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Série brasileira 'Magnífica 70' estreia na HBO

Produção tem como eixo o cinema nacional da Boca do Lixo durante a ditadura; veja trailer comentado

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

19 Maio 2015 | 03h00

Uma sequência de legendas explicativas abre a série Magnífica 70, produção nacional de TV que estreia neste domingo, 24, às 21h, em 13 episódios. O texto informa que a história a seguir se inicia em 1973, período de ditadura militar no Brasil, em que os direitos civis estavam suspensos. O didatismo é recurso normalmente adotado por canais abertos, mas raro numa HBO, canal premium, presente nos pacotes mais caros de TV. A introdução, no entanto, reconhecem os produtores da série, faz-se necessária, indício de que as novas gerações mal têm referências dos anos de chumbo no Brasil e carecem de contextualização.

Mas o produtor e diretor-geral da série, Cláudio Torres, garante que a breve explicação sobre o período se encerra nesses segundos iniciais. Realizada pela Conspiração Filmes, Magnífica 70 vai ao ar pela HBO de toda a América Latina e retrata o universo da Boca do Lixo, como ficou conhecido o período no cinema nacional produzido no centro de São Paulo na época.

Baseada em um argumento de Tony Marques que nunca foi filmado, e originalmente seria uma comédia, o roteiro desse drama traz Marcos Winter no papel de Vicente, um censor formado em contabilidade, que arruma um cargo na Censura Federal graças à indicação do sogro, o general Souto – papel de Paulo César Pereio. Vicente é subordinado à Doutora Sueli (Juliana Galdino), clara referência à Doutora Solange, personagem real de quem tantos músicos, diretores e autores não têm boas lembranças: era ela quem dizia o que podia e o que não podia ser dito, cantado e encenado, sob argumentos quase sempre inaceitáveis para os criadores daqueles dias.

Vicente é marido de Isabel (Maria Luísa Mendonça). O casal transa no escuro, sempre de acordo com a temperatura da mulher, que tenta engravidar e atender à pressão do general por um neto. A inventividade sexual nula de Vicente é compensada em seu expediente diurno: em uma sala escura, ele assiste a filmes e mais filmes, apertando a campainha para cada corte ordenado ao operador da fita, que vai colando marcações a serem executadas pela Censura. Ao ver o longa A Devassa da Estudante, que mistura nudez num colégio de freiras lésbicas, Vicente manda vetar o filme inteiro.

A fita é protagonizada por Dora (Simone Spoladore), com produção de Manolo (Adriano Garib), um ex-caminhoneiro a quem Larsen (Stepan Nercessian), verdadeiro dono da produtora, confiou a missão de responsável por sua empresa de filmes no cenário da Boca do Lixo. A trajetória da produtora e do censor se cruzam após o veto ao filme. Vicente fica atormentado com a semelhança entre Dora e uma ninfeta com quem se envolveu. Ao ver o casal no Departamento de Censura, implorando por uma revisão do filme, resolve ajudá-los. Escreve uma cena final para ser acrescentada ao longa e acaba dirigindo a sequência em um cemitério. Resumo da ópera: o censor vira diretor de cinema.

“Essa história não tem o desejo de contar a história da Boca, mas de contar como esses personagens eram sugados pelo cinema, numa época como aquela”, define Roberto Rios, produtor da HBO. “O que mais atraiu a gente para essa história é uma premissa que já vem com um conflito muito forte”, define Carolina Jabor, que assina a direção dos episódios. “A tentação da liberdade num censor da Polícia Federal já expõe a repressão e o desejo: as séries precisam disso”, conclui.

Carolina ressalta ainda que nenhum personagem da série é “uma coisa só”. “Todos têm uma vida dupla: O Vicente é o censor que se apaixona e vira diretor, a Dora é uma vigarista que se apaixona por ser atriz. O Manolo vira produtor depois que a casa caiu como caminhoneiro, e tem a história do passado dele” (Manolo recorre ao candomblé para reverter sua impotência sexual, mas o trabalho não funciona; em troca do papel solicitado por Dora, ele não lhe pede sexo, apenas que ela finja ser casada com ele). “O Cláudio procurou encontrar essa ambiguidade dos personagens”, completa Carolina.

O fato de Manolo não entender nada de cinema não foi um meio de compensar a imagem do censor, que também não é do ramo. “A formação da Boca do Lixo foi um pouco assim, de investidores, gente que tinha sobrado de outras profissões”, cita Rios. A diretora endossa: “Não há formação de cinema no Brasil. Hoje tem alguma coisa que melhorou um pouquinho, principalmente em São Paulo, mas em 73, era uma loucura, entrava-se no cinema por acaso. Meu pai tem formação de advogado”, cita, em referência a Arnaldo Jabor. Profissional que viveu intensamente aquele cenário, Alfredo Sternhein atuou como consultor principal da série, do preceito principal aos detalhes.

O corte dos filmes, da maneira como Vicente mostra em cena, há de impressionar quem nunca ouviu falar sobre o assunto e de rememorar as lembranças de quem viveu a época. “Fui ver vários filmes que foram relançados após o fim da Censura, com as cenas cortadas já inseridas, e como aqueles trechos eram novos, na fita já desgastada, você notava, pela cor da imagem, quais eram os trechos antes dos cortes”, lembra Rios. “Vi isso no Casanova, do Fellini, no Rocco e Seus Irmãos, e outros filmes.” Isso fica bem claro, na série, quando Vicente faz uma menção a Laranja Mecânica, filme que foi inteiramente proibido na época, no Brasil. A citação soará como vantagem entre os demais personagens à sua volta: “Você viu Laranja Mecânica?”, indagará um deles, não sem certa inveja. 


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