Netflix/Divulgação
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Série 'Bandidos na TV’, da Netflix, traz de volta caso Wallace Souza

Produção explora acusações de que apresentador brasileiro mandava matar para aumentar audiência de seu programa

Thaís Ferraz, especial para o Estado

02 de julho de 2019 | 03h00

Em 2009, o apresentador e político manauense Wallace Souza foi acusado de assassinato, associação com tráfico de drogas, intimidação de testemunhas, porte ilegal de armas e formação de quadrilha. 

De acordo com testemunhas, Souza encomendava mortes para aumentar as taxas de audiência de seu popular programa policialesco, Canal Livre. Após ter o mandato cassado, o apresentador teve prisão preventiva decretada e morreu vítima de uma parada cardíaca.

Produzida pela Netflix, a série Bandidos na TV resgata essa história, que ficou conhecida como ‘caso Wallace Souza’. Com sete episódios, a docussérie mescla imagens de arquivo, depoimentos e reconstruções fictícias para explorar as acusações contra o apresentador, que construiu sua popularidade em cima de críticas ferrenhas às ‘galeras’ – grupos criminosos que atuavam em Manaus.

Nos seus programas, Wallace fazia discursos exaltados contra o crime e, principalmente, o tráfico de drogas. Defendia, inclusive, a pena de morte. Sua equipe acompanhava a polícia e exibia sem pudores sangue, cadáveres e até corpos carbonizados. Toda a crueza das cenas é reproduzida no documentário.

Diretor da série, Daniel Bogado afirma que, mesmo anos depois, o caso ainda mexe com o imaginário popular. “Nós entrevistamos cerca de 60 pessoas conectadas ao caso e havia um enorme clima de medo”, conta. “Um dos primeiros jornalistas para quem liguei, que havia trabalhado em todo o caso, se recusou a falar comigo porque ainda era muito perigoso.”

“A história de Wallace Souza tem uma premissa cativante – a história de um apresentador que supostamente matou pessoas só para transmitir suas mortes nos programas”, diz Bogado. “Mas, quando começamos a pesquisar, constatamos que isso era apenas o ponto de partida. Os acontecimentos seguintes eram repletos de reviravoltas.” 

Reconstruir a história foi desafiador, afirma. “Os eventos aconteceram há quase uma década e, desde aquela época, ninguém tinha feito nenhum tipo de trabalho sobre o caso. Tivemos que começar do zero”, explica. A pré-produção envolveu pesquisa sobre a cobertura de imprensa feita à época, reunião de materiais filmados pela polícia e em tribunais, e consulta a documentos legais com mais de mil páginas. 

Bandidos na TV segue uma tendência recente de séries que resgatam crimes antigos ou reabrem casos solucionados, como Making a Murderer (2015), O Desaparecimento de Madeleine McCann (2019) e Olhos Que Condenam (2019). Making a Murderer trouxe à tona o caso de Steven Avery, que passou 18 anos na cadeia acusado de estupro e tentativa de assassinato.

O lançamento da série gerou opinião pública favorável a Steven – a Casa Branca recebeu um abaixo-assinado com mais de 130 mil assinaturas pedindo o perdão presidencial. 

Bogado confirma semelhanças entre as duas séries. “Logo no início, tomamos a decisão de mostrar os dois lados da história – o lado das pessoas acusadas, incluindo Wallace, seus amigos e sua família, e o lado dos investigadores, que perseguem a suposta organização criminosa, chamada de Força-Tarefa”, afirma. “Na época do caso, a família sentiu que a imprensa focou bastante na Força-Tarefa, mas nunca deram a chance para que os parentes contassem seu lado da história.”

O diretor conta que, durante o fim de semana da estreia da série, o Twitter foi bombardeado com menções ao caso, que chegou a entrar na lista de assuntos mais comentados na rede social em Manaus.

“Muitas pessoas diziam que, durante a série, em um momento, estavam convencidas da culpa de Wallace, mas viam o sentimento mudar conforme a história avançava”, conta. “Muitas pessoas agora estão discutindo todas as evidências, os depoimentos, as entrevistas para debater se ele era ou não culpado, o que é muito semelhante ao que aconteceu na cidade de Manaus há dez anos.”

 

 

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