio 2018 | 16h06

Wormwood, série da Netflix em seis episódios, acompanha um caso no mínimo estranho da CIA. Trata-se da morte do cientista do exército americano, Frank Olson, que, em 1954, teria se jogado do décimo andar de um hotel em Nova York. 

A série é dirigida por ninguém menos que Errol Morris que, com A Névoa da Guerra e Procedimento Operacional Padrão, provou ser um dos melhores documentaristas políticos do mundo. Em A Névoa da Guerra (The Fog of War), Morris entrevista o antigo secretário de defesa dos governos Kennedy e Johnson, Robert McNamara, durante a fase aguda da Guerra Fria. Bem conduzido por perguntas inteligentes, o filme é um documento de impacto sobre a política intervencionista americana em outros países. 

Há pontos de contato entre A Névoa da Guerra e Wormwood. O principal, o ambiente político: o período da Guerra Fria, quando a competição com a então União Soviética pela hegemonia mundial presidiu uma série de atividades pouco ortodoxas por parte dos dois países.

Olson trabalharia com experiências com o LSD, o ácido lisérgico, mas não exatamente como faria depois a geração hippie, com fins de expansão da consciência. O produto seria usado como técnica de interrogatório. E os próprios agentes da Agência americana serviriam como cobaias durante essa fase experimental. 

E quanto à morte de Olson? Foi tratada como acidente, em primeira instância. Mas a hipótese é um tanto improvável. Teria cometido suicídio? Ou alguém o teria jogado lá de cima, numa dessas “queimas de arquivo” relativamente comuns na época (e em outras também, é bom que se diga). 

O fato é que Olson sabia demais. E enfrentava dramas de consciência, como indica em entrevista um dos seus filhos, Eric, um psicólogo que hoje tem cerca de 60 anos. 

A série é a prospecção desse acidente/suicídio/ crime, ocorrido em 1954. Usa técnicas de “docudrama”, associadas a entrevistas e material de arquivo. A parte “ficcional” é encenada com o ator Peter Sarsgaard no papel de Olson. Mas a estratégia é por excelência documental e tem por Norte a busca da verdade nesse emaranhado de versões do campo da política. 

Morris ouve Eric longamente e descobre que a família nunca se conformou com a versão governamental para a morte de Olson. O próprio Eric assume-se como um obstinado, que acaba por dedicar sua vida à busca pela verdade sobre a morte do pai. Esquece-se de si mesmo, atormentado pela memória de um morto de quem se sente devedor. Por isso, entre as cenas documentais, Morris coloca inserções de uma versão cinematográfica de Hamlet, a que tem Laurence Olivier no papel do príncipe da Dinamarca, atormentado pelo fantasma do pai, o rei assassinado. 

O procedimento de Eric é obsessivo e tenaz. Pede a exumação do cadáver para que seja submetido a uma segunda autópsia. Fala com jornalistas que cobriram o caso, policiais, investigadores. Tenta montar um quebra-cabeças e, com o auxílio de Morris, esse enigma é exposto ao espectador em suas diversas faces, que nem sempre se encaixam entre si. 

Há algo de muito misterioso mesmo no caso. Quando, em 1975, uma comissão do governo conclui que Olson teria sido levado ao suicídio por experimentos com o LSD, o então presidente, Gerald Ford resolve receber a família na Casa Branca. Eric descreve longamente esse encontro presidencial e conta como a família se sentiu honrada e reconfortada ao ser recebida no Salão Oval pelo chefe de Estado. No entanto, cético profissional, Eric se pergunta se esse desagravo não encobriria outras coisas. Ford teria sido instruído pelos seus serviços de Estado de que deveria receber a família em pessoa, para que esta se desse por satisfeita e encerrasse as investigação sobre a morte do patriarca. O resultado foi açular ainda mais a mente desconfiada de Eric. 

A história nebulosa de Frank Olson presta-se com perfeição para ilustrar a maneira como Errol Morris concebe a política. Ela é como um iceberg, que deixa apenas um oitavo do seu volume à vista. Sete oitavos permanecem submersos, escondidos da vista do público, dos analistas, dos profissionais de imprensa. A política é uma arte das sombras. Ainda mais quando trata de assuntos como a morte de um cientista que prestava serviços à agência de inteligência. 

Morris vai atrás dos fatos como se descascasse uma cebola, camada por camada, em busca do centro. Como se sabe, o núcleo da cebola é vazio. Mas o percurso rumo a esse nada nos ensina muita coisa. 

 

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