Maurício Fidalgo/TV Globo
Maurício Fidalgo/TV Globo

Renato Góes será o protagonista da supersérie 'Os Dias Eram Assim'

O ator interpreta um médico que viverá uma história de amor nos conturbados anos da ditadura militar no Brasil

Amilton Pinheiro, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2017 | 05h00

Depois de viver o visceral Santo dos Anjos jovem, papel que seria interpretado por Domingos Montagner (1962-2016) na segunda fase da novela Velho Chico, Renato Góes encarna seu primeiro protagonista na supersérie Os Dias Eram Assim, que estreia no dia 17 de abril na Globo. “Em Velho Chico era o protagonista, só que por um período muito curto, agora será por um trabalho do início ao fim, o que gera mais responsabilidade”, conta o ator por telefone ao Estado em um dos intervalos das intensas gravações da supersérie no centro do Rio de Janeiro.

Os Dias Eram Assim será exibida no horário das 23h, e mostrará o amor impossível entre dois jovens – o médico Renato Reis (Renato Góes) e a estudante de Letras Alice (Sophie Charlotte) nos conturbados anos 1970. Tudo acontece durante a vigência do AI-5, quando a ditadura militar se tornou ainda mais dura, cerceando todos os direitos civis no governo de Emílio Garrastazu Médici – e o início da abertura democrática, no começo dos anos 1980. “É uma história de amor que tem a ditadura como pano de fundo e esta é uma fase muito propícia para retratar essa trama, tendo em vista o momento político que estamos vivendo”, diz Góes.

O médico Renato Reis é mais envolvido com os problemas da família e dos pacientes que atende no hospital em que trabalha do que com os acontecimentos políticos daquele período tão controverso. “Não é um personagem alienado com as coisas que estão acontecendo, ele é consciente, mas é mais dedicado às pessoas que estão em volta dele. Ele tenta resolver os problemas do irmão, que vai às ruas lutar contra a ditadura, da mãe, da irmã, da família da namorada e, principalmente, se preocupa com as coisas que acontecem no hospital”, entende o ator de 30 anos.

Mocinho. Muitos atores jovens, que têm a chance de protagonizar algum trabalho na televisão, sofrem com a rejeição do público, quando o papel que lhes cabe é a do mocinho ou da mocinha. Nesses casos, a identificação do expectador acaba se voltando para os vilões, que se tornam mais atraentes aos olhos de quem assiste. “Eu, sinceramente, acho que é desinteressante quando o ator tem a convicção de que o personagem não é atraente pelo simples fato de ser mocinho, aceitando o senso comum de que esse tipo de personagem é sempre chato, meloso e sem vida. É algo que se criou e que os atores aceitam. A história de Renato é tão cheia de vida, de transformações, de contradições e nuances que não teria como achar chato e desinteressante só porque é o mocinho da drama”, explica o ator.

A carreira de Renato Góes, que nasceu e se criou no Recife, Pernambuco, começou depois que ele fez um curso profissionalizante de teatro no Sesc, mas os trabalhos não pintavam, não sabia quem procurar, que caminhos seguir, até que ele fez uma pequena participação no filme Jesus, o Nascimento, em 2005, que foi rodado no mesmo local onde é encenado o espetáculo Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém. 

Lá conheceu Dirce Pacheco, que é da família Pacheco, idealizadora do espetáculo, e na primeira oportunidade que teve ao seu lado, confessou que gostaria de participar da peça, mesmo que fosse em uma figuração. “Peguei o seu contato, e sempre ligava para ela para falar que não se esquecesse de mim. Até que um dia, Dirce me chamou para falar que tinha um papel, que era de João, um dos apóstolos de Jesus, um personagem importante no drama, e que por isso sempre tinha sido feito por atores mais velhos. Eu seria o primeiro jovem a interpretá-lo”, conta.

Ele fez a Paixão de Cristo em uma época muito importante do espetáculo, que comemorava 40 anos, e da própria carreira que se iniciava para valer com aquele personagem, que simbolicamente a batizou. Mesmo quando o ator já tentava “um lugar ao sol” entre São Paulo e Rio, chegou a voltar a Pernambuco durante cinco anos para participar da peça. 

Mesmo tendo se fixado no eixo Rio-São Paulo em 2006, Góes nunca esqueceu a sua fala nordestina e acredita ter chegado em um momento em que a televisão estava se abrindo a todos os sotaques brasileiros. Era também, no seu entendimento, a hora em que o cinema nordestino explodia no País com toda a sua originalidade. 

“No início, algumas pessoas questionavam meu sotaque e meu modo de vestir por considerar que não se adequavam ao padrão de quem trabalhava em televisão, mas os filmes feitos por nordestinos, na ocasião, ajudaram a valorizar o nosso modo de ser e de falar. O Céu de Suely, Cinema, Aspirinas e Urubus, Baixio das Bestas, entre outros, contribuíram para essa mudança de mentalidade”, acredita.

Umas das características que o ator atribui ao povo pernambucano – que é a maneira como eles fazem as coisas para dentro, como se fosse para si, independentemente da aceitação ou não do outro –, certamente deve tê-lo ajudado a superar os vários ‘nãos’ que foi recebendo, como o do teste para Malhação, realizado em outubro de 2005. “Fiz para saber como funcionava, para ter experiência, mas não passei, mandaram melhorar algumas coisas. Nada que aconteceu de ruim na minha vida me fez frear. Recebi os ‘nãos’ como estímulo para continuar”, revela ainda.

Anjos da Lapa. Renato Góes não só continuou a carreira, como demonstrou, quando lhe deram oportunidade, ter talento e personalidade para compor qualquer personagem, como Fausto Peixoto, de Cordel Encantado, que o ator considera um divisor de águas; Santo dos Anjos, em Velho Chico; e Micuim, do filme Por Trás do Céu,de Caio Sóh, que está em cartaz nos cinemas, e que lhe deu o prêmio de ator coadjuvante no Cine PE no ano passado. “Encontrei em cada um desses personagens o desafio que todo ator quer encontrar, o do abismo da incerteza de criar algo sem a nítida noção do que vai enxergar lá na frente”, filosofa. 

Um desses abismos, a que ele se refere, lhe foi dado quando interpretou o cantor Marcelo D2 no filme inédito Anjos da Lapa, de João Araújo e Gustavo Bonafé, que conta a história de como foi formada a banda Planet Hemp. O ator, que nunca fez um personagem que cantasse, se empenhou tanto para viver Marcelo D2, que montou uma banda para tocar as canções deles durante oito meses, e terminou convencendo os diretores a colocar números musicais no filme. “Eu canto junto com Ícaro Silva, que faz Skunk. Foi uma experiência única, pois só tocava alguns instrumentos. No meio da construção do personagem, a voz é uma consequência, e na época em que Marcelo D2 é retratado, sua voz era de desabafo”, acrescenta Góes.

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