Victor Pollak/Globo
Victor Pollak/Globo

Série 'Todas as Mulheres do Mundo' celebra Domingos Oliveira e sua obra em 12 capítulos

Jorge Furtado é o autor da nova minissérie da Globo; Janaína Fischer colabora no roteiro e Patrícia Pedrosa é a diretora

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

03 de novembro de 2019 | 20h50

Emilio Dantas move-se com desenvoltura no set de Todas as Mulheres do Mundo. O cenário reproduz a casa de Paulo. “Ali ainda está a barra de exercícios de Maria Alice. Ela é bailarina”, conta Emílio/Paulo. O cinéfilo que lê o texto nem precisa pesquisar no Google. Se ligou o título e os nomes chegou facilmente ao clássico de Domingos Oliveira, de 1967 – leia abaixo. A minissérie que está sendo gravada nos estúdios da Globo começou a nascer quando Domingos ainda estava vivo. Depois de sua morte, em março, tornou-se mais urgente – necessária. Uma homenagem. Jorge Furtado é o autor. “Domingos foi e ainda é meu mestre. Escrevia com leveza sobre coisas profundas, investigava a alma e os sentimentos humanos. E fez isso numa obra extensa, que atravessa décadas e deixou marcos no cinema, no teatro e na televisão.”

Todas as Mulheres – a série – terá 12 capítulos. Bebe na fonte da obra de Domingos, em peças e filmes, cujos direitos foram adquiridos – e os títulos selecionados – com ele ainda em vida. O homem que amava as mulheres, e dizendo assim remete a François Truffaut, a quem ele podia ser comparado. Ou a Woody Allen, o Woody Allen brasileiro. Não – era Domingos. “O Paulo apaixona-se com facilidade, mas não é um galinha. O que ele não consegue resistir é ao seu encantamento pelas mulheres. Está apaixonado, mas, de forma quase instantânea, é capaz de se apaixonar por outra. Um gesto, um sorriso, um perfume conseguem desestruturá-lo.”

Jorge, que também tem uma carreira sólida no cinema e na TV, poderia muito bem ser o autor completo, escrevendo os episódios e dirigindo. Mas ele achou que seria uma boa ideia chamar uma mulher para colaborar com ele no roteiro (Janaína Fischer) e outra para a direção. “Me pareceu que, nesse momento de afirmação que estamos vivendo, uma mulher refletisse sobre um homem que simplesmente não consegue resistir às mulheres.”

Entrou em cena a jovem Patrícia Pedrosa. Com todo respeito, ela ainda tem cara de menina, mas possui currículo e é focada. “Fiz minha lição de casa e li tudo, vi tudo – bem, quase tudo, porque Domingos produziu muito. Mas produziu com qualidade, sem se perder, deixando uma marca autoral. Acho que é isso que todos nós queremos, ao trabalhar com mídias massivas como cinema e TV.”

Os 12 episódios acompanham o encontro de Paulo e Maria Alice, a separação, as outras mulheres, os amigos. E Paulo tem um cachorro, o Oliveira, que vai conquistar o público. Patrícia mostra as fotos – Oliveira ainda não chegou ao set, e neste dia, neste momento, só estão Emílio Dantas e os integrantes da equipe técnica. Emílio está diferente, com o cabelo levemente cacheado. “A Patrícia é f..., ela nos queria, ao Matheus (Nachtergaele) e a mim, mas diferentes.” O repórter concorda, já viu as fotos de Matheus. Está mais grave, mais sério. Cabral, é o personagem,, é outro romântico. Viveu um grande amor e agora está solitário. O repórter arrisca – tem algo do Castor, o rei da fossa de Edu, Coração de Ouro, de 1968?

Não, Cabral não é o Castor, mas talvez seja Paulo num outro estágio da vida. Lília Cabral faz a mãe e em conversa com o repórter, no lançamento de Maria do Caritó – em cartaz nos cinemas – não se furtou a comentar. “O Emílio é um doce, e a Patrícia (a diretora) é muito talentosa.” Maria Ribeiro, que faz uma das mulheres na vida de Paulo, redobra o elogio ao encontrar o repórter na exibição de seu documentário Outubro – aliás, belíssimo – na Mostra. “Adorei fazer, pena que foi uma participação episódica. Você viu o Shippados? Nãããooo? Você ia adorar porque a Patrícia entendeu perfeitamente a proposta da Fernanda Young e do Alexandre Machado de criar uma relação moderna, baseada em aplicativos e redes sociais.”

