ALINE MASSUCA/ESTADAO
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Sérgio Guizé conta que Candinho é uma homenagem a sua avó

Ator analisa sucesso de 'Êta Mundo Bom!' e se orgulha de mobilizar as crianças, o que não foi possível em seus tempos de professor da rede pública

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

26 de junho de 2016 | 04h00

Em meio à turbulência do cenário político-econômico e a toda a intolerância desfilada aqui e lá fora, dizer que tudo que vai mal sinaliza melhoras pode até parecer autoajuda barata, mas funciona muito bem para um público exausto de tantas denúncias, delações, comissões, prisões, tornozeleiras e que tais. Isso é uma coisa. Outra é acreditar no lema e, principalmente, no personagem. Sérgio Guizé, o ator que vem comovendo espectadores de todas as idades, faixas sociais e gêneros na novela das 6 da Globo, confia piamente na existência de Candinho, porta-voz do mantra de Voltaire em Êta Mundo Bom!, de Walcyr Carrasco.
Todo dia, antes de dormir, Guizé se despede de Candinho com um “boa noite”. “Ele vive em mim e eu corro atrás dele para mantê-lo vivo, o personagem não pode cristalizar”, ensina o ator ao Estado, em entrevista por telefone. Literalmente, o que diz Candinho é “Tudo que acontece de ruim na vida da gente é pra mó de melhorá”. 
“Acho que isso toca num lugar muito especial no coração das pessoas, principalmente diante do que a gente está vivendo hoje, no Brasil e no mundo. Eu me sinto um privilegiado de poder estar levando essa mensagem para a casa das pessoas, de todas as idades, de todas as classes. Voltaire, quando escreveu isso, em 1760, não pensava nisso, era mais uma sátira, ele era bem sarcástico, mas está dando supercerto. E tem o retorno de criança, principalmente, criança não tem como enganar.”
Ex-professor de Artes em escolas da rede pública do Ensino Básico e Ensino Médio em São Paulo e do ABC, Guizé, nascido em Santo André, confessa que se sentia muito frustrado quando exercia o ofício. “Como aquilo é um sistema falido, pode falar o que for, mas eu me sentia culpado. As crianças não aprendiam, eram 45 alunos por classe e a direção sempre queria que os alunos ficassem sentados. Eu queria dar teatro, levar pra fora, aí eles diziam: ‘coloque os alunos quietos, sentados’. Não aguentei. Prefiro morrer em pé a viver ajoelhado. O engraçado é que hoje eu consigo levar uma mensagem positiva, ensinar, de algum jeito, não comigo, mas com o personagem. O personagem é um anarquista, no sentido bom.”
Outro dia, conta, foi a um chá de bebê de seu afilhado, com a namorada, Nathália Dill, que também será madrinha da criança, e ficou surpreso com o afeto demonstrado pelos pequenos. Num tempo em que a TV aberta se abstém de produzir programas infantis e toda uma geração não tem uma figura nacional a quem espelhar, Candinho é o Garibaldo, a Dona Benta, a Xuxa de seu tempo. 
Guizé foi também aluno da rede pública e lembra que a coisa já não era fácil: “O Estado já era falido no ensino na minha época. Dou graças a Deus de conseguir falar mais ou menos o português. Eu sentia isso, sentia também a intolerância”. Desde pequeno, já tocava instrumentos musicais – Guizé tem uma banda, a Tio Che –, gostava de pintar, o que faz com frequência, sempre refletindo o personagem da ocasião, e de atuar. Assim, vivia a levar advertências e suspensões por não se enquadrar no sistema.
Ao contrário do ingênuo Candinho, o ator se diz alguém muito ressabiado. “Já passei por muita coisa nessa vida, sou mais desconfiado”. O sotaque do personagem ele foi aprender, tecnicamente, com Íris Gomes, uma filósofa da Língua Portuguesa e professora de prosódia a quem os atores costumam dizer “amém”. “Eu sabia que o meu personagem era o mais caipira de todos porque era do interior de Piracema, morava com os animais e conversava com eles. Então, eu falava com o coração.” 
Mas a memória afetiva talvez tenha pesado mais. “A minha família, por parte de mãe veio do Paraná, a minha avó era analfabeta, foi ela que me criou, e ela falava com o coração. Depois, quando o Candinho foi pra cidade, ele pegou algumas coisas porque ele ouvia outras coisas. O personagem tem que mudar, tem que estar vivo, do mesmo jeito como as pessoas. A minha avó, se a gente ensinasse a falar certinho, ‘vó, é assim que fala’, ela ia aprender, ela não era burra, era mais que sensível, era mais que esperta, e falava que não quis aprender a ler e escrever porque queria aprender outras coisas na vida: aprender o ser humano, a lidar com a gente, que era muito malcriado (risos). Eu juntei tudo isso.”

Guizé só lamenta a ausência da avó, que morreu em 2001 e não apreciava o neto no papel de vilões. “Ela ia ficar bem orgulhosa de mim no momento”, conclui. Candinho é uma homenagem a essa figura. Some a isso a raiz plantada em Mazzaropi e também o DNA de Charles Chaplin, a quem Guizé revisitou logo após a primeira conversa com Walcyr Carrasco sobre Candinho.
“Também não quero desrespeitar ninguém, é uma leitura de tudo isso misturado, com texto do Walcyr, que a gente segue à risca. Mas faço com respeito porque cada região tem sua maneira de falar.” Afeito a bichos, Guizé conversa também com o burro com quem contracena. Conta que a produção, inicialmente, pensou em escalar três animais similares para não sobrecarregar um só, mas não foi preciso. “Ele é muito especial, muito carismático”. Como ator que sabe o valor de duelar em cena, diz que aproveita o que o animal tem a lhe dar. “É um amor incondicional. Gravo com o Juca, como gravei com a Kira, uma ‘gavioa’, em Saramandaia. Tem que respeitar o tempo deles. E quando eles improvisam”, diz, sem chacota, “é maravilhoso”

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