Repórter vai de preto a velório, mas não chora

Sempre gostei de filme de jornalista, de Todos os Homens do Presidente, o obrigatório da profissão, a Um Sonho sem Limites, aquele em que a Nicole Kidman é uma repórter de TV surtada. Mas, curiosamente, não gosto de jornalista de novela. Quando criam certos personagens jornalistas ou retratam a imprensa em alguns capítulos, os autores só podem estar querendo se vingar das notas atravessadas que a gente publica de vez em quando. Só pode ser isso.

Patrícia Villalba, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2009 | 01h03

Mas não chego a ficar furiosa, como ficaram as enfermeiras na época da Alzira. Melhor rir. Fico imaginando, por exemplo, que a repórter Lígia Brandão (Miriam Freeland) vai chorar a qualquer momento em Poder Paralelo. Ela não tem cara de choro, me diz?

Fico preocupada com o futuro da carreira da pobre Lígia. Outro dia, o Tony Castellamare (Gabriel Braga Nunes) topou dar uma entrevista. Ela pôs o gravador na mesa; ele mandou desligar. Falou, então, duas frases e só. Fiquei aflita até, pensando "e agora, o que ela vai publicar?" Sorte dela que o chefe é o tal do Baruel (Carlos Bonow) que, com aquela cara de personal trainer, veja bem, não deve ser muito exigente. Sinto até saudades da Solange (Lídia Brondi), e sua franjinha impetuosa capaz de desafiar até a Odete Roitman (Beatriz Segall) em Vale Tudo - repórter dos sonhos.

Fora isso, intriga-me também a ameaça que a Silvia (Débora Bloch) andou lançando para o Ramiro (Humberto Martins) em Caminho das Índias: "Se me despejar, eu chamo toda a imprensa!" Toda, todinha? É engraçado como "toda a imprensa" se mobiliza rapidinho em novela para cobrir, por exemplo, as brigas entre a Célia Mara (Renata Sorrah) e a Branca (Susana Vieira) em Duas Caras. Tinha até link ao vivo na TV, direto da Universidade Pessoa de Moraes!

Mas nenhuma mobilização de "toda, todinha, a imprensa" se compara ao enterro de Bia Falcão (Fernanda Montenegro) em Belíssima. Muita gente tirou onda com o fato de que "toda a imprensa" presente ao evento vestia preto, seguindo o dress code. Eu, que fui de preto aos dois enterros que cobri na vida, achei a cena muito apropriada e plasticamente perfeita. Afinal de contas, estavam enterrando a Bia Falcão! E com tanto repórter jeca na história da telenovela, poxa vida, deixa a gente um pouco chique, vai...

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