Pedro Saad/Netflix
Pedro Saad/Netflix

Série '3%', produção brasileira da Netflix, foi influenciada por George Orwell e Aldous Huxley

Livros clássicos com distopias ajudaram a formar a ideia do seriado, o primeiro produzido no Brasil, que estreia nesta sexta-feira, 25

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2016 | 17h57

O futuro não é promissor. Para 3%, a primeira série brasileira original da Netflix, serviço de televisão via internet, os anos vindouros serão sombrios. A produção, cuja direção geral é assinada por César Charlone, nasceu em 2009, quando os criadores Pedro Aguilera, Daina Gianecchini e Jotagá Crema ainda eram estudantes na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (mais conhecida como ECA).

Prestes a estrear, nesta sexta-feira, 25, no serviço de televisão via internet, sete anos depois da ideia surgir na cabeça dos universitários então influenciados pela literatura de George Orwell e Aldous Huxley, a série se torna a primeira produção sul-americana da Netflix e dialoga com questões tão atuais no Brasil - e no mundo - contemporâneo: a desigualdade e a meritocracia.

“Ainda éramos estudantes quando comecei a pensar nessa ideia”, contou Pedro Aguilera, em entrevista coletiva organizada nesta segunda-feira, 21, em um hotel na zona sul de São Paulo. “na época, surgiu um edital do Ministério da Cultura para ajudar a desenvolver seriados para o público jovem. Estava lendo 1984 (livro de Orwell) e Admirável Mundo Novo (de Huxley), mas pensa que seria legal criar uma situação distópica que se passasse no Brasil, algo que fosse relacionado com o que eu sentia. Desenvolvemos essa ideia juntos”, diz ele, sobre a parceria com Daina Gianecchini e Jotagá Crema.

3%, a série, teve o episódio piloto publicado no YouTube, como uma websérie, e ao longo dos anos chamou a atenção de algumas emissoras nacionais. Por fim, a Netflix se interessou verdadeiramente pelo produto e decidiu transformá-lo na primeira produção original criada por um país sul-americano. Ao todo, a produção brasileira estará disponível nos 190 países nos quais a Netflix atua.

O elenco dessa trama que se passa em alguns anos no futuro conta com nomes conhecidos, caso de João Miguel, de Estômago e Cinema, Aspirinas e Urubus, e Bianca Comparato, de filmes como Irmã Dulce e Somos Tão Jovens, a frente de um grupo de jovens atores – dentre eles, Michel Gomes, Vaneza Oliveira, Rodolfo Valente e Viviane Porto também participaram da coletiva de imprensa.

Neste mundo inicialmente imaginado por três universitários, a desigualdade no País chega a níveis alarmantes. A porcentagem que dá título à série é o equivalente da população brasileira a ter a oportunidade de viver em uma utopia chamada Mar Alto. Todo o restante, os 97%, vivem na miséria.

E para chegar ao Mar Alto, é preciso passar por um processo seletivo duríssimo. Ali serão desenvolvidos o caráter dos personagens, seus medos e fobias, em testes comandados pelo personagem de João Miguel chamado Ezequiel.

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“Recebi o convite há algum tempo. Um ano e pouco antes da série acontecer”, contou o ator. “E fiquei interessado em fazer esse personagem que nunca tinha feito. Interesso-me pela ideia de descobrir personagens novos. E o Ezequiel é estranho logo de cara.”

Para João Miguel, o formato de televisão por streaming adotado pela Netflix, com todos os episódios disponíveis de uma só fez, dando ao espectador a chance de como e com qual frequência assistir aos capítulos da trama, auxiliam na narrativa sem pressa, com desenvolvimento de cada um dos rostos que são mostrados na tela.

“Todos os personagens têm suas contradições. Eles se contradizem, cada um da sua maneira, com a sua história. São diferentes sotaques, pessoas de diferentes lugares. Aparentemente, é ficcional, mas a série é um reflexo da sociedade o tempo todo”, avalia, João Miguel.

São os sotaques e os contextos, e a lente de Charlone, indicado ao Oscar de melhor fotografia pelo filme Cidade de Deus, que localiza a história no Brasil. “Ser algo brasileiro era muito importante para nós. Existe essa ideia de uma distopia, de uma desigualdade proposital na série, mas que é até muito bem aceita pelas pessoas ali. O Mar Alto não é perfeito também”, explica Aguilera.

Bianca Comparato compara a ideia da série com outra produção recentemente lançada pelo Netflix.”É como Black Mirror”, ela diz, sobre o seriado cuja terceira temporada chegou ao serviço de streaming recentemente e se trata de uma antologia de histórias por vezes macabras a respeito da conexão nossa com a tecnologia não muitos anos no futuro. “Digo que é como Black Mirror no sentido da série dizer que é sobre um futuro quase o nosso presente, mas, na verdade, ser uma série sobre a gente mesmo”, ela diz. E conclui: “O Brasil, de uma maneira, já é uma distopia”.

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