Amanda Perobelli / Estadão
Amanda Perobelli / Estadão

Rodrigo Santoro busca estabilidade e assume papel de pistoleiro em 'Westworld'

Seriado da HBO estreia no próximo domingo, 2, em exibição simultânea no Brasil e nos Estados Unidos

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

25 de setembro de 2016 | 06h00

Rodrigo Santoro bem tentou, mas os produtores da nova série norte-americana da qual ele participa não lhe deixaram galopar com seu cavalo. “Eu explicava que sabia o que estava fazendo”, ele conta. “Mas, lá fora é assim. Eles não deixam. Tinha o seguro e, qualquer coisa que possa acontecer, existe um processo. Lá eles processam, mesmo.” O “lá fora” referido pelo ator nascido em Petrópolis são os Estados Unidos. No país, onde Santoro reveza sua morada, alternando-se entre Brasil e o território norte-americano, ele engatou mais um projeto. Aos 41 anos, segue por mais uma série de TV no país de lá. Nove anos depois da pequena participação em 14 episódios da aclamada (e misteriosa) Lost, em 2007, o ator brasileiro integra o rechonchudo elenco de Westworld, nova produção do canal por assinatura HBO. 

A partir do dia 2 de outubro, próximo domingo, às 23h, a série fará sua estreia no Brasil – simultaneamente com a exibição nos televisores norte-americanos. Santoro estará lá como Hector Escaton, um personagem de caráter duvidoso. A roupa de couro, toda na cor preta, e a cicatriz no rosto do personagem o indicam propositalmente como uma vilão nesse faroeste de mentirinha. “Em Westworld, nada é o que parece”, explica o ator, ao Estado, na suíte de um hotel da zona sul de São Paulo. “Não é fácil definir quem é mocinho e o bandido. É misturado”, completa ele. 

Westworld revitaliza um clássico da ficção científica de 1973, escrito e dirigido por Michael Crichton, autor dos dois primeiros livros que deram origem à franquia Jurassic Park. Em resumo, algo difícil até para Santoro, mesmo tendo participado dos 10 episódios encomendados para essa primeira temporada, a série se passa num futuro distópico e é centrada em um parque de diversões para adultos com a temática do velho oeste. Nele, pessoas normais vão para liberar seus instintos – sexuais, violentos ou qualquer que seja – ou para viverem uma grande aventura como os antigos filmes de caubóis e bandidos. Interagem com os hóspedes personagens como o de Santoro, os chamados anfitriões, seres criados por meio de tecnologia avançada, que sangram e têm uma inteligência artificial. 

“Há algum tempo eu queria ter esse tipo de estabilidade”, explica o ator. “Com a série, agora, eu sei exatamente meu cronograma. Sei que gravaremos por cinco meses e, depois, posso me planejar sobre o que fazer nesse período que sobrar.” A participação de Santoro na primeira fase da novela Velho Chico, da TV Globo, como o coronel Afrânio, só se tornou realidade porque houve um espaço entre as datas de trabalho em Westworld. “Havia um sentimento ambíguo de me comprometer com algo por tanto tempo, longe do meu País”, ele pondera, e continua: “Por outro lado, e sempre há um outro lado nessa vida, havia a chance de conseguir me programar. Há anos gostaria de fazer mais trabalhos no Brasil, mas não conseguia. E também queria ter uma vida, né? Poder desfrutar um pouco mais das coisas.” 

Filmes de faroeste, conta Santoro, não foram parte da sua formação durante a infância e adolescência. Conhecia O Bom, o Mau e o Feio, clássico do cinema western de 1968, mas era pouco. “(O diretor) Sergio Leone, por exemplo, foi se tornar uma referência para mim quando me tornei ator e fui atrás de conhecimento. Assim descobri, ele, John Ford, outros grandes nomes do gênero, indo me alimentar desses grandes gênios.” Na infância, requentava o sítio dos avós maternos, em Ribeirão Preto, lugar onde ele ainda frequenta. Ali, aprendeu a andar a cavalo – algo que pode usar em Westworld, mas não era muito fã da dicotomia do faroeste de mocinho versus bandido. “Gostava de brincar de índio sobrevivendo no mato,” ele conta. “E de surfar, é claro.”

Aposta dá nova vida à fábula futurista de 1973

No pôster de Westworld – Onde Ninguém Tem Alma, lançado em 1973, um aviso anunciava: “Onde nada pode dar errado”. Era a premissa do parque de diversões nos quais humanos interagiam com robôs num cenário típico de um longa de western. É claro que, no filme escrito e dirigido por Michael Crichton, dariam errado – ou não haveria história para ser contada. Aos poucos, uma falha se generaliza nos robôs e eles passaram a matar os hóspedes, pessoas normais que iam ao parque para se divertir – um deles, em especial, o pistoleiro sem nome interpretado por Yul Brynner, fez um estrago e tanto. 

Westworld, a série da HBO que estreia no próximo domingo, 2, às 23h, resgata a premissa, mas altera o ponto de vista da história. Em vez de se acompanhar os seres humanos em sua tentativa de sobreviver às possíveis falhas de funcionamento dos tais anfitriões, o projeto criado por Jonathan Nolan, roteirista dos filmes da trilogia Batman: Cavaleiro das Trevas e Interestelar, e com a produção executiva de J.J. Abrams, parte da ideia de dar mais espaço aos personagens de inteligência artificial. Repleto de metáforas e subtextos, o seriado parece ir a fundo em temas como a tomada de consciência desses seres, que já não são robôs como imaginados nos anos 1970, e a selvageria humana quando se pode qualquer coisa. 

Com um elenco de peso, que inclui Anthony Hopkins, Evan Rachel Wood, Ed Harris, James Marsden, Thandie Newton, Jeffrey Wright e Rodrigo Santoro, Westworld entrega um episódio que necessita de atenção. A trama, bem engendrada, é apresentada aos poucos. É só ao fim da primeira hora que o telespectador pode ter alguma indicação mais concreta de como funciona esse parque de diversões. 

Com dez episódios, a nova atração da HBO ocupará uma faixa costumeiramente nobre na grade da emissora – a noite de domingo, por exemplo, costuma ter Game of Thrones, maior sucesso recente do canal. São temas complexos e questões a respeito da própria humanidade. É impactante o embate do nascimento da consciência daqueles que não a tinham, como dos robôs anfitriões, e a morte dela, enquanto os humanos deixam seus instintos mais primitivos aflorarem naquele espaço no qual, como no Velho Oeste, não há lei. Westworld é mais atual em 2016 do que em 1973. Antes, a ideia de um mundo no qual se pode dizer e fazer o que quiser, era ficção. Em 2016, isso se encontra nas redes sociais.  

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