Ed Araquel/AMC
Ed Araquel/AMC

Série retrata campos de concentração de japoneses nos EUA

'O que contamos é realidade hoje', diz ator George Takei, referindo-se ao tratamento dos imigrantes na fronteira com o México

Mariane Morisawa, Especial para o Estado

18 de agosto de 2019 | 03h00

LOS ANGELES - Dias depois do ataque japonês a Pearl Harbor, que motivou a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, japoneses e descendentes começaram a ser levados de suas casas e colocados em instalações precárias, como estábulos. Em fevereiro de 1942, o então presidente Franklin D. Roosevelt assinou uma lei que estabelecia campos de concentração no país, onde foram presas cerca de 120 mil pessoas, a maioria com cidadania americana. A história, pouco explorada pelo cinema e televisão americanos, é o tema da segunda série da antologia The Terror – Infamy, em dez episódios, já em cartaz no canal AMC. “É um capítulo vergonhoso da história americana”, explicou o ator Derek Mio, que vive Chester Nakayama. “Sempre falamos dos nazistas, de como eles colocaram pessoas em campos de concentração, e nós fizemos isso no nosso próprio país.”

Para o ator George Takei, conhecido por interpretar Sulu na série Star Trek original e sobrevivente de um dos campos, a série não poderia chegar em momento mais oportuno. “O que contamos em The Terror – Infamy é realidade hoje. Era história há mais de 70 anos, mas ainda continua acontecendo, num ciclo infinito de injustiça e crueldade com as minorias. Minha missão de vida tem sido conscientizar sobre o tema”, disse Takei em entrevista ao Estado, em Los Angeles, referindo-se ao atual tratamento dos migrantes na fronteira com o México. Na série, atua como consultor e vive o personagem Yamato-san.

Como na primeira temporada, em que dois navios em exploração ao Ártico eram aterrorizados pela fome, o frio e um monstro, The Terror – Infamy também usa o gênero horror. “Em ambos há um grupo de pessoas num lugar em que não são bem-vindas e onde o terror humano é tão poderoso quanto o terror sobrenatural”, afirmou o showrunner Alexander Woo. Mas as ligações entre as duas séries terminam aí. 

Para Woo, a mistura de drama histórico com o gênero horror funciona. “Muitas vezes, com séries ou filmes de época, o espectador fica numa posição segura e confortável. São coisas que aconteceram décadas atrás. Acabou, não tem nada a ver comigo. O terror ajuda a tornar a experiência emocional mais presente. E, se fizemos nosso trabalho direito, a sensação de coração acelerado ajuda a entender o pavor não apenas dos tempos de guerra, mas dos tempos de guerra num campo de concentração. Usamos a gramática do terror para ajudar o público a sentir o que os personagens estão sentindo.”

Bem na linha do terror japonês, o “monstro” aqui é um espírito na forma de uma jovem mulher, Yuko (Kiki Sukezane). Sob sua aparente influência, mortes terríveis começam a acontecer na vila de pescadores onde The Terror – Infamy começa. Henry Nakayama (Shingo Usami) é um dos pescadores do lugar, que precisa enfrentar as humilhações do chefe americano. Casado com Asako (Naoko Mori), é pai de Chester (Derek Mio), nascido nos Estados Unidos, que não quer seguir o caminho do pai, mas ser fotógrafo. Seus sonhos, porém, são interrompidos pela ordem de confinamento de todos os japoneses e seus descendentes. Mas Yuko, que parece ter ligação com o passado da família Nakayama, vai segui-los até o campo de internamento. “Não é um acidente que nossa fantasma seja uma mulher, já que a história das mulheres, não apenas nos anos 1940, é de desempoderamento. Nossa fantasma é alguém que retorna com um poder que ela não tinha quando era humana”, contou ainda Woo.

The Terror – Infamy usa um elenco predominantemente japonês ou de origem japonesa. “Tenho muito orgulho disso”, afirmou Alexander Woo, que é americano de origem chinesa. “E muitos, como George Takei e Derek Mio, têm uma conexão pessoal com o material, o que ajuda muito.” 

O avô de Mio, que é da quarta geração de imigrantes, ficou cerca de um ano no campo de internamento de Manzanar, na Califórnia, e antes morou na mesma vila de pescadores retratada na série. “Eu cresci sabendo disso, mas eles não falavam muito do assunto. Foi um capítulo vergonhoso para eles”, contou o ator. “E eles mantiveram na cabeça o espírito do ‘shikata ga nai’, que é algo sobre o qual nada se pode fazer, e ‘gaman’, que é suportar o insuportável com paciência. Foi como eles atravessaram aquele período.” 

 

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