SÉRGIO CASTRO/DIVULGAÇÃO
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Cristina Padiglione
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Selma Egrei se surpreende com receptividade à amarga Encarnação

Em luto permanente, matriarca da novela das 9 da Globo exorciza ressentimentos do público, à espera da morte

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2016 | 05h00

Encontramos Dona Encarnação, ou quase nada dela, na figura civil de sua intérprete, Selma Egrei, em um café no bairro do Butantã, em uma São Paulo chuvosa, na quarta-feira, 18. É sua primeira semana inteira de folga desde o início das gravações de Velho Chico, a novela das 9 da Globo, em que sua matriarca chegou aos 100 anos e agora tece, minuciosamente, a mortalha que há de cobrir seu cadáver. Sem a peruca, as pesadas peças do figurino e algumas próteses que lhe acrescentam 33 anos de vida, à base de maquiagem, Selma em nada remete à ressentida senhora que atravessa toda a saga de Benedito Ruy Barbosa.
Também não sabe quando chegará a hora de Encarnação. A velha vive a dizer que não morrerá antes de reencontrar o neto, Martin (Lee Taylor), mas a cena do reencontro entre os dois está prevista para ser gravada na próxima semana. Convidada a fazer um filme com Jayme Monjardim e uma peça, Selma preferiu declinar. Mal sabe quando a agenda lhe permitirá marcar novamente uma consulta médica ou uma visita ao dentista. Vai esperando.

Durante nossa conversa, cada ponto que abordamos sobre Encarnação inclui uma menção à genialidade do diretor Luiz Fernando Carvalho, com quem construiu a personagem e de quem fala sempre com um sorriso no rosto – sorriso que Encarnação só ensaia por sarcasmo. A preparação feita com todo o elenco e incentivada pelo diretor no galpão onde ele trabalha nos Estúdios Globo foram essenciais para gestar essa figura que o diretor trata como uma habitante da Macondo de Gabriel García Márquez.
Como nasceu Encarnação, afinal? “Não sei te dizer. Ela nasceu muito das conversas que tive com o Luiz. Ela nasceu mesmo no dia em que ele resolveu fazer uma prova de roupa. Tinha uma roupa que não estava pronta ainda, mas era aquilo. E o Luiz fez um teatro. Chegou naquele galpão, fechou cortinas, ficamos lá atrás, pesquisando maquiagem, e o Luiz mexe em tudo: na golinha, na rendinha, ‘quero mais rendinha aqui, no véu’. Ele montou. Então, quando abriu a cortina, ele pôs música, pôs luz, ‘vamos lá fazer uma improvisação’. Ali nasceu a Encarnação, pra mim e pra ele. Ele ficou super satisfeito, ‘é isso aí’. ” 

