PEDRO SAAD/NETFLIX
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Série 'O Mecanismo' abusa de clichês, mas vale ser vista

Chega a ser cômico ver a Polícia Federal ser chamada de Polícia Federativa, a empreiteiras Odebrecht de Miller & Brecht, e OAS de OSA

Pedro Venceslau , O Estado de S.Paulo

27 Março 2018 | 20h32

É pouco provável que a campanha pelo boicote à Netflix promovida por setores da esquerda devido às “adaptações para efeito dramático” na série O Mecanismo cause algum prejuízo à plataforma de streaming.

Reações como essa costumam gerar o efeito diametralmente oposto fora da bolha: instigam a curiosidade e promovem o objeto da fúria. Convicções políticas à parte, é impossível falar sobre a nova obra do diretor José Padilha sem entrar no debate do momento. 

Até onde é possível brincar com a história em um produto “inspirado livremente em fatos reais”? Para alguns, a resposta é: até onde se queira, pois, em se tratando de arte ficcional, não há limites para a imaginação. Para outros, essa possibilidade só existe se for usada para reforçar suas convicções políticas.

Nos anos 70, para zombar da ditadura militar, autores como Dias Gomes (1922-1999) criaram suas Sucupiras nas quais a verossimilhança interessava menos do que a mensagem política. O País, naquela ocasião, aplaudiu, assim como a esquerda aplaudiu JFK (1991), de Oliver Stone, no qual ele torceu e retorceu as investigações sobre o assassinato de John Kennedy para “provar” que o presidente americano foi assassinado por um complô de direita em 1963.

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Na série de Padilha, chega a ser cômico para quem acompanha o noticiário ver a Polícia Federal ser chamada de Polícia Federativa, a empreiteiras Odebrecht de Miller & Brecht, e OAS de OSA, a ex-presidente Dilma Rousseff de Janete Ruscov, o senador Aécio Neves de Lúcio Lemes e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de João Higino. Apenas o nome da Operação Lava Jato foi mantido.

Porém, o toque de humor vira nitroglicerina quando, às vésperas do julgamento do habeas corpus de Lula no STF, uma fala do senador Romero Jucá (PMDB) é atribuída ao petista. Com um copo de uísque na mão, o ex-presidente “Higino” diz ao seu advogado que é preciso “estancar essa sangria”. 

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Na estética, a série mantém o nível de outras produções próprias da Netflix. Padilha repete a mesma estrutura de Narcos e Tropa de Elite. Apesar dos nomes trocados, a produção recriou com detalhes os bastidores da Lava Jato. Dessa vez, porém, carregou demais nos clichês. Selton Mello (que parece interpretar ele mesmo) sussurra o tempo todo frases como “não se combate um câncer impunemente”, “em Brasília, é mais fácil achar uma girafa que um cara honesto” e “a vitória da Lava Jato significaria cheiro de sangue no ar”. O Mecanismo, por fim, merece ser visto até o fim, mas como puro entretenimento. 

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