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Série ‘Dupla Identidade’ expõe a face do mal

Produção de Glória Perez, que chega ao fim nesta sexta, associa os crimes do serial killer às transgressões de um político corrupto

Sérgio Telles , Especial para O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2014 | 09h55

Os ingênuos dão à natureza uma conotação bucólica e pacífica, ignorando que nela vigora a implacável lei do mais forte, que coloca os grandes predadores no topo da cadeia alimentar. 

Quando saímos da natureza e ingressamos na cultura, adquirimos a consciência moral e construímos a noção do bem e do mal, que desde então nos dilacera. As leis que tentam delimitar os dois reinos não são fortes o suficiente para impedir que os homens façam o mal e os próprios representantes da lei, enquanto homens, não estão, eles mesmos, isentos de incorrer naquilo que deveriam punir.

O serial killer, como Edu, o personagem central da série Dupla Identidade, de Glória Perez (Globo), é o tipo humano que parece concentrar em si o mal em estado puro. 

Ele nos assusta por expressar desinibidamente as pulsões agressivas e sexuais que, em grau variado, estão reprimidas e censuradas em todos nós. Não fosse assim, a convivência social se mostraria impossível. 

Uma outra coisa nos inquieta no serial killer. É sua capacidade de mentir e dissimular. A confiança no semelhante, necessária para que a vida em comum se estabeleça, fica seriamente abalada quando se toma conhecimento do que um serial killer é capaz de fazer. 

A maldade humana é muito complexa e pode assumir formas mais sutis e indiretas do que a destrutividade explícita do serial killer. Não é outra coisa o que mostra Glória Perez ao associar os crimes do homicida às transgressões de um político corrupto. A indiferença e ausência de culpa do psicopata, tantas vezes mencionadas nos episódios da minissérie, não se revelam apenas em assassinatos bizarros, podem aparecer nos desvios de fundos públicos que lesam profunda e duradouramente a população. 

No esperado desfecho desta sexta-feira, 19, aguarda-se a solução de dois problemas. O primeiro decorre da inesperada e surpreendente aparição da mãe de Edu, que poderá lançar luz sobre seu passado familiar, até agora desconhecido. O outro diz respeito a um tema mais amplo - será o mal punido ou ele mais uma vez triunfará? Como terminará a aliança entre esses dois tipos de psicopatas, um serial killer e um político desonesto? Os grandes predadores humanos se deixarão agarrar pela lei ou a dobrarão segundo seus interesses? 

Talvez não por acaso, calha de a questão ficcional ter uma certa equivalência na realidade política do momento, em que homens públicos e empresários estão sendo investigados e a sociedade também se faz essa mesma pergunta tendo em mente o conhecido dito de Lorde Acton - “O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus”. 

Uma nota sobre alguns aspectos formais de Dupla identidade. A excelente criação da Globo em nada fica a dever às recentes séries sobre serial killers disponíveis no Netflix, como a exemplar The Fall, produzida pela BBC, escrita e dirigida Alain Cubitt. O único reparo a fazer seria a excessiva proximidade ao design daqueles seriados. A ambientação e o modo de ser dos personagens - especialmente a caracterização das delegacias, dos policiais e dos procedimentos investigativos - são muito mais compatíveis com a realidade dos países do primeiro mundo do que com a nossa, o que rouba a verossimilhança, se é que essa era uma preocupação dos realizadores. 

SÉRGIO TELLES É PSICANALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE O AVESSO DO COTIDIANO (ZAGODONI EDITORA), ENTRE OUTROS

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