Série ‘Animal’ traz biólogo que age como bicho

Trama é ambientada em cidade misteriosa onde ocorrem vários crimes

João Fernando, Minas de Camaquã (RS) - O Estado de S. Paulo

16 de julho de 2014 | 02h00

Atualizado às 14h16.

Galã da TV, Edson Celulari já cansou de ser chamado de gato. Agora, subiu de posto na escala dos felinos. “Na minha cabeça, o Edson parecia um puma”, opina Paulo Nascimento, autor e diretor da série Animal, com estreia marcada para as 23 h do dia 6 de agosto, no GNT. Na produção, o ator é dr. João Paulo Gil um biólogo que sofre de teriantropia, distúrbio que o faz se comportar como o bicho descrito pelo criador da história.

“Ele não se transforma, mas tem atitude de fera. Pode matar uma pessoa e não se lembra de nada depois de cada surto”, descreve o ator, que foi pesquisar a doença. “Atualmente, sabe-se de oito casos no mundo. Há indivíduos que agem como galinhas, ficam no canto, esperando botar um ovo. Quem vai se interessar em fazer remédio só para esses oito se o câncer mata milhões?”

A ideia da série surgiu quando Paulo Nascimento esteve na vila de Minas de Camaquã, cerca de 300 km ao sul de Porto Alegre, para rodar o longa Valsa para Bruno Stein (2007). O local, onde o acesso é feito por estradas de terra, tem apenas 250 habitantes que restaram dos 5 mil que foram embora nos anos 1980, quando a mina de cobre, que atraiu a população para lá, teve as atividades encerradas, após a morte de dezenas de operários. “Eu queria fazer um filme de terror”, brinca o diretor.

Nessas locações, Paulo desenvolveu a história do biólogo dr. Gil na fictícia cidade de Monte Alegre. “Minha filha e eu fizemos uma imersão, vendo filmes para pensarmos em uma doença. Queríamos uma raríssima”, revela ele, que ofereceu a produção primeiro para a Globo. Com as novas diretrizes das organizações da família Marinho, Animal é a primeira grande parceria da emissora mãe com a Globosat, porém bancada totalmente pelo GNT. “É a primeira vez que trabalhamos com dia certo para receber, não tem de ficar esperando sair edital”, comemora o diretor.

A trama começa quando o protagonista resolve voltar ao lugar em que nasceu e de onde saiu ainda criança. Por causa de seu pai, que também tinha o distúrbio, ele não é bem recebido pelas habitantes, que temem um ataque. Ao mesmo tempo, acontecem crimes misteriosos no lugar e ele ajuda a ex-delegada e prefeita Mariana (Cristiana Oliveira) a desvendá-los com a ajuda de seus conhecimentos científicos.

“Ele usa a sua sensibilidade aguçada para resolver os crimes, pois tem olfato e audição bem desenvolvidos”, adianta Celulari, citando a reação de Gil por causa da doença, que também o faz comer carne crua. “E, é claro, as pessoas estranham tudo aquilo”, reforça. O personagem, porém, não assusta Mariana, com quem se envolve. “Ele é um cara perseguido. Ela é casada com um deputado corrupto, em um casamento de conveniência. Mas ele tem medo por causa da doença”, conta Cristiana Oliveira.

Confinamento. Para as gravações dos 13 episódios, que ocorreram entre março e junho, atores e equipe técnica passaram todo o período morando em Minas de Camaquã, o que mudou a dinâmica da vila com a chegada de novos habitantes, quase um terço da população local. Além de hospedarias improvisadas, houve reforço tecnológico. “Falta luz com frequência na cidade, tivemos de trazer geradores de energia para a ilha de edição”, informa o diretor. Os responsáveis por editar a série se mudaram para uma casa e levaram até o cachorro, pela temporada. O mascote, aliás, era a desculpa do elenco para fazer visitas e espionar as cenas prontas.

