Série 'O Hipnotizador' mostra babel de idiomas latinos

Série 'O Hipnotizador' mostra babel de idiomas latinos

Produção da HBO conta história de personagem místico no período entreguerras

João Fernando, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2014 | 03h00

 MONTEVIDÉU - Imagine um lugar onde pessoas falem idiomas diferentes e, como mágica, todas se entendem, como se estivessem conversando na mesma língua. Nesse universo sem tecla SAP nem tradutor do Google é que se passa O Hipnotizador, nova série latina da HBO, prevista para estrear em 2015 em todo o continente, cujas gravações terminaram na semana passada.

“Funciona bem, tenho entendido perfeitamente. Não é como no cinema norte-americano, em que eles falam inglês com sotaque alemão quando interpretam alemães”, compara Leonardo Sbaraglia, ator portenho que interpreta o protagonista e atualmente pode ser visto no longa Relatos Selvagens. 

Criada a partir do quadrinho homônimo dos argentinos Pablo De Santis e Juan Sáenz Valiente, a produção é brasileira e foi rodada na capital do Uruguai com profissionais e atores locais, hermanos e tupiniquins. Divida em oito episódios, a série conta a história de Arenas, um hipnotizador condenado a ficar eternamente acordado, que adormece as pessoas e as ajuda a resgatar memórias antigas para resolver problemas atuais em uma misteriosa zona de fronteira que não tem nome nem idioma oficial.


A miscelânea de português e espanhol causou diferentes impressões no elenco. “É mais inteligente e elegante do que falar com o sotaque do outro. É quase uma coisa utópica futurista. Acho a coisa mais normal do mundo. Quando você vai a Nova York, escuta todo tipo de idioma”, opina Bianca Comparato, que encarna Anita, funcionária do hotel onde Arenas mora. 

“Eu não acho normal. Em lugares como Nova York você tem de fazer um esforço para entender. Estou torcendo para que isso seja um golaço, pois é um estímulo à integração da região”, rebate Chico Diaz, nascido no México, que dá vida ao antagonista Darek. “Essa mistura acontece o tempo todo”, minimiza o uruguaio César Troncoso, que já participou de filmes brasileiros e da novela Flor do Caribe, no ano passado.

Para aumentar a diversidade de acentos, a portuguesa Maria de Medeiros faz uma participação, com uma das pessoas que recorrem aos serviços do hipnotizador para resolver a questão de um quadro falso. “Na série, estou com um sotaque brasileiro. Se fosse com o meu sotaque português, sei, por experiência, que não me entenderiam. Dizem que no cinema norte-americano tem o ‘mid-atlantic English’. Eu faço o ‘mid-atlantic’ português”, disse ao Estado.

Quando a atração for a ar, terá legendas em português para os diálogos em castelhano no Brasil e vice-versa nos países latinos onde será exibida. “Já tivemos uma experiência no episódio de Destino São Paulo sobre os bolivianos”, relembra Maria Angela de Jesus, diretora de produções originais da HBO Brasil.

Ainda na pré-produção, houve dúvida sobre a cidade onde O Hipnotizador seria rodada. Montevidéu foi escolhida pela arquitetura conservada, já que a estética de série é de um período entreguerras. “Eu tinha vontade de fazer essa aproximação. O Brasil é muito isolado e tinha essa preocupação de sair do isolamento”, explica o cineasta José Eduardo Belmonte, que divide a direção com Alex Gabassi. O diretor confessa não ter fluência no idioma do país vizinho. “Prefiro fazer um pensamento complexo em português do que um reduzido em espanhol na hora de falar com os atores.”

Na trama, Arenas volta à cidade, onde vai morar em um hotel com personagens curiosos e começa a dar expediente em um teatro decadente, em que artistas circenses, como o atirador de facas Marenko (Daniel Infantini) e Carolina (Marisol Ribeiro), uma cantora que não canta, se apresentam. A chegada do protagonista chama a atenção de Darek, seu ex-colega em um instituto em que autoridades realizavam experimentos de controle da mente. 

A hipnose retratada na série retoma a abordagem vista em obras de ficção mais antigas. “Hoje, você questiona a hipnose e pêndulo, mas, no contexto da história, se permite acreditar. O próprio cinema acreditava na hipnose nos anos 1950”, avalia Alex Gabassi, que deu liberdade para os aristas criarem parte dos devaneios dos personagens hipnotizados. Leonardo Sbaraglia e Chico Diaz tiveram diferentes experiências com o método. “Eu vi no YouTube para entender o que era charlatanismo ou não. Não aprendi nada, só vi como era”, conta Diaz. “Tive reunião com pessoas que fazem. Acho que hipnotizei alguns. A figurinista ficou meio adormecida e disse que sonhou com um tigre”, diverte-se o argentino. 

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