Martha Nowill, que faz a amiga e confidente, agrega – “Vai ser o máximo.” Patrícia, aos 35 anos, já ligou seu nome a sucessos como Mister Brau, outra criação de Jorge Furtado, e Cine Holliúdy – A Série. De cara, ela quis radicalizar a homenagem a Domingos Oliveira. “Queria muito que fosse em preto e branco, como o filme, mas não dá, né? Então, o que fizemos foi reduzir a paleta, fazendo alguma coisa, assim, meio preto e branco em cores.”

O colorido no set é suave, muitos tons terrosos, nada muito vivo. A direção de arte é exemplar na criação da casa de Paulo – parece tudo tão real. “E é”, observa Emílio Dantas. “A Patrícia, ao descobrir que eu gostava de desenhar, fez questão de ampliar desenhos meus e colocar nas paredes, porque o Paulo é designer.” Patrícia diz, de seu ator – “Você trabalha com ele e logo percebe que esse homem (Emílio) nunca fará mal a uma mulher.” E Jorge – “O Emílio já chegou avalizado pela mulher dele, na vida. Todo mundo ama Fabíula Nascimento, e se ela ama o cara, poxa, tá recomendado.” Uma palinha sobre a admiração de um autor (Jorge) pelo outro (Domingos). “Tem uma criação dele sobre um homem que está morrendo e pede para falar a sós com o genro. E lhe pede que vá entregar um dinheiro à amante. O genro vai e se apaixona pela amante do sogro. ‘Domingos, isso dava uma comédia genial’, lhe disse. E ele – ‘Não , é um drama.’ Domingos tinha essa compreensão infinita pela fragilidade humana.” Ah, sim, Maria Alice é interpretada por Sophie Charlotte, que virou musa de Domingos em BR 716.

A minissérie Todas as Mulheres do Mundo está prevista para estrear na grade da Globo no primeiro semestre de 2020.

Filme de 1967 foi um marco na contracorrente do Cinema Novo

Para o espectador que assiste hoje, 52 anos depois, a Todas as Mulheres do Mundo, o longa de Domingos Oliveira – na época, ele era de Oliveira – ainda parecerá, com certeza, encantador. Paulo, interpretado por Paulo José, é um namorador incorrigível, sempre apaixonado, sempre saltando de uma ligação para outra. E aí ele conhece Maria Alice, professorinha. O envolvimento é mais sério, coisa de se comprometer. Mas estará Paulo disposto a desistir de todas as demais mulheres? Por uma, mesmo que seja interpretada por Leila Diniz?

Muito se escreveu sobre essa Leila que passou feito um furacão pelo Brasil dos sombrios anos 1960 e 70, em plena ditadura militar. Dela, disse o poeta Carlos Drummond de Andrade que havia libertado as mulheres brasileiras de uma particular escravidão – a da submissão ao macho provedor. Leila era libertária. Amava e foi amada, engravidou e foi à praia de biquíni, exibindo aquela barriga imensa. Deu entrevista ao Pasquim assumindo que gostava de sexo, sentia tesão e ainda recheando as declarações de palavrões. No filme, ela é suave. Olha para a câmera, rompendo a quarta parede, e nós, o público, nos derretemos. E é embalada por um tema musical – que Domingos foi buscar no compositor francês Gabriel Fauré.

Todas as Mulheres do Mundo bebe na fonte da nouvelle vague, o movimento que mudou a cara do cinema mundial a partir da França, na segunda metade dos anos 1960. No Brasil, inspirou o Cinema Novo, mas agregando outra influência, a do neo-realismo italiano, marcadamente social. O Cinema Novo queria ser revolucionário. Queria mudar o mundo, e começou mudando o cinema brasileiro, botando o sertão na tela, o morro. Homens e mulheres negros, pobres, sertanejos, desdentados – mas fortes. Fabiano e Siá Vitória, Manuel e Rosa, Corisco e Antônio das Mortes.

Domingos veio na contracorrente. Quem era aquele cara que parecia tão pequeno-burguês, e voltado para o próprio umbigo? Amores, Ipanema, casamento? Uma festa de criança? Há mais de 50 anos, alguns críticos chegaram a discutir se aquilo não seria conservador demais, até reacionário? Pelos anos e décadas seguintes, e até sua morte, aos 82 anos, Domingos, como autor, nunca deixou de investigar os afetos. Com outras armas – sem o parabellum de Antônio das Mortes na mão –, não deixou de revelar o Brasil. E seu filme, uma linda comédia romântica, como o cinema brasileiro não sabia fazer, ainda tem Leila. Ela morreu em 1972, num acidente de avião, aos 27 anos. Foi icônica, como escreveu um crítico – uma das mulheres mais emblemáticas do Brasil pré-feminista.

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