Estevam Avellar/Globo/Divulgação
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'Sensibilidade do homem negro é pouco explorada', diz Fabrício Boliveira

Um dos protagonistas de 'Juntos a Magia Acontece 2' fala sobre a negritude na dramaturgia em entrevista ao 'Estadão'

Entrevista com

Fabrício Boliveira

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

19 de dezembro de 2021 | 05h00

Neste domingo, dia 19, o especial de Natal Juntos a Magia Acontece 2, da TV Globo, que vai ao ar logo após o programa Zig Zag Arena, tem o ator Fabrício Boliveira como um dos protagonistas. Continuação da edição exibida em 2019, com Milton Gonçalves e Camila Pitanga no elenco, o especial agora mostra a história do menino Caio (Pedro Guilherme), que tem a esperança de conhecer o pai com quem nunca conviveu.

Ele vai contar com a ajuda de André, personagem de Boliveira, um profissional do audiovisual que coloca seu trabalho como foco principal de sua vida e deixa de lado a convivência com a família. 

O especial foi criado e escrito por Cleissa Regina Martins e tem direção artística de Patricia Pedrosa.

Aos 39 anos, o ator deixou recentemente a TV Globo onde atuou em novelas e afirma que ainda estuda propostas para o streaming, além de finalizar um filme que dirigiu que tem como tema o descanso da mulher negra.

Qual a importância de um especial de Natal trazer a história de uma família negra, típica brasileira?

A Cleissa (autora) fala sobre um assunto muito pouco explorado na dramaturgia brasileiras que é a sensibilidade e subjetividade dos homens negros. São questões que eu gostaria também de falar e nunca tive muito espaço. É um jeito de mostrar um Brasil de verdade, sem tanta maquiagem. É como se nós estivéssemos entrando a fundo na casa de uma família brasileira e enxergando como ela lida com questões contemporâneas, um microscópio. Saber como vamos nos reconstruir “juntes” depois dessa pandemia.

Recentemente, você criou um banco de talento de atores negros. Quais as ações que ele propõe?

O Elenco Negro é um projeto meu e do produtor Gabriel Bortolini e foi inspirado no Cidan (Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro), criado pela Zezé Motta na década de 1990. É um cadastro para atores e atrizes acima dos 18 anos do Rio. Foi uma grande descoberta, uma alegria. Encontrei grandes artistas. Temos quase 700 atores e atrizes já cadastrados. Alguns já estão trabalhando. 

Você interpretou o cantor Wilson Simonal no cinema. O que ficou desse personagem para você?

No Brasil, um negro que se veste bem, que está bem colocado socialmente, que tem um papo massa, que tem suingue na vida é arrogante. Esse foi o adjetivo, a qualificação que deram ao Simonal a vida toda. Quando se fala dele, diz-se a mentira de que era um x9 e um arrogante. Por que arrogante? Por que ele estava bem financeiramente? Por que não tinha a falsa humildade que o negro tem de ter e que tem a ver com a submissão que o País espera de uma pessoa negra? Isso está impregnado no filme que mostra o lado humano do Simonal para além do julgamento que o Brasil deu a ele.

ocê acabou de ganhar o prêmio de melhor ator pelo filme Breve Miragem do Sol, com direção de Eryk Rocha, no Festival de Cinema de Havana...

Estou muito, muito feliz. A população de Havana é a que mais vê cinema, e gratuitamente. Isso eu digo porque estive lá. Todo domingo há cinema e outras atividades culturais gratuitas por iniciativa do governo. Então, esse lugar, com uma grande população negra, está por dentro do cinema do mundo. Estou doido para ouvir os cubanos sobre o filme. Entender qual é o ponto de identificação deles com o Paulo (personagem de Boliveira), um taxista que trabalha na madrugada do Rio de Janeiro para sustentar seu filho. Que se formou na universidade, mas ficou sem emprego. O filme fala sobre humanidade, autocuidado. 

Você deixou a TV Globo recentemente. Quais são seus novos projetos?

Estou recebendo convites do streaming para assinar contratos. Além disso, há o filme Mungunzá, da Rosa Filmes, rodado durante a pandemia, do qual eu participo. E um outro que eu dirigi. Um plano-sequência de mais ou menos 1h15 que está em fase de montagem. Chama-se Antígona – Não Nasci para o Ódio, Nasci para o Amor, inspirado na peça clássica de Sófocles, mas que fala sobre o descanso da mulher negra baiana. 

 

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