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Série mostra o mundo das drogas nas ruas

'Onde Está Meu Coração', da dupla George Moura e Sérgio Goldenberg, estreia dia 3 e fala de uma médica viciada

Luiz Carlos Merten , Especial para o Estadão

26 de abril de 2021 | 07h00

No início, era um projeto da dupla George Moura/Sérgio Goldenberg para José Luiz Villamarim dirigir. Após o sucesso da parceria em O Rebu, de 2014, os dois roteiristas buscavam uma nova história. A maneira como as coisas ocorrem – Goldenberg, o Gold, levava a filha para a escola, antes das 7 da manhã. Numa rua de Botafogo, no Rio, viu aquele jovem bem vestido, mas desleixado, os olhos transtornados, os pés descalços. A imagem – forte – ficou com ele. Discutiu com o amigo Moura. Começaram a tecer uma história 

“Nosso tema de fundo é a droga, mas a série – Onde Está Meu Coração – é sobre relações familiares”, diz Goldenberg. Levaram o projeto a Villamarim, mas ele estava sem agenda, comprometido com a novela Amor de Mãe. Foi a grande chance de Luísa Lima, que integrava o entorno de Villa e, como diretora colaboradora, realizava séries e novelas sob a direção geral dele. “Eu estava querendo dar o grande passo de uma direção solo, a emissora (a Globo) também achava que eu estava pronta e valia a pena investir. Dirigi Onde Está Meu Coração e foi tudo muito intenso.” Há mais de um ano, a série foi apresentada no mercado do Festival de Berlim. Estava apontada para estrear em 2020, mas aí veio a pandemia e o mundo parou. 

O primeiro capítulo de Onde Está Meu Coração estreia na Tela Quente de 3 de maio. Já na madrugada de 4, a série inteira – dez capítulos – estará disponível no Globoplay. Um ano inteiro de espera – Luisa não teve momentos de ansiedade, revendo o trabalho, querendo mudar alguma coisa? “É normal, acontece com todo mundo, faz parte do jogo.” Embora o clique original tenha sido aquele garoto desgarrado, no Rio, o roteiro tomou outro rumo. Uma médica, Amanda. Exige muito de si mesma, gosta de experimentar coisas novas com o marido. Ele mantém o controle sobre si mesmo, ela se torna dependente. E tudo se passa em São Paulo. “Estudei aí, e achava que seria a locação perfeita para a nossa história”, diz Moura, falando do Rio. A selva de concreto.

Luísa entrou na dos roteiristas e filmou, em HD, a série toda em locações. Nada de estúdio – “Isso ressalta o realismo, a impressão de urgência.” De cara, Moura e Gold decidiram que não queriam seguir a abordagem tradicional do tema ‘drogas’ no cinema brasileiro. Em geral são narrativas policiais. Pobreza, violência. Luísa fala nos atributos ‘confortáveis’ de Amanda. Branca, classe média alta. E Gold – “Queríamos desconstruir estereótipos, ir fundo na abordagem das contradições humanas.” Moura admite que fez direitinho sua lição de casa – reviu clássicos de Hollywood como O Homem do Braço de Ouro, de Otto Preminger, com Frank Sinatra, de 1955. “Revi também Farrapo Humano, de Billy Wilder.” Foi o grande vencedor do Oscar de 1945. O alcoolismo foi dando lugar às drogas mais pesadas, mas nunca deixou de ser uma ameaça – Vício Maldito/Days of Wine and Roses, de Blake Edwards, de 1962, em que Jack Lemmon e Lee Remick estão geniais. 

O foco em Onde Está Meu Coração é a família. Pai e mãe divergem quanto ao tratamento que deve ser dado a Amanda. Letícia Colin é quem faz o papel. Está espetacular. O pai é interpretado por Fábio Assunção, que, todo mundo sabe, teve problemas com drogas na vida. Moura conta que o roteiro – completo – foi enviado a Assunção com um recado. “Gostaríamos muito que você fizesse, mas sinta-se à vontade para dizer não.” Ele disse sim. Luísa destaca um aspecto importante – “Esse cruzamento da vida pessoal do Fábio com a nossa trama me trouxe um senso muito grande de responsabilidade.” Esclarece – “Fábio me deu acesso a um grupo de pesquisadores, profissionais da área da saúde mental e de políticas de drogas no Brasil, no qual está completamente inserido como interlocutor respeitado.” 

E mais – “Fábio é um ator visceral, gigante, que se entregou sem qualquer entrave nessa representação. Quando ele entrava no set a gente se olhava e falava o mínimo, muitas vezes nos emocionávamos nos primeiros instantes do ensaio, sentindo muita sintonia e compartilhando as sutilezas do que estava em jogo em cada cena.” Referendando tudo o que foi dito pelos roteiristas, Luísa enfatiza o propósito do trabalho. “Nosso foco não é a droga, mas as fragilidades humanas e sociais, nossos traumas. O roteiro propõe um foco no tratamento dessas questões. É preciso empatia. Ninguém escolhe ser viciado. É preciso encarar o problema, e com o comprometimento de todas as esferas da sociedade."

Letíci Collin fala da personagem Amanda, a médica que vira paciente

Quem se acostumou a ver Letícia Colin como a glamourosa Marilyn de Cine Holliúdy, a série de Halder Gomes com Edmilson Filho, certamente não está preparado – e vai se surpreender – com a transformação dela em outra série, Onde Está Meu Coração. Letícia faz Amanda, uma dependente química. De casa, ela conversoucom o Estadão. 

A diretora Luísa Lima, os roteiristas George Moura e Sérgio Goldenberg, todo mundo fala maravilhas de você em Onde Está Meu Coração. Como foi fazer esse trabalho? 

Foi muito forte. Desde que recebi o roteiro, senti que seria uma experiência importante, transformadora para mim. Enfrentamos um problema desses na minha família. Posso dizer que não é o problema de uma pessoa. A família adoece junto. O papel não caiu no meu colo, fiz por merecer, tive de fazer teste. A complexidade de Amanda me atraiu e aterrorizou. A fragilidade humana. Como as pessoas se tornam autodestrutivas. A Amanda exige muito de si mesma e, como médica, vive submetida ao estresse da profissão. Inicia-se na droga com o marido, quase como um jogo. E, de repente, ela está vivendo no inferno. 

É um papel que exige mais psicologia ou fisicalidade? 

As duas coisas. Conversei muito com a (diretora) Luísa (Lima) sobre a essência da personagem, e foi decisivo para mim. Não quisemos torná-la óbvia, mantendo uma zona sombria, misteriosa. Mas também houve a maquiagem, o figurino, que me ajudaram a criar a degradação dessa Amanda. Para dar a sensação de que eu estava encolhendo, sendo tragada por ela, o figurino ficou mais largo, eu nadava naquelas roupas maiores do que eu e que me engoliam. Era necessário manter o foco. Não julgávamos a Amanda. Era isso e eu dei o melhor de mim, vivendo essa derrocada física e moral, mas à espera de um renascimento. 

Por mais exigente que tenha sido esse papel, imagino que a Marilyn não tenha sido necessariamente mais fácil. Foi? 

Nem um pouco. Eles foram todos uns amores, o Halder, o Edimilson, mas já eram um grupo. Todo mundo se conhecia, eu era a estranha chegando. E não foi só isso. Acho que fazer a mocinha é muito difícil. Não se cria uma mocinha de qualquer jeito, impunemente. É que nem o herói, e a Marilyn tinha essa coisa de ser sexy. Era importante não ultrapassar um limite, para não cair na vulgaridade. / L.C.M. 

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