Se eu fosse o Bahuan, estaria cansada de mim

Já disseram que o costume de tentar pensar feito personagem de ficção é pequeno burguês. É como se lá, sentado no sofá, o telespectador devesse apenas aceitar os acontecimentos, sem se envolver e, pior, sem julgar - para manter a pose, o distanciamento intelectual, talvez. É tese que desafia uma das maiores virtudes da telenovela, a capacidade de tornar os personagens íntimos do público.

Patrícia Villalba, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 23h42

Sem tomar conhecimento dessas teorias empoeiradas, minha mãe costuma confundir - de propósito - o personagem com o ator. Ângelo Antonio? Não sabe quem é, porque desde O Dono do Mundo (1991), chama o moço de Beija-flor. E parece sempre se preocupar sinceramente com o marido da atriz que está beijando horrores em cena - ainda mais quando é o Edson Celulari, que ela imagina estar em casa com olhos azuis lacrimosos, vendo a Cláudia Raia fazer par com o Carmo Dalla Vecchia.

Pode até ser pequeno burguês, mas é divertido ver TV assim. Eu, por exemplo, jamais acharia ruim ser neta da Bia Falcão, de Belíssima (2006). E até parece que com aquele DNA chique e poderoso, eu ia ser mal-ajambrada feito a "Zúlia".

Se eu fosse a Maya (Juliana Paes), ia querer que Caminho das Índias terminasse agora, que estou bem quentinha ao lado do Raj (Rodrigo Lombardi). E também para que não fosse obrigada a ver a tal vingança que o Bahuan (Márcio Garcia) está ameaçando armar - porque está com cara de que vai ser vexame. Shankar (Lima Duarte) disse que o ex-mocinho parece uma "carroça desgovernada". Mas "desgovernada" pressupõe movimento, intempestividade, e o Bahuan está estático, congelado, esquisitão. Outro dia, terminou a cena mordendo um sanduíche e limpando a boca na manga da camisa. O que foi aquilo, credo? Depois de ficar dias naquele quarto de hotel americano, ele disse na terça-feira que vai abrir um restaurante no Rajastão e que quando o Raj e Maya souberem, vão ver que ele está progredindo. Imagina se o Raj vai raspar o cotovelo na parede por causa disso, que nada!

Não dá para ficar no lugar de Bahuan. Ele largou a Maya na chuva com aquela malinha do século 19, depois de tentar pregar a desculpa esfarrapada de "vencer nos Estados Unidos", e agora quer vingança de quê? Sai pra lá...

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