Os atores garantem não ter se importado com a longa estada na região, na qual sinal de celular é raro. “Isso já aconteceu quatro vezes na minha vida, quando fiz Pantanal, Amazônia (ambas na extinta Manchete), Corpo Dourado e Porto dos Milagres (novelas da Globo). Estou acostumada, hoje tenho mais maturidade. Eu sofri por passar o primeiro dia das mães longe da minha filha e do meu neto”, confessa Cristiana, que já é avó de Miguel, aos 50 anos.

“É difícil ficar longe de casa, mas esse mergulho é bom, você foca no trabalho. Não tem trânsito nem poluição. E sempre tem um aniversário, come-se churrasco quase todos os dias”, defende Celulari, que levou os filhos para conhecer a vila, cujo turismo começa a crescer por causa dos esportes radicais. “Andei na tirolesa, fiz arvorismo. Nas folgas, fomos ao Uruguai, pois é perto”, lembra o ator.

A aventura também se estende ao trabalho. Nas gravações que o Estado acompanhou, a equipe rodava cenas em um cenário montado dentro de um túnel da mina de extração de cobre, onde um desabamento recente os obrigou a reduzir o espaço do set, porém com risco de um novo acidente. Próximo à caverna, há ainda outro cenário recorrente, um lago onde os mineradores escavavam. A estrutura se desfez, formando um espelho d’água de 170 m de profundidade, em que o nado não é recomendado, pois os bombeiros não têm como fazer resgate em um local tão fundo.

Apesar da parte rudimentar, há também tecnologia envolvida na produção. Nas sequências gravadas no alto das pedras que formam a deslumbrante paisagem da região, foi usado um drone. Além disso, foi construída a casa de dr. Gil, cujo teto foi desenhado para abrigar refletores de luz, posicionados sobre os animais empalhados, deixados pela mãe do personagem.

Trama inclui núcleo à espera de extraterrestres

O telefone toca às 2 da madrugada e o interlocutor pergunta: “Como eu derreto um corpo?”. Esse era o tipo de ligação que Marta Tocchetto, professora de química da Universidade de Santa Maria, recebia do diretor de Animal, Paulo Nascimento, durante o processo de escrita dos roteiros da série. A acadêmica foi a consultora do criador na hora de desenvolver os misteriosos crimes em Monte Alegre.

“Meu papel era ajudar o autor em questões científicas. Tornar o desejo dele crível e viável para criar o suspense na história”, explica Marta. “Se alguém ouvisse esses ligações, eu estaria preso”, brinca Paulo. Para ela, mesmo que se trate de ficção, é preciso levar a sério. “Hoje, há uma preocupação maior em fazer as coisas menos absurdas. Isso prende a pessoa que vai assistir. As pessoas vão saber o que é ou não tóxico, vai acrescentar informação ao público”, aposta.

Na trama, os elementos químicos darão pistas sobre a origem do distúrbio do dr. Gil e de situações previstas para a segunda temporada. “Talvez, a cura da doença dele esteja no lítio, encontrado nos desertos de sal. Por isso, ele volta a Monte Alegre para analisar os estudos do pai”, sugere Marta.

Fantasia. Sem explicação científica será o núcleo Jaques (Nelson Diniz), figura estranha com cabelos brancos e compridos, que vive em uma comunidade de 20 virgens que aguardam ser engravidadas por extraterrestres. Na maior parte do tempo, as moças caminham nuas pelo local onde moram com o homem que se torna amigo de dr. Gil. 

“Elas são desapegadas do que é material e se purificam, se energizando, tomando banho de sol. Elas acreditam que, quando ficarem grávidas, levarão o filho a um portal para eles serem abduzidos para uma vida superior”, conta Bárbara França, intérprete de uma das virgens. Única carioca entre as jovens do núcleo, ela sofreu com a temperatura. “Estou morrendo de frio. Por sorte, uma cena noturna foi feita na noite mais quente. O frio não pode atrapalhar, tenho de estar plena na cena.” / J.F.

O repórter viajou a convite da produção.

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