Repórter da vida real só pega resfriado

Parem as rotativas! Há mais ou menos 50 anos repórter nenhum fala isso dentro de um jornal - se é que algum já falou. É o tipo de frase que só sai da boca de um técnico de manutenção e, ainda assim, quando há problema sério no equipamento. Pois é só o que está faltando aparecer nos diálogos de Zé Bob (Carmo Dalla Vecchia), o incansável repórter-fotógrafo-motorista-cozinheiro-e-pegador de A Favorita.Zé Bob, como sabem os fãs da ótima novela de João Emanuel Carneiro, faltou às aulas de ética profissional na faculdade. Talvez por isso ele não se acanhe em alternar uma denúncia com um beijinho na bonitona mais à mão. O combativo jornalista não vê problema algum em ter intimidade com suas fontes - em outras palavras, Zé Bob dorme com todas que entrevista. Lamento arruinar a fantasia sexual de muita gente, mas isso não acontece - pelo menos, não com a freqüência que se vê na novela. Em geral, repórteres são considerados chatos e enxeridos - e, desculpem os colegas, estão longe de ter a estampa de uma Juliana Paes ou de um Carmo Dalla Vecchia. Mas Zé Bob e Maíra são figurinhas de ficção. Assim como existe atriz feia, existe jornalista bonita.Se personagem de novela se comportasse como seus equivalentes na vida real, as novelas seriam um tédio. Para ficar só na Favorita, tudo ali mostra o que as pessoas acham que é um jornal e não um jornal de verdade. A chefe de reportagem (Rosi Campos, escandalosamente mal aproveitada) só sabe dizer que "o homem lá em cima ficou zangado". Sem falar em um tremendo absurdo, numa novela produzida por um império da comunicação: numa época em que todo mundo parece carregar uma máquina digital no bolso, o repórter-pegador ainda usa fotos de papel. O "homem lá em cima" não investiu um tostão num programa de informática que trabalhe as fotos no computador, como acontece na sempre entediante vida real. Mas jornal de novela é e sempre será uma simulação da realidade. Ou alguém ainda acredita que hotéis, restaurantes e hospitais de novela são "de verdade"? Pelo ímpeto de processar autores e emissoras - e também por um indisfarçável ranço de mau humor - só os sindicatos das enfermeiras parecem levar novela tão a sério.e-mail: mvianinha@hotmail.com

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