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Série 'Secret City' aborda conspiração política internacional

Produção da Netflix é protagonizada por policial transexual

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2018 | 06h00

Uma conspiração internacional que pode descambar em um conflito nuclear, guerra fria entre americanos e comunistas como pano de fundo, uma jornalista de política perdigueira que descobre o fio da meada, políticos envolvidos até a medula com interesses obscuros e muitas reviravoltas.

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À primeira vista, os elementos básicos que compõem o roteiro da série Secret City, disponível na plataforma Netflix, não apresentam grandes novidades em relação a outros títulos do gênero. 

Mas são muitos os ingredientes que tornam a produção uma pérola escondida no cardápio do canal de streaming. Um dos personagens centrais da produção original australiana é uma analista do serviço de inteligência local que mudou de sexo. 

Trata-se do primeiro agente secreto transexual da história das séries. Logo nos primeiros episódios ficamos sabendo que Kim Gordon (Damon Herriman) foi marido da repórter Harriet Dunkley (Anna Torv) antes de trocar de sexo. 

A dupla é amplamente conhecida pelos fãs de séries dentro e fora da Austrália. Anna Torv esteve, entre outros, no elenco de clássicos como Fringe, The Pacific e Mind Hunter.

Já Damon Herriman trabalhou ao lado de Leonardo DiCaprio no filme J. Edgar, no longa de terror A Casa de Cera e foi premiado por sua atuação em The Sullivans. Em Secret City eles formam um bela dupla.

A jornalista apoiou a mudança de sexo do marido e eles continuaram muito próximos. Kim tornou-se uma amiga e também fonte jornalística. 

Apesar da tensão permanente da trama, a questão de gênero é tratada com leveza e naturalidade na série. 

Ninguém no pesado ambiente de trabalho dos agentes secretos trata a colega de forma diferenciada ou preconceituosa. A exceção é um chefe corrupto, sádico e mau caráter que impõe uma revista íntima. A cena é forte. 

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Parlamentarismo. Secret City mostra que o parlamentarismo é o regime que mais abre possibilidades para tramas que misturam ação e política. Na série norte-americana House of Cards, por exemplo, as mudanças de cenário na Casa Branca demandam movimentos constitucionais que muitas vezes parecem inverossímeis.

O jogo político é lento quando o chefe de estado tem poderes quase absolutos e só pode ser derrubado por improváveis processos de impeachment. Já na versão original de House of Cards, que é inglesa, os golpes e contragolpes se desenvolvem com muito mais rapidez no Palácio de Westminster, sede do parlamento britânico. 

No caso de Secret City, o primeiro-ministro Martin Toohey (Alan Dale) administra uma complexa composição ministerial entre liberais e trabalhistas que lhe garante uma frágil maioria entre os congressistas. 

Nesse cenário conflagrado, Estados Unidos e China disputam poder de influência na região. Com estratégias diferentes, diplomatas dos dois países defendem seus interesses sem nenhum escrúpulo. 

Ambos contam focos secretos de aliados nos corredores do poder enquanto se preparam para um conflito que pode ter proporções globais. A série não toma partido. Ninguém ali está com a razão. E nada é o que parece ser. 

O senador Mal Paxton (Daniel Wyllie), ministro da Defesa, é um político trabalhista de esquerda que orbita na área de influência chinesa. Ele é tão corrupto e inescrupuloso quanto a habilidosa procuradora Catriona Bailey (Jacki Weave) que luta com unhas e dentes pelos interesses norte-americanos (pelo menos aparentemente). 

O grande objetivo dela é instalar uma rede de segurança interna que acaba com qualquer vestígio de privacidade e liberdade jornalística. No meio disso tudo, a série se desloca para o ambiente universitário no qual floresce um movimento de oposição à China que defende o Tibete. 

Ação também se desenvolve na redação do maior jornal de Camberra. A relação do jornalismo com o poder, os interesses subterrâneos em jogo e as disputas internas entre os repórteres completam o arco de possibilidades explorado na série. 

Em alguns momentos, porém, a ousadia da repórter força um pouco. Por mais investigativo que seja a jornalista, ela nunca será um James Bond de bloquinho na mão. A minissérie (são seis episódios) é baseada em dois romances, The Marmalade Files e The Mandarin Code, ambos escritos pela dupla Steve Lewis e Chris Uhlmann.

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