'Se o ator tiver de ser só aquela pessoa que ele é, a gente não está falando mais de ator', diz Nero

'Se o ator tiver de ser só aquela pessoa que ele é, a gente não está falando mais de ator', diz Nero

O ator Alexandre Nero, que está no ar em 'Onde Nascem os Fortes', fala sobre seu personagem ambíguo e o debate sobre representatividade desencadeado por causa da novela 'Segundo Sol'

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2018 | 06h01

Em 2008, na novela A Favorita, de João Emanuel Carneiro, Alexandre Nero começava a despontar na TV. Como Vanderlei, tímido verdureiro apaixonado por Catarina (Lilia Cabral), o ator fazia um papel pequeno, mas que já chamava a atenção. Exatos dez anos depois, Nero está no ar com um personagem importante – e complexo – na supersérie Onde Nascem os Fortes, exibida na Globo até 16 de julho.

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Uma espécie de coronel do sertão do século 21, seu protagonista, Pedro Gouveia, iniciou sua jornada como o culpado incontestável pelo sumiço de Nonato (Marco Pigossi) – após brigar com o rapaz por ciúmes de sua amante – e pelo desencadear de toda a tragédia da história. No entanto, ao longo da trama de George Moura e Sergio Goldenberg, Gouveia mostra outras camadas de sua personalidade. E que as coisas não são exatamente como pareciam no começo. 

“Só acredito em personagens assim: ninguém é tão ruim, ninguém é tão bom, e cada vez mais isso tem ficado claro na dramaturgia, principalmente na teledramaturgia, que sempre deixava muito claro o vilão e o bonzinho, e hoje as coisas têm se misturado”, analisa Nero, em entrevista ao Estado, de sua casa, no Rio, um dia após acabar as gravações da supersérie. Àquela altura, ele ainda não tinha se despedido totalmente de Pedro Gouveia. 

Nero veio de uma rotina intensa, que tivera início há quase um ano – e com grande parte das cenas rodadas entre o Cariri paraibano e os estúdios no Rio. Num ritmo que ele comparou às gravações de uma novela das 9. “Acho que eu nunca tinha feito isso. Primeiro que eu nunca tinha ficado seis meses fora de casa (no sertão da Paraíba). Não fiquei seis meses direto, mas fiquei seis meses indo e vindo, sem parar. Teve gente da equipe que ficou direto. Então, foi um processo emocionalmente muito difícil.”

Houve também o desafio de as gravações não cumprirem uma ordem cronológica da história. “A gente gravava o capítulo 50 e, depois, ia para o capítulo 2. Como ator, isso é muito difícil para você construir esse arco, de como o personagem começa, como passa, como termina”, conta.

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“A gente tinha que desenhá-lo, é um trabalho quase que artesanal, nunca tive tanto mapa de personagem como eu tinha agora, porque não tinha memória mais. Chegou uma hora que eu não lembrava mais como tinha feito a cena. A gente tinha que pedir a cena que foi gravada. O número de cenas é tão grande. A novela é gravada quase em ordem cronológica, é muito mais fácil. O filme, não, mas, nesse caso, estamos falando de 100 cenas, não de 5 mil cenas (como na série). Essa é a grande diferença.”

Um desafio e tanto para o ator. Pela sequência vista na TV, o personagem de Nero vai desmoronando aos poucos, sobretudo emocionalmente. Mas, como as gravações não foram contínuas, o ator precisou fazer essa derrocada de Pedro Gouveia de maneira fragmentada.

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“É muito difícil, ainda mais um personagem desse, que é o elemento-surpresa para o público. Aparentemente, você joga o público num lugar onde a ideia inicial era achar que ele é o grande vilão da história, e vão sendo reveladas outras histórias. Acho que esse é o grande barato do Pedro: a primeira impressão é de ele ser um grande vilão, e depois vai se percebendo que ele é um cara que errou, porém não é o grande vilão. Por incrível que pareça, tem coisas bem piores que aquilo”, conta o ator, de 48 anos, e que está prestes a ser pai pela segunda vez. 

Para Nero, esse é um mérito dos autores. “Acho que toda a construção do Pedro que as pessoas enxergaram como vilão se deve à dramaturgia do George e do Sergio, porque todas as faces do Pedro estavam ali desde o início: um pai apaixonado pelos filhos, que tem problemas no casamento. Tem algumas caricaturas da sociedade ali que deixam parecer que o Pedro é um grande filho da p...”, diz. “As pessoas quase esquecem o lado humano dele, é como se todo o resto não valesse absolutamente nada, de ser bom pai, de ser um cara que a cidade gosta. A dramaturgia colocou o Pedro como um pilantra ali, e escondeu os outros pilantras.”

Coincidentemente, desde a novela Império, de 2014, em que viveu o emblemático Comendador, Alexandre Nero vem emendando personagens ambíguos, que não se mostram abertamente vilões ou mocinhos. Depois do Comendador, vieram Romero, em A Regra do Jogo (2015), e agora Pedro, em Onde Nascem os Fortes. O único intervalo foi no papel cômico Geraldo Bulhosa na série Filhos da Pátria, no ano passado.

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“Normalmente, é assim que começa. No caso, os três (personagens): faz com que as pessoas não gostem de você para depois reverter. Seria mais fácil se fosse o contrário: fazer as pessoas gostarem e depois desgostarem. A coisa mais fácil do mundo é alguém te odiar. Então, você apresenta todos os defeitos, para depois mostrar as qualidades e as pessoas comprarem as qualidades é muito complicado. Depende muito do ator, da direção e da dramaturgia que está sendo construída para isso dar certo.” 

Aliás, Comendador é lembrado até hoje, conta Nero. “No início, ele não se mostrava nem um pouco emocional, diferentemente do Pedro. O Comendador foi revelando aos poucos isso, e aí as pessoas foram percebendo que aquele homem duro, bruto era muito amável no fundo. Já o Romero era um pilantra que tinha carisma, canalha, né? Todo canalha tem carisma (risos).”

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Localizada no Nordeste, Onde Nascem os Fortes, aparentemente, não sofreu pressão para ter atores regionais entre os protagonistas – no elenco em geral da supersérie, há um grande número de nordestinos. O mesmo não ocorreu com a novela das 9, Segundo Sol, que tem como cenário a Bahia: primeiro, a trama foi criticada por não ter o protagonismo de atores locais e, pouco tempo depois, por não ter mais artistas negros. Questionado sobre o assunto, Nero diz: “Acho que a questão do Segundo Sol tem mais a ver com o negro, não pelos atores serem de outros Estados. Sou curitibano. Se eu tivesse só de interpretar curitibano, estaria ferrado. Que personagem vou fazer? Meu Deus do céu, vou mudar de profissão”.

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E continua: “Aí a gente entra num lugar muito perigoso, porque, se o ator tiver de ser só aquela pessoa que ele é, a gente não está falando mais de ator, a gente está falando de outra profissão, que a gente pode inventar o nome. É uma discussão muito complexa para se resumir só sou contra ou sou a favor. Tive de fazer meu primeiro nordestino, que foi o Comendador, para me destacar na Globo. Acho que isso tem de ser discutido, sim, mas temos de ter cautela nas observações”.

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