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Sem Jack Bauer, nova série '24 Horas' enfrenta o dilema das produções na Era Trump

Série estreia na televisão brasileira nesta quinta-feira, 9

Neil Genzlinger, The New York Times

09 de fevereiro de 2017 | 15h39

Até Donald Trump tomar posse, o tema principal em qualquer resenha de 24:Legacy era saber se a franquia seria ainda viável sem Jack Bauer, o memorável agente de operações antiterrorismo, personagem principal interpretado por Kiefer Sutherland. Agora, contudo, e especialmente diante dos fatos ocorridos na semana passada, são os vilões da série, e não seu herói, que demandam atenção.

Isto porque um grande número deles fala com sotaque estrangeiro e alguns representam o demônio do momento de Trump, que é o terrorista muçulmano. 

A nova série começou no domingo à noite na Fox depois do Super Bowl, e a primeira coisa que os telespectadores viram foram terroristas estrangeiros saqueando uma casa cujo proprietário, um Ranger do Exército, está preso a uma cadeira e coberto de sangue. Os invasores mataram sua mulher e seu filho. "Isto é pelo xeque Bin-Khalid", diz um deles antes de dar um tiro na cabeça do soldado.

O primeiro episódio da série foi filmado quando ainda parecia improvável que Trump seria eleito - e projetado em Nova York em sete de novembro - mas os momentos iniciais são como se tivessem sido escritos para apoiar as restrições à imigração impostas pelo presidente na semana passada. A série tem muitos desdobramentos à medida que avança, com uma ampla variedade de vilões de diversas raças, mas a escolha de um substituto de bin Laden como ponto de partida certamente reacendeu o debate sobre a demonização dos muçulmanos que "24 Horas" enfrentou antes.

O novo herói é Eric Carter (Corey Hawkins de Straight Outta Compton) que comandou o esquadrão dos Ranger que mataram Bin-Khalid, evitando um ataque devastador contra os Estados Unidos. Para sua segurança, os Rangers envolvidos receberam novas identidades e tarefas menos estressantes, mas Eric rapidamente descobre que ele e Ben Grimes (Charles Hofheimer) um colega muito instável, seriam seguidos e mortos. Mas os homens à caça dos Rangers estão interessados menos em vingança e mais em algo que foi confiscado durante o ataque contra Bin-Khalid.

A marca de "24" - cada episódio tem uma hora de duração - é de ação palpitante como sempre. Um ingrediente que mais ou menos desapareceu, pelo menos nos primeiros quatro episódios, é o uso da tortura como meio de obter informação, o que foi sempre objeto de críticas. Mas embora as táticas violentas de Jack Bauer fossem repulsivas, a maldade interior que sugeriam davam ao personagem uma certa complexidade. Ele mostrava uma preocupação paternal com relação à sua filha num momento e no seguinte arrancava sangue de algum sujeito malvado. Eric Carter não é tão complicado ou, por isso, tão memorável, pelo menos no começo, embora lá pelo quarto episódio o personagem comece a se firmar.

A nova história se subdivide rapidamente em múltiplas situações ao estilo clássico de "24", com uma visita breve a um colégio que pode estar ligado a uma célula secreta, e também abrange possíveis enredos românticos. Antes de ir à caça dos inimigos, Eric deixa sua mulher, Nicole (Anna Diop) pelo fato dela proteger o irmão dele, Isaac (Ashley Thomas), um traficante de drogas fortemente armado com quem ela estaria tendo um caso (todos os três personagens são negros, e é justo perguntar porque a série não pode ter um herói negro sem que ele tenha um irmão que é um estereotipado gângster negro).

E naturalmente há a Counter Terrorist Unit (CTU) com uma equipe especializada e intrigas entre os vários departamentos. O trabalho de preencher o vazio deixado por Chloe, a analista interpretada tão sedutoramente na série original por Mary Lynn Rajskub, fica com Mariana (Coral Peña) que também tem muita atitude e capacidade. Ela não foi usada ainda o suficiente, mas provavelmente seu papel vai crescer.

A crise atinge a unidade num momento de mudança da liderança: Rebecca (Miranda Otto, de Homeland) está deixando o cargo de diretora nacional para permitir que seu marido, John (Jimmy Smits), um senador, concorra à presidência. (é uma regra de "24" que um presidente, em potencial ou passado, se envolva em atividades ilegais). Smits terá de corresponder às grandes expectativas já que os presidentes passados de "24", interpretados por Dennis Haysbert e Gregory Itzin, foram dois personagens destacados da TV na primeira década deste século. Smits, como Hawkins, vão se firmando lentamente, mas, no quarto episódio o personagem começa a ficar interessante. 

Assim, ao lado de Jack Bauer, todos os elementos de "24" estão incorporados. Mas a questão do terrorismo, pelo menos agora, ofusca tudo. É preciso observar que, pelo menos nos quatro primeiros episódios, o elo entre os seguidores de Bin-Khalid e o islamismo é apenas tácito, mas não há dúvidas quanto a quem e o que estão envolvidos. (Uma subtrama diferente envolve uma mesquita radical).

Nas temporadas anteriores de "24" a maldade se propagava se todo o lado - entre os vilões havia chineses, russos, cartéis de droga mexicanos, políticos americanos e outros mais. No caso de "24: Legacy" a ideia é tratar os vilões igualmente. Nem todos os personagens venais têm pele morena e sotaque estrangeiro e, num certo ponto é a intolerância para com muçulmanos, e não o terrorismo radical, que constitui o problema.

Mas o mundo de "24: Legacy" é aquele em que islamismo equivale a terror; jihadistas muçulmanos estão por todo o lado e ninguém é confiável. Sim, a série é de ficção, e muitos telespectadores conseguirão fazer uma distinção entre o que é entretenimento e o que é realidade.

Mas as apostas por este "24" parecem ser mais altas do que nas versões anteriores, porque duas coisas são mais evidentes agora. Uma é que determinadas pessoas, incluindo algumas que estão trabalhando na Casa Branca não conseguem, ou não querem, separar o real do falso quando isto apoia seus interesses ou crenças. A outra é que uma parte traiçoeira da natureza humana é estimulada pelo ódio contra uma outra pessoa / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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