VALERIE MACON/AFP
VALERIE MACON/AFP

Série 'Roseanne' é cancelada após tweet racista de sua protagonista

'As afirmações são nojentas, repugnantes e inconsistentes com os nossos valores", falou a presidente da emissora

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2018 | 16h29

A rede ABC cancelou, na terça-feira à tarde, a série Roseanne por causa de um tuíte racista escrito pela estrela do programa, Roseanne Barr, de manhã, que ela, em seguida, apagou.  A comediante escreveu que a poderosa ex-assessora de Barack Obama, Valerie Jarrett era filha de Irmandade Muçulmana com o Planeta dos Macacos. Depois de apagar o que escreveu, sob uma torrente de protestos, Roseanne voltou ao Twitter, pedindo desculpas a Jarrett e ao público pelo mau gosto.

Durante a gravação de um especial, Racismo Cotidiano na América,  da rede MSNBC em Filadélfia, Valerie Jarrett, que era convidada do debate há semanas, disse: “Eu estou bem”. Sua preocupação maior, afirmou Jarrett, é sobre os anônimos, as pessoas de cor que estão caminhando na rua e são acostadas, que sofrem discriminação constante sem acesso a um público maior para fazer denúncias.

A surpresa não estava na ofensa racial – Roseanne Barr é, há tempos, profissional dos insultos, distribuídos contra negros, gays, liberais. O que surpreendeu foi a rapidez da decisão da ABC, que instalou a primeira mulher negra na presidência da sua divisão de entretenimento, Channing Dungey. Depois de Dungey emitir uma nota classificando o tuíte de Roseanne como “horroroso, repugnante e inconsistente” com os valores da empresa, Robert Iger, CEO da Disney, dona da ABC, disse, na rede social, completando a nota que “havia apenas uma coisa a fazer e era a coisa certa.”

Há vários anos, a ABC agonizava em terceiro ou quarto lugar de audiência no horário nobre. A volta de Roseanne, uma sitcom histórica primeiro exibida entre 1988 e 1997, atraiu, no primeiro de nove episódios, em março, 25 milhões de espectadores. Há duas semanas, no ritual dos “upfronts”, quando as redes apresentam a programação do segundo semestre aos anunciantes, Roseanne foi a estrela do evento da ABC, que já tinha renovado seu contrato para uma segunda temporada.

A segunda encarnação de Roseanne Conner, a primeira personagem que fez sucesso como uma trabalhadora branca que desafiava o poder econômico, o poder masculino e defendia minorias, não aconteceu sem controvérsia. A nova Roseanne desafiava a credulidade, incorporando o apoio entusiasmado da comediante ao presidente Donald Trump e a teorias conspiratórias que ele encampou. A antiga personagem passou um episódio inteiro discutindo com o marido, o ator John Goodman, se ambos tinham transmitido preconceito racial ao filho. Durante o governo Obama, em 2013, Roseanne chamou Susan Rice, assessora de Segurança Nacional e negra no Twitter de homem com as partes genitais de um macaco. A ABC conhecia bem sua antiga estrela. Os eleitores de Trump, amargando exílio da indústria do entretenimento, que é mais liberal e simpatizante do Partido Democrata, celebraram sua heroína.

No final de março, o presidente Trump telefonou para Roseanne para lhe dar parabéns pela alta audiência e, num discurso posterior, celebrou o sucesso da comediante como “inacreditável e é todo sobre nós.”

A decisão rápida de cancelar Roseanne, a mais assistida série do horário nobre nos EUA este ano, não deve ser atribuída a um súbito ataque de consciência. Na era da rede social, os anunciantes, que incluíam gigantes como a Pepsi e a farmacêutica Pfizer, sentiram o bafo quente da indignação viralizada e avisaram a ABC. As agências de artistas em Hollywood começaram a receber telefonemas de atores e envolvidos na produção, dizendo que pensavam em não voltar para a segunda temporada. A poderosa ICM, que representava Roseanne Barr, despachou sua cliente. A série pertence, não à ABC, mas à empresa produtora Carsey Werner. Será que a ofensiva comediante pode atracar em outro canal? 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.