Retrato de um herói bipolar sobre rodas

Filme biográfico sobre o ciclista escocês Graeme Obree tenta equilíbrio entre drama e aventura

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2008 | 00h01

Filmes baseados em histórias reais seguem a incontornável tendência de serem mais pesados que as tragédias pessoais de seus protagonistas. Não é o caso de O Escocês Voador. Apesar de contar o drama do ciclista bipolar Graeme Obree, que, em 1993, bateu o recorde mundial, percorrendo quase 60 quilômetros em uma hora, o filme dirigido pelo escocês Douglas McKinnon busca seu mote no mérito da superação dos limites. Está certo: ele já começa com Obree (o bom ator Jonny Lee Miller) tentando o suicídio numa floresta, mas McKinnon é discreto o suficiente para não insistir com a câmera, preferindo o caminho do flashback, que explica a origem do distúrbio do ciclista, perseguido por garotos da vizinhança num bairro popular.Esse pesadelo infantil assume ares sociológicos quando vemos Obree construir uma bicileta maluca destinada a tirar o título mundial de Francesco Moser. Com material de sucata, o que inclui até peças de sua máquina de lavar, o ciclista mais parece um daqueles escultores ingleses - Tony Cragg vem à memória - que reconstroem o mundo com os restos da civilização ocidental. Bem, o fato é que a vocação sociológica de McKinnon não é lá tão evidente e o drama de Obree fica mesmo na esferal individual, revelando um esportista depressivo cujo recorde significa mais que superação física.O filme poderia ser igualmente uma alegoria da predestinação social. Graeme Obree perdeu o título por força de mudanças no regulamento que levam o ciclista a uma espiral de desespero: a União Ciclista Internacional alterou as regras sobre o layout das biciletas em 1994, justamente no ano em que morreu seu irmão. Alegria de pobre dura pouco.

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