Quando a novela deu um salto de 28 anos, Selma confessou seu medo. “Pensei: ‘Meu Deus, como vou fazer isso? Vai virar o estereótipo da velhinha’, mas eu confio muito no Luiz, e nasceu ali no dia também, com a peruca, peguei a bengala e pronto. Mas ela não perde a pose dela, de matriarca.” Nessa fase contemporânea, conta Selma, a autopiedade se impôs sobre a rigidez que Encarnação demonstrava na etapa inicial.
Ressentida pela morte do primogênito, que ainda menino se afogou nas águas do São Francisco, quando a canoa virou, Encarnação jogava tanta culpa no marido, Jacinto (vivido por Tarcísio Meira e morto no primeiro capítulo) e no mundo, que a atriz não duvida que a matriarca guarde lá um grande remorso por ter, ela mesma, alguma culpa pela tragédia. De tanto se lamentar pela perda e revisitar o quarto do menino morto, o marido mandou subir uma parede e fechar o recinto. É bem ali, uma espécie de muro das lamentações, que Selma grava 90% das lágrimas derramadas em cena pelo filho que se foi. 
Após longas temporadas gravando no Nordeste, a novela hoje ocupa um estúdio inteiro no Projac, no Rio, onde foram reproduzidos todos os ambientes internos da fazenda de Grotas. Melhor para Dona Encarnação, que quase não se movimenta mais em cena. A atriz ri quando alguém acha essa senhora muito dinâmica para a idade. Avisa que ela tem uma prótese em uma das pernas e, nas raras cenas em que anda, arrisca um passo manco. 
Não são poucos os diálogos entre ela e o filho, Afrânio, de Rodrigo Santoro a Antonio Fagundes, que indicam haver algum segredo entre eles – talvez até relacionado ao filho que morreu, quem sabe? Ninguém. Só os autores e o diretor. Selma se diverte com o enigma. “É uma areia movediça, a gente não sabe onde pisa, mas isso é instigante, ajuda a estar sempre atenta à questão ‘por onde vai?’. Eu já pensei: ‘A gitana (Iolanda, Carol Castro/Christiane Torloni) vai se revelar um horror de pessoa’, mas parece que não, ela é ótima”, diz Selma, quase se traindo ao pensar como Encarnação. 
O figurino de eterno luto também contribui muito para tanto. “Isso é uma concepção do Luiz, é um barroco, ele adora o barroco, ele quer o barroco na roupa, no cenário, na interpretação, nas texturas, nas cores, e o barroco é esse exagero, né? E tem essa fuga da realidade de que o Luiz gosta: é menos realista e mais exagero, tem umas cenas de sofrimento que são de um desespero terrível.” 
Houve quem achasse que Encarnação provocaria alguma antipatia do público. Deu-se o inverso, para a surpresa de Selma. Não se pode descartar, afinal, que a matriarca, na sua amargura, exorcize um pouco da amargura do espectador, capaz até de achar graça num mau humor que, de tão negativo, vai se tornando folclórico. Cada vez que as criadas se aproximam para oferecer uma xícara de chá a ela, a plateia já se prepara para os coices da anciã.

Selma Egrei tem sido muito solicitada de uns anos para cá. Mais precisamente, desde que Selton Mello a convidou para ser a terapeuta do terapeuta na série Sessão de Terapia, adaptação do israelense Be Tipul, dirigida por ele para o canal GNT. Lá, ela era Dora e aparecia nos episódios das sextas-feiras, quando Zécarlos Machado, o doutor Téo, colocava seus monstros no divã. 
Assim como Encarnação, Dora foi construída para ser mais velha que sua intérprete, o que voltou a acontecer na premiada série Os Experientes, dirigida por Fernando Meirelles, com roteiro de Márcio Alemão. Fazia então uma viúva com dois filhos, que descobria a felicidade com outra mulher (Joana Fomm). Pelas mãos do mesmo Meirelles, foi parar em Felizes para Sempre?, outra série digna de cuidados extraordinários na TV aberta.
Isso tudo não é obra do acaso, mas de uma carreira construída sem aquele furor de quem precisa estar na TV o tempo todo. Ao contrário. Selma chegou a ficar 12 anos fora de circuito, um pouco em razão de algum desânimo com a profissão e com os rumos que o teatro vinha tomando. Foi buscar atividades na dança e em agendas fora do ramal comercial. Àquela altura, já tinha feito muito cinema, teatro infantil e alguma coisa na TV. Quem a trouxe de volta à dramaturgia foi seu “grande mestre”, como diz, Antonio Abujamra.
Talvez, reconhece Selma, a TV seja mais cruel com as mulheres que vão envelhecendo diante das câmeras, a ponto de se queixarem da falta de papéis após certa idade. Com ela, vai acontecendo o contrário. Brinca que as mulheres fazem as princesas, depois as mães das princesas e, por último, as bruxas.
No momento, não deixa de engrossar o coro dos colegas que lamentam o fim do Ministério da Cultura, à espera de mudanças. “Eu fico com uma dor no coração porque é tudo muito difícil. Mas a gente tem a saúde e a educação tão desastrosas, e a economia, que não há o que fazer. Acho que as coisas vão dar uma boa parada, talvez nem tanto no eixo Rio-São Paulo, que se sustenta melhor, mas a cultura regional vai sofrer.”

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