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Roteirista de 'Dexter' comenta a última cena da série

'O ato mais altruísta possível para Dexter era se afastar e se entregar a seu monstro interior', diz Scott Buck

Clarice Cardoso, O Estado de S. Paulo

19 de fevereiro de 2014 | 19h31

Dexter é uma dessas séries que aparecem de vez em quando com uma premissa irresistível: um serial killer com alma caridosa. Durante o dia, o personagem interpretado por Michael C. Hall é um irmão exemplar que trabalha para a polícia de Miami, ajuda a resolver crimes (e, assim, sacia em parte sua sede de estar sempre em contato com sangue). À noite, caça implacavelmente criminosos que conseguiram escapar da Justiça. Só ataca quando conseguiu provas suficientes de sua culpa. Segue à risca um código moral inventado por seu pai.

As primeiras temporadas mantinham o atrevimento dessa ideia inicial e se resolviam muito bem. Confome o tempo ia passando, porém, a coisa parecia se repetir: Dexter se envolvia com algum vilão que ameaçava derrubá-lo, a coisa se arrastava por alguns episódios e, como num passe de mágica, em um episódio (ou menos) tudo se resolvia e todos seguiam sua vida. O showrunner da série, Scott Buck admitiu ao Estado que parte disso foi um risco assumido por ele: estava no jogo fazer algo presumível para continuar entregando aos fãs a série de que eles gostavam.

No oitavo e último ano, porém, Dexter parecia mudado na aparência. Arrumou uma namorada diferente das que tinha antes: esta também era uma assassina. Não foi a primeira com quem compartilhou seu segredo, mas sim a única que entendia o passageiro negro que levava dentro dele, a necessidade e o prazer de matar e tirar uma vida. Hannah (Yvonne Strahovski) entrou fundo em sua vida: envolveu-se com o filho pequeno de Dexter, passou a atuar quase como sua madastra. Os dois planejavam uma fuga juntos para a Argentina, onde começariam uma vida nova, do zero. Era propaganda de margarina demais para um homem que pica suas vítimas em pedacinho e as joga no mar dentro de sacos de lixo.

"Apenas na superfície Dexter começou a ser uma pessoa mais humana, mais agradável", explica Scott ao Estado. "O próprio Michael comentou que, quanto mais humano Dexter se tornava, quanto mais ele virava um cidadão exemplar, mais aterrorizante era o fato de que ele ainda saía à noite para assassinar pessoas. De muitas maneiras, depende do modo como você encara a série e o personagem."

"É mais fácil perdoar um monstro por agir como um monstro do que perdoar alguém humano por fazer a mesma coisa. Então, Dexter foi virando alguém mais bondoso, mas, do lado de dentro, era mais aterrador que ele conseguia manter essa máscara tão bem sendo quem ele era. Além do que, ele era um pai solteiro de um bebê, ele era tudo o que aquela criança tinha, e ainda assim arriscava tudo para sair e continuar com suas matanças. Como pode ver, há muitos ângulos pelos quais você pode encarar o modo com que ele agia", completa.

Muito do que Scott diz ao Estado se resume no olhar de Michael para a câmera na cena final da série. Depois de causar uma situação que levou à morte da irmã, sua única parente, abandona a namorada com o filho rumo à Argentina e forja a própria morte. Ninguém sabe o que se deu dele. Até que o encontramos no meio dos Estados Unidos dentro de uma cabana. Ele está fisicamente diferente, e olha para a cama com um olhar forte, penetrante. O passageiro interno que ele tanto tentou controlar finalmente assumiu o controle.

"Fizemos um programa sobre um serial killer, então seria totalmente fora de contexto dar a ele um final feliz. Nunca ficaríamos feliz com uma situação assim. Sei que Dexter sempre se safou de todas as tragédias que aconteceram em volta dele: a morte da Rita, a morte de Doaks, a morte de LaGuerta... Ele sempre saiu dessas situações quase sem cicatrizes, e voltava para sua vida normal. Finalmente, com a morte da irmã dele, ele percebeu que ele foi totalmente e diretamente responsável por tudo isso. E essa era a nossa intenção. Foi só nesse momento que ele se deu conta de todo o dano que havia provocado, o que se somou à toda a dificuldade que ele teve por toda a temporada de tentar equilibrar seu lado psicopata com seu lado humano. Foi quando ele percebeu que tinha de dar um fim a isso. Saber que ele era um perigo em potencial para a namorada e para o filho o fez tomar a decisão mais humana de sua vida: sair da vida deles", explica Scott. "O ato mais altruísta possível para Dexter era se afastar e se entregar a seu monstro interior. Era isso que queríamos passar naquela cena final, naquele olhar do Michael. Dexter abandonou sua humanidade pelo bem daqueles que amava."

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