"Sempre o considerei um personagem político"

Ator fala ao Estado sobre sua criação mais emblemática e diz que a qualidade da TV é um reflexo da crise criativa do cinema

Entrevista com

Gustavo Miller, de O Estado de S. Paulo,

13 de março de 2010 | 16h00

 

LOS ANGELES - "Essa é uma missão para Jack Bauer". Durante os último nove anos, mesmo quem nunca assistiu a um minuto de 24 Horas sabe o significado dessa expressão. O personagem, mistura de McGiver com Capitão Nascimento, é um ícone pop.

 

Ao conversar pessoalmente com Kiefer Sutherland, a aura em torno de sua criação vai-se embora. Ele é baixinho e não grita, apesar daquela voz sussurrada. Tampouco é um brutamontes que dá mata-leões a esmo. É um gentleman. Mas não se engane: Sutherland é malandro, demora-se nas respostas e controla o tempo a seu favor para não ouvir o que não quer. Como Jack Bauer.

 

Na 7ª temporada, Jack dizia não ter motivos para viver. Agora, avô, ele parece ter todas as razões do mundo. Essa é a pegada do 8º ano?

Se você olhar as outras temporadas, na segunda houve uma pequena chance de ele ter um relacionamento com a filha. Isso foi embora na temporada 3. Não tinha razões para viver e se apaixonou nos anos 4 e 5. Daí, (sua mulher) ficou em coma irreversível. Temporadas 6 e 7, bem, nada para se viver. Agora, ele tem todos os motivos, na esperança de reatar com a filha. A neta foi o catalisador de tudo. Ele não sabe direito como, mas quer ser um avô melhor do que foi como pai.

 

Mas isso claramente vai mudar em seguida?

 

Certas circunstâncias começam a indicar o início de um dia terrível. A situação surge, literalmente, batendo em sua porta, enquanto ele está arrumando as malas para ir embora. Essa relutância é bem interessante. 24 Horas, agora, vai num caminho diferente do que ele quer. Digo, ele está realmente se esforçando para fazer o possível para sair de Nova York.

 

Isso será um choque?

 

Não diria dessa forma, mas posso garantir que o personagem foi construído de uma maneira diferente da que foi nos últimos sete anos. Ele tem uma linha que não quer atravessar, mas flerta com essa possibilidade o tempo todo. Não é chocante. Uma das coisas que amo em Jack Bauer é que ele tem um senso de moral muito forte. Quando está em ação, ele certamente fará o seu melhor e dane-se o resto. É a coisa certa ou errada de se fazer. Se será bem-sucedido ou o oposto, isso não é relevante para o show. Nesse contexto, sempre considerei Jack Bauer um personagem muito político.

 

É estranho ser um avô?

 

Não, eu tenho um neto de quatro anos. Ele parece um lutador de boxe combalido: fica caindo o tempo todo. Ele corre o mais rápido que um humano pode, e daí cai! Isso me fez desejar ter sido pai um pouco mais velho, eu seria muito mais esperto. Mas não acho que a paternidade tenha me mudado como pessoa. O jeito mais fácil de explicar isso é que eu era pai e morava em uma casa com Billy Zane, Robert Downey Jr. e Sarah Jessica Parker (Risos).

 

Você acredita que os melhores roteiros e papéis, aqueles mais desafiadores, estão, hoje, na televisão? Vide shows como Mad Men, Breaking Bad e o próprio 24 Horas?

 

Todos são desafiadores. Não quero entrar nessa de que trabalhar na TV é melhor ou mais complicado. Se você quiser entender a razão de a indústria televisiva ter expandido tanto, dê uma olhada no que aconteceu na indústria cinematográfica. Enquanto eu crescia, os EUA faziam filmes como Laços de Ternura e Gente Como a Gente. Tente achar isso agora. Chamávamos isso de filme de 15 ou 20 milhões. Hoje só fazem isso na Europa, de vez em quando surge O Lutador ou Quem Quer ser Um Milionário?. O resto é Homem de Ferro ou outro blockbuster com tecnologia visual. Esse é o último ano da série? Não sabemos, tchau!

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